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Em busca de novas geografias
Gestores apostam que perspectiva da queda dos juros nos Estados Unidos e no Brasil deve impulsionar investidores a buscar mais ativos globais

Edição 363

Depois de um forte ciclo de aperto monet√°rio no Brasil e no mundo, o humor dos mercados para investimentos no exterior come√ßa a melhorar com a nova sinaliza√ß√£o do Copom e do Fed, o banco central dos EUA. ‚ÄúDiante da alta do juro aqui e no exterior era natural que o investidor brasileiro ficasse mais na renda fixa, mas esse momento j√° ficou para tr√°s e o mundo se aproxima de um novo ciclo de afrouxamento dos juros‚ÄĚ, estima Marcelo Pacheco, CIO da BB Asset Management. Com isso, a expectativa √© de que a diversifica√ß√£o geogr√°fica das carteiras fique mais atrativa, analisa o gestor.
A casa trabalha com quatro pilares b√°sicos para o crescimento da aloca√ß√£o l√° fora. O primeiro deles √© o pr√≥prio cen√°rio para esses investimentos, porque √† medida que voltam a existir taxas reais positivas no mundo, a renda fixa global volta a ser considerada. H√° dois outros pilares, ligados a investimentos sustent√°veis e a ve√≠culos globais considerados ESG, ‚Äúque voltam a ficar importantes‚ÄĚ, afirma Pacheco.
As mudan√ßas tecnol√≥gicas como a intelig√™ncia artificial (IA) formam o quarto pilar, pois embora afetem em primeiro lugar empresas de tecnologia, num segundo momento afetam um n√ļmero muito maior de companhias, aquelas que ser√£o beneficiadas pela utiliza√ß√£o dessas tecnologias. O setor de sa√ļde, que tem se beneficiado de novos medicamentos altamente rent√°veis, como as drogas ligadas ao emagrecimento, √© outro destaque.
‚ÄúEsses s√£o os quatro principais pilares que consideramos e temos produtos para todos eles, mas nada impede que sejam lan√ßadas novas estrat√©gias‚ÄĚ, diz Pacheco. No pipeline da asset, ele informa que h√° novidades em produtos ESG.
A gestora aposta ainda na parceria com casas internacionais, como a Nordea, com a qual mant√©m por exemplo o fundo BB A√ß√Ķes Nordea Climate, e a Pimco, com a qual acaba de lan√ßar um feeder fund para alocar em renda fixa global. Entre os destaques, ele cita o BB A√ß√Ķes Universal Brands, que compra cotas do Global Brands Fund, da Morgan Stanley. ‚ÄúNesse fundo, de BDRs, predominam as compras de ativos do setor de tecnologia e ele bateu longe o Nasdaq no ano passado‚ÄĚ, afirma.
Apesar da melhora no cen√°rio e da clara trajet√≥ria de queda dos juros, Pacheco observa que ainda h√° ru√≠dos no curto prazo e o timing dos investimentos √© atrapalhado pelas muitas idas e vindas do mercado devido √† atua√ß√£o do Fed. ‚ÄúO banco central americano deveria aprender com o Bacen como fazer esse afrouxamento‚ÄĚ, sugere.
Enquanto isso, falta saber se a redução das taxas já está precificada na curva inclusive no mercado high yield americano. Nesse cenário, Pacheco lembra que os fundos de pensão brasileiros fazem um movimento tímido em direção à bolsa local, mas ainda não começaram a ampliar sua exposição ao exterior.
A proje√ß√£o da asset √© de Selic terminal perto de 9% e tr√™s cortes da taxa de juro americana no segundo semestre. ‚ÄúA curva de juros nos EUA est√° excessivamente otimista e se esse otimismo n√£o se concretizar poder√° haver ajustes. No Brasil, a curva est√° muito perto do justo porque a maior parte do ajuste j√° ocorreu‚ÄĚ, diz.
Em rela√ß√£o √† diversifica√ß√£o geogr√°fica, as carteiras da BB Asset, mant√™m a prefer√™ncia pelos EUA. ‚ÄúA China √© mais preocupante e a Europa est√° com uma economia menos din√Ęmica, ent√£o a nossa diversifica√ß√£o internacional principal √© nos EUA. Vamos fazer tamb√©m um aumento gradativo da aloca√ß√£o em bolsa local porque o ano tende a ser positivo para as a√ß√Ķes no Brasil‚ÄĚ, conclui.

