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De volta às origens
Novo presidente do Fator fala sobre os projetos do grupo para a área de investment banking e asset management após a venda da corretora

Edição 340

Durante os últimos dois meses dos três transcorridos desde que assumiu a presidência do Banco Fator, o executivo João Antonio Lopes tem mantido reuniões frequentes com dirigentes de fundos de pensão e de órgãos reguladores do mercado para explicar qual é o projeto do grupo após a venda da sua corretora para o BTG Pactual, em maio último, e da mudança na estrutura de comando do banco e da gestora de recursos, a FAR, no final de junho.
“Todos têm nos recebido muito bem, percebo que há um interesse real e um carinho grande pela nossa marca, acho que ela está na memória afetiva do mercado”, diz Lopes que está em sua segunda passagem pelo banco. Segundo ele, um interlocutor do Banco Central chegou a dizer, inclusive, que torcia pelo sucesso da nova estratégia. “Se até o BC torce pela gente, então a coisa vai bem”, brinca.
Mas, para onde quer ir o Fator? “Na verdade, queremos voltar às nossas origens”, diz Lopes. O banco nasceu em 1967 como uma corretora de valores voltada à operações no mercado de ações, que sempre foi o foco de atuação do seu principal acionista, Walter Appel. Quando o Banco Central abriu a possibilidade das instituições financeiras tornarem-se bancos múltiplos, no final da década de 80, a corretora acabou tomando esse rumo porque os custos e os processos para obter essa autorização eram praticamente iguais a virar banco de investimentos. “Mas acho que foi um erro, nunca fomos especializados em crédito, o negócio do banco era operar equities”, explica Lopes.

Ele veio para o banco, pela primeira vez, em 1995 para montar a área de mercado de capitais e fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês). Já era o responsável por essa área na Trevisan, consultoria que mantinha na época uma parceria com o Morgan Stanley para atuar em concessões e privatizações, atividades então muito aquecidas por conta das privatizações que os governos federais e estaduais faziam nas empresas elétricas e de telecomunicações. Convidado por Appel, ele montou essa área no Fator e assumiu paralelamente a diretoria comercial do banco, tendo participado, nos treze anos que esteve no grupo, de quase meia centena de projetos de M&A.
Embora tenha deixado o banco em 2008 para montar sua própria boutique especializada em corporate venture capital, denominada PortCapital e que atua em parceria com a Embraer em dois fundos, Lopes não se afastou totalmente do Fator. Manteve-se como membro do Conselho de Administração do banco, tendo inclusive participado de decisões recentes, como a venda da corretora para o BTG.
Na sua volta ao Fator, agora como presidente, Lopes deixou as funções executivas que tinha na PortCapital. A boutique passou ao comando dos outros sócios e passou a ter uma participação societária do Fator, que inclusive prepara o lançamento de uma nova operação na área de venture capital. “Será uma operação grande e muito inovadora, não posso dar detalhes até porque é uma parceria e ainda não assinamos o contrato, mas vai mexer com o mercado”, diz. Ele adianta que o lançamento deve acontecer “em breve”.
Junto com a presidência do banco ele acumula atualmente também o comando da FAR, tendo substituído nessas posições, respectivamente, Gabriel Galipolo e Paulo Gala que deixaram a instituição no final de junho. Além das operações de investment banking e asset management, o grupo conta com a Fator Seguradora que encerrou o ano passado com lucro líquido de R$ 2,49 milhões. Apesar do bom resultado da seguradora e dos R$ 266 mil de lucro apresentados pela FAR, o consolidado do grupo registrou prejuízo de R$ 29,24 milhões em 2020, resultado ainda pior que o de 2019, quando perdeu R$ 17,86 milhões.
A principal causa dos resultados negativos do grupo nos últimos anos foi a operação da corretora. Com a venda dessa operação, o grupo fica mais leve para dedicar-se às três áreas que quer preservar e ampliar. Na seguradora, que na verdade é um business meio à parte, não há intenção de qualquer mudança uma vez que a operação está indo bem.
No banco de investimentos as coisas também tem melhorado bastante. O banco assessorou o BNDES na privatização da Cedae ocorrida em abril, conseguindo que dos quatro blocos licitados três fossem adquiridos com ágio de 113%, ficando apenas um sem oferta, e também assessorou a venda de uma operação da AES para a Enel em maio. E nesse momento está fazendo uma emissão de infraestrutura, em reais e garantida por uma agência do governo dos EUA, de uma PPP de iluminação pública no Rio de Janeiro.

