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Otimismo é a regra
Juros em queda no Brasil e EUA devem incentivar EFPCs a tomarem risco em diferentes geografias

Edição 363

O ano de 2024 deve ser relativamente positivo para ativos de risco em geral uma vez que os próximos passos do Fed tendem a ser de afrouxamento dos juros a partir de meados deste ano. “Entre novembro e dezembro de 2023 vimos uma certa reprecificação de ativos nas bolsas americanas porque a leitura do mercado passou a considerar que haverá espaço para cortes nos juros, então a perspectiva é de boas performances no Brasil e no mundo”, diz Maurício Lima, especialista de investimentos e superintendente de produtos da Western Asset Management.
Na renda variável, o diferencial dos portfólios está em sua capacidade intrínseca de continuar a performar bem. “Nosso portfólio de BDRs, por exemplo, tem 40 nomes que podem se beneficiar do atual cenário econômico e adicionou mais de 18% em relação ao S&P só em função da escolha de empresas com capacidade para ter resultados acima da média”, afirma. A seleção nos setores de tecnologia e saúde está entre as mais relevantes.
A casa, que tem AUM total de R$ 40 bilhões no Brasil, 10% dos quais estão em estratégias de exterior que investem principalmente na renda variável, vê espaço para aumento da alocação das fundações em outras geografias. “Temos visto mais espaço para as carteiras globais dos fundos de pensão brasileiros e os EUA seguem como a geografia mais relevante”, afirma.
Olhando para a frente, o investimento em renda variável está atrelado a ações de crescimento, beneficiadas pelo cenário mais equilibrado e pela perspectiva de queda de juros. “Caso seja confirmada a acomodação das taxas pelo Fed, o fluxo de recursos para o Brasil será interessante, especialmente na bolsa”, diz.
Mas ele lembra que, embora os mercados tenham “pulado na frente do Fed” e antecipado o afrouxamento monetário no final do ano passado, os movimentos precisam ter sua trajetória bem acompanhada porque nem todos os dados da economia apontam na mesma direção.
A renda fixa, que está em patamar atrativo de juros e de prêmios, continuará a ser favorecida nos próximos meses e a diversificação no exterior, feita de modo estrutural, promete fazer cada vez mais sentido para os investidores institucionais brasileiros.

Reits voltam ao radar - À medida que cresce a atratividade dos mercados globais frente ao cenário um pouco mais estável graças ao controle da inflação americana e à perspectiva concreta de redução do juro, algumas classes específicas ensaiam recuperar fôlego. “Os Reits (fundos de investimento imobiliário americanos), por exemplo, sofreram muito com a alta dos juros, mas seu valuation ficou barato e nos últimos dois meses de 2023 viram aumentar o apetite dos investidores, junto com o pequeno rally de equities que aconteceu nesse período”, observa Michel Dazzi, especialista de produtos da Principal Claritas.
“Há maior demanda, com exceção do segmento de escritórios. Os ativos ligados a imóveis para moradia e infraestrutura nos EUA estão em bom momento de entrada. Na asset, o fundo global que aloca em properties nos EUA (Principal Global Properties Securities BRL), trazido para o Brasil em 2021, foi bem no início, diz Dazzi, mas sofreu logo depois com a alta dos juros.
A exposição das carteiras da Claritas ainda é neutra para a renda variável neste primeiro semestre. ”Há incertezas por enquanto e, apesar dos valuations razoavelmente altos, é preciso conferir se as empresas vão conseguir entregar bons resultados, então os dois próximos trimestres serão um teste importante”, acentua.
O rally do final do ano refletiu um otimismo exagerado, acredita o analista, mas em 2024 o mercado “já caiu na real” porque a redução do juro pelo Fed vai demorar um pouco mais do que haviam apostado. A expectativa na época era de um corte já em março, hipótese que acabou por ser afastada.
“O mercado de trabalho nos EUA continua forte, não há demissões mas apenas redução de horas trabalhadas. Há também um aumento da inadimplência nas dívidas com cartões de crédito, o que traz insegurança sobre o consumo e o resultado das empresas”, lembra Dazzi. Na renda variável, portanto, permanece a alta volatilidade enquanto não se confirmar a expectativa de lucros das companhias.
Para a renda fixa, a exposição das carteiras busca ativos de maior qualidade e de investment grade porque o cenário ainda prevê um primeiro semestre de incertezas, à espera de que seja confirmada a perspectiva de um soft landing nos EUA. “No primeiro semestre de 2024 a maior demanda deverá ser pela renda fixa porque há muitos anos não se via empresas de alta qualidade pagarem juros tão bons. Há ativos high yield pagando até 7,6% em dólar”, observa.
Os fundos de pensão brasileiros, que têm metas atreladas à inflação e aproveitam ainda preços atrativos das NTN-Bs começarão daqui para a frente a sentir o fechamento desse spread. “A expectativa é de que voltem a buscar mais ativos de risco e a diversificação no exterior tende a crescer ao longo do ano”, afirma Dazzi.
A asset, com R$ 7,5 bilhões sob gestão no mercado local e US$ 328 milhões investidos por clientes brasileiros no exterior, integra a Principal Financial Group, gestora global com US$ 507 bilhões sob gestão. A oferta atual de produtos no mercado brasileiro inclui três fundos com parceiros globais: um de renda fixa, outro de equities globais e um terceiro voltado ao mercado ESG. “Já há aumento das consultas e recebemos convite de uma fundação, agora em janeiro, para entrar na concorrência por um fundo exclusivo de renda variável global”, conta.