Corte mais suave - A conjuntura econ√īmica internacional d√° sinais mais favor√°veis para os ativos nos EUA e para diversos outros mercados, gerando tamb√©m um movimento de maior interesse dos institucionais brasileiros por investimentos no exterior, avalia Fernando Lovisotto, s√≥cio e CIO da Vinci Partners. ‚ÄúDesde outubro/novembro do ano passado, o Federal Reserve (Fed) deixou claro que o juro iria parar de subir e, como as taxas de juros americanas s√£o a grande influ√™ncia global, isso gerou bom humor em rela√ß√£o aos ativos daquele pa√≠s e de outros mercados‚ÄĚ, aponta.
A constata√ß√£o √© de que a economia dos EUA vai crescer, por√©m menos do que no ano passado, e o corte de juros ser√° mais suave do que est√° precificado. ‚ÄúEste ano n√£o deveremos ver uma alta t√£o forte do S&P como vimos no final de 2023 mas a bolsa americana ainda pagar√° pelo risco. J√° no mercado de cr√©dito, do qual gostamos bastante, os spreads est√£o muito baixos este ano‚ÄĚ, observa Lovisotto.
O segredo para os investimentos dos fundos de pens√£o brasileiros no exterior √© manter uma carteira diversificada em v√°rias classes de ativos, n√£o mais concentrada apenas em renda vari√°vel. ‚ÄĚEm 2019, na primeira rodada de investimento dos institucionais brasileiros no exterior, quase 100% foi alocado em bolsa, mas a necessidade de mudar isso vai ficar cada vez mais evidente‚ÄĚ, diz.
Ele lembra que dentro da pr√≥pria renda vari√°vel, j√° h√° uma tend√™ncia clara a diversificar, com um rebalanceamento de estrat√©gias. O √≠ndice Russell, por exemplo, que √© um benchmark mais amplo, tende a sobressair. Outro ponto que j√° apareceu bastante em 2023 e dever√° continuar em alta √© a import√Ęncia de fazer aloca√ß√£o com hedge cambial; ‚ÄúIsso garante algum controle porque o nosso cen√°rio √© de d√≥lar a R$ 4,90 este ano e o hedge poder√° render at√© 6% a mais no ano gra√ßas ao diferencial do juro‚ÄĚ, enfatiza Lovisotto.
Na Vinci, que tem R$ 2,5 bilh√Ķes sob gest√£o em exterior entre um fundo condominial e fundos exclusivos, a expectativa √© de um ano de crescimento para esse tipo de aloca√ß√£o. ‚ÄúEm 2023 vimos poucos resgates dessas carteiras, a maior parte feita por fam√≠lias e n√£o por EFPCs. A verdade √© que os fundos de pens√£o t√™m espa√ßo nos seus mandatos para aumentar a exposi√ß√£o global. H√° tamb√©m a perspectiva de fazer gest√£o ativa do c√Ęmbio‚ÄĚ, avalia. Nessa linha, a casa estuda o lan√ßamento de um novo fundo condominial, voltado √† renda fixa em d√≥lar.
O movimento dos juros americanos abre tamb√©m muito espa√ßo para ganhos com fundos long and short, observa Michel Cukierman, head da √°rea de solu√ß√Ķes de investimento internacional da Vinci Partners. Ele lembra que o ritmo da economia americana ainda gera d√ļvidas e o rally do final do ano envolveu apenas sete ou oito a√ß√Ķes. Na renda fixa, a vis√£o da casa √© de reprecifica√ß√£o do juro.
‚ÄúA curva agora j√° parece estar reprecificada e a volatilidade este ano dever√° ser normal, sem maiores picos. No mercado de cr√©dito, vamos navegar no curto prazo com duration mais curta, com ativos high grade e tentar capturar spreads de cr√©dito. O cr√©dito high yield e de longo prazo √© ruim neste momento porque ningu√©m sabe de fato se haver√° ou n√£o recess√£o nos EUA‚ÄĚ, diz.