É na FAR que está, talvez, o maior desafio de Lopes. Ele terá que reverter um declínio no volume sob gestão que vem de anos. Ao final de junho último a FAR tinha R$ 2,95 bilhões sob gestão (ver Top Asset, nesta edição), o que representa 38% dos R$ 7,72 bilhões que chegou a ter em dezembro de 2010. Para tentar inverter essa tendência de longo prazo, e diversificar a atuação da gestora, ele conta com a atração de novos talentos e a montagem de uma estrutura de partnerships que será anunciada em breve.
Nos últimos dois meses a FAR já ampliou o número de pessoas de 18 para 27, e ainda existem quatro ou cinco vagas em aberto para contratação imediata. Das nove pessoas trazidas pela gestora nesse período de dois meses, duas vieram do próprio banco para fortalecer a asset. Rodrigo Vaz deixou a diretoria comercial do private para assumir a diretoria comercial da gestora e Marcello Negro deixou a tesouraria do banco para assumir a área de gestão de fundos multimercados. Um outro executivo veio de fora, para tocar a área de fundos imobiliários. Trata-se de Telemaco Genovesi, contratado em setembro para tocar a estratégia de “tijolos” da FAR. “Nossa aposta é em talentos”, diz Lopes. “Com o anúncio da nova estrutura de partnership todos os diretores e gestores vão virar sócios da FAR, vão participar dos resultados”.
Dentro dessa nova estrutura a FAR prepara algumas estratégias diferenciadas para os próximos meses. Será lançada uma nova família de fundos imobiliários com lastro em “tijolos”, uma nova família de fundos de crédito com diferentes vocações incluindo agro, infraestrutura e consignado, além de um novo multimercado que foi lançado em setembro (Fator Hedge) sob o comando de Marcello Negro. Com base nessas novas estratégias, e contando com um time de talentos motivados pela partnership, ele espera que a FAR recupere em breve seu pico de asset under management (AUM) e caminhe para os R$ 10 bilhões. “Essa é a nossa meta”.

Decisão dura, mas acertada
A venda da corretora do Fator para o BTG Pactual em maio passado foi uma decisão dura mas acertada, analisa Lopes. “Estancamos a sangria”, diz ele. O prejuízo da corretora do Fator, que alcançou R$ 11,21 milhões negativos em 2020, não é um caso isolado. Ao contrário, quase todas as grandes corretoras com presença forte no mercado dez ou quinze anos atrás vinham perdendo dinheiro, sendo que algumas fecharam e outras foram vendidas para grupos maiores e com grandes investimentos em tecnologia.
A Souza Barros fechou no ano de 2015, a Magliano foi comprada pela Neon Pagamentos no ano passado, a Socopa (que havia se tornado digital e mudado o nome para Singulare) foi comprada pela XP há dois meses, enquanto a Renascença foi comprada pela Warren em outubro último. Já a Spinelli e a Concórdia se juntaram para criar a Necton, mas essa foi comprada pelo BTG no final do ano passado, pouco antes de comprar também a Fator. “Além da queda das taxas o negócio virou intensivo em tecnologia, que significa ser intensivo em capital”, diz Lopes.
Apesar disso, segundo ele, vender a corretora foi uma decisão difícil para o grupo, mas foi acertada. Além de estancar a sangria, a corretora tinha uma operação de varejo que nunca esteve no DNA do Fator. Tanto é assim que na sociedade que tinha com a Dória Atherino, onde controlava 80% e a Dória 20%, a diretoria era quase toda formada por gente da Dória. Apenas na operação de research, onde as análises das empresas era o que importava, o pessoal e o DNA eram da Fator.