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Crescem as opções ao investidor
Diferentes estratégias, classes e estilos de gestão disputam a preferência do investidor no momento em que a queda dos juros impulsiona a diversificação

Edição 363

Desde meados de 2023 e mais particularmente no último trimestre do ano, com a convicção em relação à trajetória de queda da Selic e os primeiros indicadores de estabilização da inflação americana, os ativos de risco deram sinais de reação e o tema da diversificação internacional reapareceu nas discussões das políticas de investimento dos fundos de pensão para 2024.
“O apetite geral dos fundos de pensão brasileiros pela alocação de recursos no exterior continua baixo, mas o interesse ressurgiu por meio de consultas e demanda por informações. Para fazer uma alocação maior, porém, as fundações esperam que haja uma queda mais expressiva dos juros”, analisa Daniel Popovich, diretor de investimentos internacionais da gestora Franklin Templeton.
Ele observa que houve uma mudança na atitude desses investidores porque hoje eles pensam não só em investir mas também em alocar nos mercados internacionais, ou seja, investir de forma mais equilibrada e diversificada.
“Ficamos muito otimistas em relação a 2024 e seria difícil não ficar, porque o cenário indica espaço para diversificação de portfólios em ambiente de queda de juros”, diz. A perspectiva é de que essa demanda comece a crescer agora para ser significativa no País dentro de dois a três anos.
A volta da renda fixa tem sido marcante desde que começou a alta do juro lá fora. “A renda variável global, por outro lado, sempre despertou maior interesse e essa classe representa a maior parte da alocação estratégica em nossos mandatos de exterior”, explica.
A renda fixa em patamar muito alto de juros é um caso óbvio para o institucional mas, à medida que a expectativa de redução das taxas for consolidada, as classes de ativos tradicionalmente beneficiadas são as de renda variável e multimercados. Há também um crescimento importante de alocação em crédito global, ainda de forma tímida.
A escolha entre renda fixa e renda variável e, que não existiu durante muito tempo no Brasil já que a demanda era só por renda fixa, é um sinal positivo, diz Popovich. “Porque é muito bom quando o investidor tem que escolher entre duas classes com boas perspectivas”, avalia.
Em 2023, com o juro americano acima de 5% em dólar, houve uma mudança importante de cenário mas, sob o ponto de vista das EFPCs, por mais atrativo que o juro lá fora esteja, a realidade é que as metas atuariais são em reais e ligadas ao IPCA, então é natural que uma parcela maior dos recursos tenha ido para as NTN-Bs.
A questão é que o juro alto não poderia durar para sempre e foi preciso pensar no que fazer quando a Selic entrasse em trajetória de baixa. Outro aspecto relevante que deve estimular as carteiras globais é o amadurecimento do mercado local em relação ao exterior porque tem acompanhado cenários e tendências. “Os feeder funds ajudaram nesse processo, mas a partir de 2020 cresceu também o interesse pelos mandatos customizados, houve uma evolução da estrutura de produtos e no conhecimento dos investidores”, avalia.
Na Franklin Templeton, com R$ 1,6 bilhão contratados entre mandatos que já estão no tamanho e outros que estão crescendo, o ano de 2023 trouxe dois novos mandatos relevantes de fundações de grande porte para investir no exterior. Nos mandatos customizados, a meta de crescimento é ambiciosa e o ano será de preparar terreno para crescer mais entre os investidores de maior porte.
“Além disso, a ideia é ter mais produtos orientados para os institucionais, como fundos condominiais de alocação no exterior porque queremos facilitar o acesso do institucional de menor porte a esse mercado”, conta. Essa é uma tendência clara, à medida que o apetite pela diversificação aumentar. O acesso começa pelos feeder funds e também pelos BDRs.
Os mandatos são customizados mas a preferência é por renda fixa soberana ou com grau de investimento. “Os ativos high yield ou sem grau de investimento ainda têm um peso pequeno nas carteiras. Temos também um posicionamento mais dinâmico em curva de juros para alongar ou encurtar essa parcela de acordo com o momento”, diz.
Olhando para a frente, a expectativa é de um cenário mais saudável, mas no curto prazo os ajustes são mais táticos. “Isso porque a comunicação do banco central americano, o Fed, tem sido voltada a um horizonte muito curto de tempo, em start/stop e sem transmitir a trajetória da política monetária, o que gera ansiedade nos mercados mas também abre oportunidade para quem for ágil o suficiente para capturar esses ganhos”, observa.

