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IS é o meu sobrenome
Anbima fará audiência pública para discutir a ampliação do uso do sufixo IS, de investimento sustentável, também para os FICs e FIDCs

Edição 346

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) colocará em audiência pública em junho uma regra específica para incluir os fundos feeders (FICs) e os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) em sua nova nomenclatura de investimentos sustentáveis, com direito a exibirem o sufixo IS no nome. A classificação passou a valer em janeiro deste ano para fundos de renda fixa e variável. “Com isso, acreditamos que será acelerado o processo de adesão das carteiras de renda fixa, devido ao grande número de feeder funds que poderão ser classificados nessa categoria”, explica a gerente executiva da área de representação da Anbima, Juliana Agostino.
A entidade espera concluir até o final do ano um processo para incluir também os FIPs (Fundos de Investimento em Participações) e os fundos multimercados nas novas denominações de sustentabilidade. O sufixo IS (Investimento Sustentável) veio para diferenciar os fundos de investimentos que têm o conceito ESG (ou ASG na sigla em português para critérios de sustentabilidade ambiental, social e de governança) como seu objetivo principal. Por enquanto, o sufixo foi aprovado apenas para um único fundo, uma carteira master da asset do BNP Paribas no Brasil.
A nova regra estabelece exigências a serem cumpridas tanto pelos fundos quanto pelas casas gestoras e separa as carteiras em dois grupos: aquelas com direito a usar o sufixo IS e aquelas que apenas integram as questões ESG aos seus processos de gestão. Esses fundos não recebem o sufixo mas podem utilizar a nomenclatura de sustentabilidade em seu material de divulgação, explica Agostino. Além do primeiro fundo IS, já aprovado, estão em processo final de aprovação dois fundos para “integração ASG”.
A regulação trouxe como novidade ainda a inclusão dos fundos de renda fixa na classificação ESG, anteriormente restrita aos fundos de ações. No momento, a Anbima constrói um banco de dados para mapear melhor o número de fundos em processo de adesão, que ainda é baixo. Esse ritmo reflete o rigor das regras definidas e que exigem alguns meses de adequação, avalia a gerente.
Para os 35 a 40 fundos de ações que já estavam classificados na categoria sustentabilidade/governança segundo a regra anterior, de 2008, o prazo de adequação às novas exigências é de 12 meses contados a partir da edição da norma, em janeiro. Os demais fundos de ações e de renda fixa já existentes e que quiserem obter essa classificação terão 180 dias para adaptação, até o início de julho.

A nomenclatura IS é sempre relativa ao fundo e não é estendida às casas gestoras, mas estas também precisam preencher determinados requisitos para ter seus fundos aceitos. Foram criados critérios em relação às suas estruturas de governança e políticas de compromisso com o ESG, assim como procedimentos e ferramentas utilizados para acompanhar os ativos ao longo de toda a vida dos fundos.
Nada disso existia na indústria brasileira de fundos até então, já que as regras anteriores eram mais genéricas, associadas às questões de governança das empresas investidas, dentro dos critérios do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial), explica Agostino. “ Analisamos o que existe lá fora e criamos essas exigências porque os fundos ESG, diferentemente de outras classes, não são exatamente produtos como os demais uma vez que sua classificação está mais ligada ao próprio processo de análise feito pelas gestoras”, afirma.
A Anbima percebe forte demanda da indústria, com consultas diárias sobre o assunto, e estima crescimento do número de fundos no segundo semestre à medida que a regra for incorporada. “Fizemos uma conversa aberta com o mercado em meados de fevereiro e lá ficou claro o interesse, com a presença de 410 pessoas de 109 diferentes instituições”, diz. O número de fundos ESG, entretanto, nunca será tão expressivo em relação ao patrimônio líquido da indústria, até porque os fundos com o sufixo IS precisam ter isso como seu objetivo principal.

O fundo do BNP Paribas, o primeiro do mercado a receber o sufixo IS, é um fundo master de renda fixa, com R$ 520 milhões de patrimônio que investe em debêntures incentivadas de infraestrutura e tem 70% de sua carteira alocados em projetos ligados a energias renováveis, informa Henri Rysman De Lockerente, portfolio manager. É também o primeiro produto específico da casa no Brasil a levar o carimbo oficial de investimento ESG, embora a asset já tenha esses princípios integrados ao seu processo de gestão e um longo histórico global de integração ESG.
“Aqui no Brasil decidimos que seria importante integrar essas questões ao nosso processo antes de lançar produtos específicos. As novas regras, portanto, vieram na hora certa e inclusive participamos do comitê de sustentabilidade da Anbima, que aproveitou a taxonomia europeia e adequou esses padrões ao mercado brasileiro”, conta.
“Achamos essas regras válidas e adequadas porque olham não apenas o produto mas também o compromisso das gestoras e suas políticas de sustentabilidade para aferir se o fundo IS tem mesmo esse objetivo específico”, diz.
O fundo escolhido pela asset para a estréia teve uma adequação tranquila às novas exigências por ser uma carteira já adequada aos princípios ESG e voltada à alocação em ativos ligados à transição energética. “Foi mais um trabalho de oficialização do que de adaptação porque já estávamos bem integrados e o objetivo do fundo estava claro”, afirma. O objetivo foi colocado no regulamento do fundo, com uma taxa de reporting adicional. Há um scoring ESG ponderado de todos os ativos do fundo, nos três pilares (ambiental, social e de governança) assim como informações sobre a pegada de carbono da carteira e a disponibilidade dos dados sobre as emissões.
A carteira atual tem uma taxa de cobertura de 60%, ou seja, 60% das empresas investidas já publicam suas emissões de carbono. “Estamos trabalhando agora no engajamento com as demais empresas para aumentar essa taxa. O fundo investe em ativos ligados à produção de energia eólica e de painéis solares mas também estamos olhando para projetos de hidrogênio verde, segmento no qual o Brasil tem potencial para ser líder”, afirma.
A asset pretende lançar ainda um novo fundo, desta vez uma carteira de ações, que também levará o sufixo IS, além de ter todos os seus demais fundos dentro da segunda denominação da Anbima, a dos fundos que integram as questões ESG aos seus respectivos processos de investimento. Além disso, a casa espera a aprovação da regra para incluir os feeders (FICs) na classificação de IS porque hoje apenas os fundos de ações e os de renda fixa são elegíveis, o que deixa os FICs de fora. “Entendemos que é importante englobar toda a estrutura master/feeders e esperamos que isso seja aprovado a partir de julho. Assim, os três FICs que estão abaixo desse nosso fundo master também poderão ser classificados como IS”, diz. Há um FIC para pessoas físicas, outro para institucionais e um terceiro para o investidor de varejo.