EUA ditam o rumo - A queda do juro nos EUA será o grande movimento do ano, que irá ditar a perspectiva para os investimentos em geral, segundo avalia João Uchoa Borges Filho, especialista de investimentos da BNP Paribas Asset Management. “Nesse ambiente, em que os juros dos títulos mais longos cederam, já vimos a busca de alternativas lá fora para o CDI”, diz.
Para o investidor institucional brasileiro, a grande diferença positiva entre o final de 2023 e o final de 2022 foi a queda da volatilidade do dólar, o que ajuda a fazer posicionamento em outra moeda. “Embora a renda variável ainda predomine, vimos no ano passado o real mais comportado e a alta do juro global, o que despertou maior interesse pela renda fixa no exterior, com ativos de crédito que têm a vantagem de oferecer a variação do ativo mais a variação do câmbio”, afirma.
O primeiro semestre de 2024 deve ser mais positivo do que o ano passado e o importante é saber que a tendência nos EUA é de redução do juro. “Se além disso ainda houver crescimento da economia americana, a situação será positiva tanto para a bolsa quanto para a renda fixa”, acredita.
A partir do segundo semestre, os mercados começarão a sentir os efeitos do cenário eleitoral nos EUA, o que é sinônimo de maior volatilidade. “Como a correlação dos mercados é muito forte, no Brasil pesou mais até aqui a atuação do Fed do que a questão fiscal doméstica, mas no segundo semestre estarão de volta às questões locais”, avalia Borges.
Na asset, a demanda na renda variável é mais voltada ao mercado americano, influenciada também pelo peso das ações do setor de tecnologia. “As EFPCs voltaram a ter interesse pelo exterior e a maioria delas está em fundos exclusivos. Queremos agora ter um fundo com maior aderência ao MSCI. Vamos combinar as características ESG às do MSCI, um tipo de fundo que já existe lá fora e vamos trazer ao Brasil”, diz.

Juro real compromete - O momento é favorável para que as casas gestoras retomem os patamares de ativos de exterior depois de um 2023 complicado. O ano passado refletiu o impacto desfavorável da combinação entre juros locais elevados e política contracionista lá fora, que dificultou o ambiente para alocação global apesar do excelente desempenho de alguns fundos no ano, aponta Rudolf Gschliffner, superintendente executivo de produtos da Santander Asset Management.
“Nas discussões sobre as políticas de investimento dos fundos de pensão este ano percebemos uma aceleração das conversas sobre o assunto, embora o fluxo ainda esteja menor”, diz. As fundações fizeram uma redução de risco nos últimos dois anos e nunca haviam carregado um volume tão grande de títulos públicos como agora, com volumes que chegam a 80% de suas carteiras, enfatiza Gschliffner.
Esse quadro só deverá mudar quando o juro real aqui cair abaixo de 5% ao ano. “Só então veremos uma migração efetiva para o exterior. Nossa estimativa é de que a diversificação das carteiras volte a ser feita a partir do meio deste ano, quando a Selic estiver em 9%”, estima.
Por enquanto, os investidores mantêm um fluxo muito aquém do esperado mas as conversas sobre alocação global voltaram ao seu radar. Como ilustração, ele lembra que o fundo de global equities da casa, que chegou a ter patrimônio líquido superior a R$ 2 bilhões, chegou ao início deste ano com PL próximo a R$ 600 milhões.
“Em 2024 o mercado flerta com uma combinação positiva de queda dos juros com a perspectiva de um soft landing da economia americana. Se isso for confirmado, terá reflexos positivos tanto para a renda variável quanto para a renda fixa”, avalia. Se for um pouso mais duro, o temido hard landing, a renda variável não será beneficiada.
Como ilustração, ele lembra que o fundo de global equities da casa, que chegou a ter patrimônio líquido superior a R$ 2 bilhões, chegou ao início deste ano com PL próximo a R$ 600 milhões. “O nosso cenário para este ano é de crescimento moderado da economia global, início do corte dos juros e inflação mais controlada. A questão é saber quando o Fed começará a cortar juros, mas não está no nosso cenário um hard landing da economia americana”, diz.
O Brasil sofre agora uma contaminação positiva dessa perspectiva mais favorável lá fora, somada aos indicadores locais de maior crescimento e controle de inflação. “Há riscos no radar, porém, com soluços locais devido às dúvidas quanto à questão fiscal estrutural. A visão, entretanto,segue positiva tanto para o mercado doméstico como para o internacional”, afirma
Gschliffner.
Na grade da asset, há veículos mais tradicionais, como o global equities em dólar, que seleciona os melhores gestores e tem predomínio de ativos dos EUA, com um pouco de Europa e Japão. Em 2023, ele teve retorno próximo ao do MSCI World, entre 11% e 12%.
Já o fundo ESG (Go Global Equity ESG Reais Investimento no Exterior ) é um veículo offshore de renda variável da asset em parceria com o grupo Robeco e fechou o ano com quase 30% nominais de retorno. “Como tem hedge cambial, ele não é considerado uma alternativa de diversificação pura, mas acabou sendo uma ótima alternativa para os fundos de pensão, que gostam particularmente de veículos ESG”, diz.
Além disso, ele conta que a asset está há três anos incubando uma estratégia que tem “martelado” junto às EFPCs, a alocação internacional via multimercados sistemáticos/quantitativos. Um de seus veículos, o multimercado global Valência, no ano passado chegou a ter três quartos dos seus recursos expostos a exterior. “Essa diversificação nos colocou num dos melhores lugares da indústria graças às posições tomadas em juros lá fora, moedas e commodities”, diz.