Estrat√©gia √© prioridade - A baixa demanda por diversifica√ß√£o, incluindo os ativos dos mercados globais, marcou o ano de 2023, mas esse quadro que come√ßa a ser invertido este ano, afirma Bruno Maueler, s√≥cio e head da √°rea de solu√ß√Ķes de investimento da SPX Capital. ‚ÄúO motivo √© a queda dos juros aqui e l√° fora, mas o pano de fundo dessa mudan√ßa √© o patamar baixo de aloca√ß√£o dos institucionais brasileiros em exterior. A aloca√ß√£o m√©dia das EFPCs √© bastante concentrada no mercado local mas n√£o h√° raz√£o para ficarem circunscritos a isso se querem ter um portf√≥lio mais eficiente‚ÄĚ, acredita.
Embora muitas funda√ß√Ķes tenham reduzido o risco de seus portf√≥lios em 2023, esse movimento tende a ser revertido agora pela queda do juro e maior interesse pelas oportunidades no exterior. ‚ÄúH√° uma n√≠tida mudan√ßa de humor em rela√ß√£o a esse segmento, mas as funda√ß√Ķes est√£o muito no in√≠cio do seu movimento rumo aos mercados globais. Elas precisam dar um passo atr√°s e pensar mais em macro aloca√ß√£o‚ÄĚ, diz.
Isso significa tomar decis√Ķes com base nos objetivos dos portf√≥lios dos planos CD e BD e saber de que modo o investimento no exterior pode ajudar a chegar l√°. Avaliar o estilo de gest√£o e os ve√≠culos mais adequados, √†s classes de ativos a que o portf√≥lio estar√° exposto s√£o alguns dos aspectos essenciais. ‚Äú√Č preciso definir a aloca√ß√£o estrat√©gica de longo prazo para depois olhar para a gera√ß√£o de alfa e chegar √†s decis√Ķes t√°ticas. Se o investidor for direto para a segunda etapa logo no in√≠cio de seu investimento, criar√° um imbroglio‚ÄĚ, diz.
Um est√≠mulo importante, segundo Maueler, veio da regula√ß√£o dos fundos de investimento, com a Resolu√ß√£o CVM n¬ļ 175 que permite abrir o leque das jurisdi√ß√Ķes internacionais, com mais oportunidades.
A tend√™ncia √© que apare√ßam cada vez mais gestores e distribuidores diferentes nesse mercado e tanto para renda fixa quanto para renda vari√°vel haver√° mais alternativas fora da jurisdi√ß√£o de Luxemburgo. ‚ÄúSob o ponto de vista do alocador, quanto maior for a oferta, melhor‚ÄĚ, afirma.
Com R$ 60 bilh√Ķes sob gest√£o, a asset deu um passo relevante este ano para alavancar a expans√£o de sua √°rea de solu√ß√Ķes de investimento ao firmar parceria de consultoria com a Black Rock, explica Maueler. Criada em mar√ßo de 2023, a √°rea j√° conseguiu um primeiro mandato local, para uma seguradora, mas o acordo deve trazer vantagem competitiva para ampliar sua capacidade internacional.
A meta √© conquistar mandatos customizados de exterior para fundos de pens√£o e outros institucionais, explorando o relacionamento e conhecimento que a casa j√° tem junto a esse p√ļblico.

Mudan√ßa estrutural - A mudan√ßa de ciclo econ√īmico vivida hoje no Brasil e no exterior tem caracter√≠sticas estruturais, avalia Ian Ca√≥, s√≥cio fundador e CIO da Gama Investimentos. Ele lembra que o movimento dos mercados no final do ano passado precificou o relaxamento monet√°rio nos EUA e agora, independente de corre√ß√Ķes, dificilmente haveria uma nova alta do juro l√° fora. Por outro lado, nada indica que as taxas cair√£o demais. ‚ÄúPode cair um pouco mas n√£o vai voltar aos n√≠veis hist√≥ricos, que eram expressivamente mais baixos do que os atuais‚ÄĚ.
No Brasil, a Selic deve convergir de volta para 9% no m√©dio prazo e em seguida para um n√≠vel de equil√≠brio mais baixo. ‚ÄúIsso deve estimular o apetite pela diversifica√ß√£o e, como √© dif√≠cil gerar valor apenas usando a proje√ß√£o de cen√°rio, acabamos sempre voltando a enfatizar o conceito estrutural que essa diversifica√ß√£o precisa ter‚ÄĚ, diz Ca√≥.
Um exemplo claro est√° nos movimentos dos bonds americanos de dois anos, que refletem a opini√£o do mercado sobre a pol√≠tica monet√°ria de curto prazo. ‚ÄúEsses t√≠tulos chegaram a oscilar 20 pontos num √ļnico dia, o que aconteceu por 45 vezes entre os anos de 2020 e 2023. Por nove vezes nesse per√≠odo, a oscila√ß√£o chegou a 30 pontos num √ļnico dia. Isso mostra que foi um per√≠odo de muitas sacudidas nas proje√ß√Ķes de pol√≠tica monet√°ria, criando uma din√Ęmica complicada‚ÄĚ, enfatiza. A solu√ß√£o √© ser mais estrutural e olhar para a diversifica√ß√£o como objetivo de longo prazo.
A casa, que distribui uma grade de aproximadamente 50 fundos, adicionou √† sua oferta no Brasil mais estrat√©gias de 2023 para c√°. Um dos ve√≠culos √© da gestora Fundamenta, uma estrat√©gia de renda fixa lan√ßada este ano com o objetivo de gerar valor (long biased) e focada em ativos da Am√©rica Latina. ‚ÄúVivemos um per√≠odo de beta, mas agora a gest√£o ativa vai ter muito valor, j√° se v√™ isso no comportamento das m√©tricas e √© uma tend√™ncia que vai se manifestar na gera√ß√£o de alfa‚ÄĚ, diz. A renda fixa, afirma Ca√≥, ainda ter√° vento a favor durante algum tempo.