Juros no platô - “O investimento global volta a chamar atenção depois de uma janela difícil em 2023, em que houve alta volatilidade porém com retornos satisfatórios”, avalia Adilson Ferrarezi, superintendente da área de soluções de investimento da Bradesco Asset Management. Antes disso, o desempenho desse mercado em 2022 já havia machucado grande parte dos alocadores e investidores.
Mas 2024 começa favorável, acredita o gestor, por conta do platô a que parecem ter chegado os juros básicos definidos pelos bancos centrais. “Algumas economias já estão em clara tendência de redução das taxas, e o mercado tende a se beneficiar da gestão ativa. As classes de renda fixa e de renda variável tradicionais estão em cheque e a gestão ativa deve ser voltada mais para os mercados privados, alternativos”, aponta.
A partir dessa convicção, a casa adotou um estilo de gestão que divide os mercados entre aqueles que utilizam instrumentos de baixo custo (como ETFs e índices difíceis de superar) e os mercados alternativos em que ainda há oportunidades (como o crédito privado, private equity, venture capital ou infraestrutura), nos quais faz sentido ter uma gestão mais ativa para capturar prêmios de risco. “O custo na indústria é um fator muito importante, então muda muito o estilo adotado e isso é importante para os clientes porque é possível ter uma exposição que replica bem os índices e com custo baixo”, explica Ferrarezi.
No Brasil, o corte de juros já está em pleno curso, com efeito benéfico para a gestão ativa nos mercados alternativos. “Estamos sendo provocados em múltiplas frentes pelos investidores. Nossa visão para os próximos três anos é de que o investimento internacional em reais faz sentido para os fundos de pensão porque adiciona novas frentes de retorno mas sem exposição ao risco cambial”, afirma.
A exposição aos EUA é a principal alternativa geográfica. “Temos explorado algumas oportunidades em infraestrutura na Europa, mas são pontuais”, observa. Com 200 gestoras parceiras aqui e lá fora e a customização dos mandatos como principal pilar, a gestora atua em renda fixa, renda variável e multimercados e tem estrutura para o crescimento esperado.
“A demanda da área tem sido concentrada nos mandatos mais conservadores, que em 2023 tinham 3% de exposição internacional enquanto os mais arrojados ficavam perto de 10%. Hoje esses percentuais estão perto de 10% nos conservadores e de 20% nos mais arrojados. Essa mudança aconteceu porque há mais alternativas lá fora e também porque há mais transparência na regulação, diz Ferrarezi.
Além disso, o estilo de gestão adotado também contribuiu. “A nossa sugestão aos clientes tem sido escolher veículos globais em reais, mas que tenham fontes de retorno complementares. É uma estratégia mais sofisticada e compatível com o momento dos juros. Oferecemos versões em dólares e em reais, mas a preferência é pela segunda alternativa”, afirma.
A gestora lançou em 2019 o seu fundo de fundos (FoF) global de equities nas versões dólar e real, assim como veículos de renda variável e multimercados. “Os fundos complementam as carteiras locais dos clientes. Faz todo sentido para as EFPCs diversificar fontes e estilos de retorno e o momento é bom para capturar prêmios embora o CDI ainda seja tentador”, observa.
A customização dos mandatos é feita por meio de um serviço de curadoria para responder ao desafio cada vez maior de escolhas enfrentado pelos clientes. As estratégias de exterior representam R$ 6 bilhões do total de R$ 70 bilhões sob gestão na área de soluções de investimento. Em 2024, a asset quer trazer ao País um programa recorrente de opções em FoFs globais ou acesso direto a um nome específico de gestor lá fora. “Hoje fazemos sugestões de opções para quem não tem fundos exclusivos”, informa.

