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Campo está quente
Embora a maioria dos Fiagros registrados na CVM sejam de papel (CRAs), há também fundos de transformação de pastos degradados em plantações

Edição 341

País com vocação agrícola, era uma incoerência que o mercado de capitais brasileiro ainda não tivesse encontrado maneiras de usar as operações do agronegócio como lastro para produtos de investimento. Em meados de julho deste ano, entretanto, essa distorção começou a ser corrigida com a publicação pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) da regulamentação provisória dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro), que passaram a funcionar com estruturas regulatórias tomadas de empréstimo dos fundos imobiliários (FIIs), de participações (FIPs) e de recebíveis (Fidcs). O quarto produto dessa nova classe, um Fiagro imobiliário, foi lançado pela XP no último 16 de novembro.
O XP Crédito Agrícola já captou R$ 140 milhões e está investindo a carteira em Certificado de Recebimento do Agronegócio (CRAs), basicamente de produtores rurais com garantia real. O foco são usinas de açúcar e álcool, culturas de soja e outras empresas da agroindústria. Além dele, estão operacionais também cinco outros, sendo três imobiliários e dois de direitos creditórios. Outros 23 fundos são relacionados como em estágio pré-operacional, sendo 18 imobiliários e cinco de direitos creditórios no sistema de registro da CVM (ver quadro).

Entre os que ainda vão entrar no mercado está um da AGBI, gestora especializada no setor de agro que lançou seu primeiro produto em 2013, na forma de uma S.A. que captou recursos de family offices para investir em terras de pastagem degradados que transformou em áreas de lavouras produtivas. A gestora captou R$ 40 milhões e terminou de fazer o desinvestimento do mesmo, devolvendo R$ 177 milhões aos investidores, mais de quatro vezes o valor investido. O segundo produto, estruturado em 2015 como um FIP de R$ 77 milhões, seguiu a mesma tese de transformar terras degradadas em lavouras produtivas e foi colocado também junto à family offices. Esse FIP, ainda investido, deve começar a fase de desinvestimento no final deste ano ou começo do ano que vem.
O terceiro produto da gestora será no modelo de Fiagro, mas ainda está sendo discutida com o escritório Pinheiro Neto se será um Fiagro imobiliário ou de participações. A tese do AGBI Fiagro III Carbon será a mesma dos dois produtos anteriores, transformar terras degradadas em lavouras produtivas, mas agora com um viés verde já que está prevista também a medição do carbono sequestrado pelas plantações e a venda de créditos desse elemento no mercado livre. O fundo será lançado no final de novembro no valor de R$ 300 milhões, a serem alocados em cinco áreas dos estados de Mato Grosso e Tocantins. “Já temos no pipeline quais são essas potenciais áreas, estamos nesse negócio desde 2013 e conhecemos bem a região e suas fazendas”, afirma o sócio da AGBI, Gustavo Fonseca.
Segundo ele, a medição do sequestro de carbono das plantações será feita pela empresa Agrorobótica, que desenvolveu um sistema (hardware e software) para medir a fixação do carbono no solo. O sistema, de acordo com Fonseca, é similar aos robôs usados pela Nasa (agência espacial dos EUA) para explorar água no planeta Marte. O carbono fixado no solo é quantificado pela empresa e certificado junto às agências internacionais, para depois ser oferecido no mercado livre, uma vez que o Brasil ainda não dispõe de regulamentação para esse comércio. Os resultados dessa venda, junto com os resultados da lavoura, irão compor a rentabilidade do fundo.
Segundo ele, a subida da taxa de juros pelo Copom não deve atrapalhar o lançamento, uma vez que os investidores dessa classe de produtos gostam de diversificação e olham o longo prazo e a experiência do gestor. “É o nosso terceiro produto com a mesma tese, já temos um produto desinvestido e outro próximo do desinvestimento, já entregamos o ciclo completo”, diz Fonseca.

Outra que prepara lançamento de um Fiagro imobiliário para breve é a Capitânia, com um fundo de R$ 100 milhões para investir em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e cotas de Fiagro. Será mais um fundo de papel, a exemplo dos outros quatro que já estão em funcionamento. Segundo o sócio da Capitânia, Arturo Profili, o fundo será lançado em dezembro e funcionará como uma espécie de aprendizado da gestora nesse mercado, que conta com cerca de 10 mil títulos provenientes de emissores de diferentes áreas, como cooperativas, empresas de armazenamento, fabricantes de insumos e de defensivos etc. Além disso, como o fundo comprará cotas de outros Fiagros, a gestora terá que se familiarizar com as estratégias de 20 a 25 fundos que estão sendo lançados e dos que já estão no mercado.
O objetivo desse aprendizado, segundo Profili, é fazer uma segunda emissão do fundo, no valor de cerca de R$ 500 milhões, entre maio e junho do ano que vem. “Até lá, nossa equipe terá feito um levantamento bem apurado do mercado”, diz.
De acordo com o sócio da Capitânia, o funcionamento dos Fiagros tem grande similaridade com os fundos imobiliários, dos quais a gestora tem grande expertise, uma vez que respondiam por R$ 2,77 bilhões dos R$ 11,87 bilhões que a gestora tinha sob gestão em 30 de junho, segundo o ranking Top Asset publicado por Investidor Institucional. “Essa é uma das razões pela qual resolvemos lançar o fundo, é uma classe muito similar aos imobiliários”, explica.
Segundo ele, a palavra de ordem no agronegócio brasileiro hoje é produtividade, uma vez que o produtor não consegue mais fazer o que fazia no passado, vender terras caro nas regiões Sul e Sudeste e comprar grandes extensões na região Centro-Oeste por um preço bem menor. “A diferença de preços, hoje em dia, é bem menor, os preços estão se equiparando”, diz Profili. Segundo ele, isso obriga o produtor a buscar aumento da produção através de maior produtividade e não mais da incorporação de novas áreas. Aliada a essa restrição de preços, há também a questão ambiental, que restringe a conversão de áreas nativas em novas plantações.

Outra que está estudando o setor, embora ainda não tenha tomado uma decisão, é a BRZ. A gestora já convive com esse setor há tempos, através dos seus fundos de participações, que interagem com o agronegócio através de intersecções nas áreas de galpões de armazenamento, ferrovias, portos etc. “Nossa experiência no agro nos leva a avaliar a possibilidade de entrarmos nos Fiagros, então estamos olhando atentamente as oportunidades”, diz o CEO da BRZ, Ricardo Propheta.
Segundo ele, a avaliação passa pela avaliação dos cenários, com a taxa de juros em elevação pelo Banco Central. “Obviamente, estamos acompanhando o ambiente das taxas de juros, cuja alta pode trazer mais atratividade para os títulos públicos por parte dos investidores institucionais”, explica. “Não acho que a subida dos juros inviabilize esse tipo de veículo, mas talvez num primeiro momento ele tenha mais atratividade para pessoas físicas por conta da vantagem tributária, mas os institucionais não vão ficar de fora ao longo do tempo”.
Segundo Propheta, a gestora está estudando as possibilidades que existem nas três vertentes dos Fiagros, tanto de imobiliários (através do uso de CRAs) quanto de participações (através de projetos) e de recebíveis (com recebíveis de empresas do setor). Criada em 1998, a BRZ operou como uma incubada dentro da GP Investimentos até 2006, quando se separou da estrutura da gestora de Jorge Paulo Lemann e ganhou identidade própria. Hoje tem cerca de R$ 3 bilhões sob gestão, sendo cerca de 60% em FIPs e 40% em fundos de crédito.