Alocação estrutural - “O ano passado teve um resultado misto porque as carteiras perderam algum dinheiro em global equities diante da aversão ao risco global, mas tiveram um rally no final. Vimos um fluxo maior e uma visão mais estrutural dos investidores”, analisa Daniel Celano, presidente da Schroders no Brasil. A gestora ganhou quatro novos mandatos de exterior para sua área de soluções de investimento, um deles o da Funcef.
Em 2024 alguns clientes começaram o ano reduzindo a exposição a global equities mas de modo geral há uma certa neutralidade, diz Celano. “Para os fundos de pensão, ainda não houve aumento da exposição a risco e alguns deles estão mexendo nos seus orçamentos de risco para fazer alterações como sair de multimercados para fundos globais, por exemplo”, observa.
Além dos mandatos customizados, a asset tem mais de 20 feeder funds no Brasil, que conseguem atender a demanda das fundações de menor porte. O volume de exterior sob gestão é de R$ 1,7 bilhão na área de soluções de investimento e de R$ 2,5 bilhões em feeder funds de global equities para institucionais.
“O ano de 2022 foi muito difícil para o exterior, com a redução da exposição a equities globais e os fundos de pensão brasileiros estão sub alocados nessa classe, então pode até haver uma redução de risco na margem mas em contrapartida há alguns deles que ficaram fora desse mercado por conta da elevação do juro pelo Bacen e agora estão voltando”, lembra Luiz Fernando Pedrinha, diretor de vendas para institucionais da Schroders.
O balanço de 2024 deve ser positivo para a alocação internacional até porque os fundos multimercados tiveram um ano muito difícil em 2023, o que consumiu todo o alfa das carteiras, e agora há uma migração para rebalancear o risco, que favorece o exterior.
Os mandatos não rotulam renda fixa ou renda variável porque tudo depende do risco que o cliente pode correr. “Vamos buscar uma alocação que consegue atingir os objetivos mas sem correr riscos desnecessários de mercado, com mais estratégias de geração de alfa”, explica Pedrinha. Mesmo em 2022, quando esse mercado teve um ano catastrófico, foi possível desenhar portfólios que tiveram uma parte importante de preservação de capital. “Isso mostra que conhecer bem o investidor e seus objetivos é fundamental”, afirma.
Ele lembra que o resultado positivo de 2023 foi obtido apenas no final do ano e além disso o rally foi concentrado apenas nos papéis das sete mega caps do setor de tecnologia, o que dá uma percepção distorcida do desempenho do mercado. “Sem essas empresas, haveria um corte de 60% do retorno, então isso afetou as estratégias que podem ter ido melhor por isso”, afirma. A asset tem um fundo para institucionais no Brasil que é especializado em TMT (tecnologia, mídia e telecom) de estratégia long and short e beta muito baixo, que terminou o ano com retorno de 25,5% em reais, quase o dobro do CDI.
Nos últimos dois anos, diz Pedrinha, a volatilidade atrapalhou demais tanto os mercados locais quanto internacionais. “Esse fundo de tecnologia, por exemplo, viveu um período difícil em 2022 mas conversamos com os clientes e valeu muito a pena terem ficado nessa estratégia. É importante ter essa classe como estrutural na carteira porque quem manteve a disciplina saiu ganhando”, enfatiza.

Inovação e tecnologia - Empresas de qualidade e crescimento estrutural, principalmente nos EUA, são a aposta da Opportunity Asset Management para assegurar o retorno de sua estratégia de global equities, que tem fundos nas versões com ou sem hedge. “A onda de inovação já acontece há algum tempo no mundo, com destaque para a inteligência artificial (IA), principal driver do mercado, e para outras empresas ligadas ao setor de tecnologia, que estão em nossa carteira”, diz Vinícius Ferreira, sócio e responsável pela gestão de ações internacionais da asset. No grupo de companhias está a Meta Platforms, proprietária da Meta AI, laboratório de inteligência artificial, mas também Microsoft, Amazon e Nvidia, entre outras.
A estratégia é composta hoje por 20 papéis, dos quais os cinco maiores representam cerca de 40% da carteira. Apesar de concentrada, ela busca diferentes setores, como as empresas industriais, de mídia, ferrovias, pagamentos e semicondutores.
O cenário à frente é benigno nos EUA e a indicação é de desaceleração da inflação de modo espalhado pela maior parte da economia americana, sem sinais de um crescimento espetacular. “O risco é a desaceleração ficar mais forte do que o esperado e jogar a atividade muito para baixo. Ninguém sabe exatamente quando o juro vai “bater” na economia, até porque durante a pandemia foram feitos muitos refinanciamentos de dívidas”, lembra. Daí a importância de selecionar empresas de crescimento mais estrutural, diz o gestor, porque a recessão americana continua no radar.
A asset tem hoje R$ 4 bilhões na estratégia dedicada ao exterior, mas há outras que podem fazer alocação internacional, somando ao todo R$ 8 bilhões sob gestão em ativos globais.