Aumento do risco e da concentração no mercado

Edição 277

Fusão entre BM&FBovespa e Cetip não é bem vista por corretoras por causa de aumento nos custos

 

As corretoras de valores mobiliários têm se mostrado contrárias a uma eventual fusão entre a BM&FBovespa e a Cetip, por entenderem que a operação resultaria na criação de uma empresa monopolista, com poder de elevar arbitrariamente os custos aos seus participantes sem oferecer contrapartidas. E isso em um mercado de capitais que já encontra dificuldades para se desenvolver, principalmente na renda variável. Embora a Cetip não tenha aceito a proposta feita pela bolsa de R$ 39,00 por ação, alegando que ela representa um preço abaixo do valor justo pelo negócio, uma nova investida ainda é aguardada pelos agentes do mercado.
“A nossa preocupação é com uma possível piora de uma situação que já é extremamente delicada”, afirma Caio Weil Villares, presidente da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (Ancord), e diretor da corretora Concórdia. Já existe hoje, nota o executivo, dois monopólios nos mercados de atuação de cada uma das companhias, que são altamente rentáveis pela falta de concorrência e pela baixa necessidade de reinvestimento, o que inclusive as permite fazer distribuições expressivas de dividendos aos acionistas.
“Essa fusão criaria um monopólio ainda mais amplo e profundo, sendo que elas já têm hoje a capacidade de transferir custos e criar novas taxas como forma de remuneração adicional para si próprias e para preservar margens que já são estelares. O negócio geraria um custo mais alto não só para as corretoras mas também para o investidor final”, comenta Villares. “A corretora, que é quem tem o contato mais direto com o investidor pessoa física, fica em um equilíbrio econômico e financeiro muito complicado, em função de um mercado que não cresce, com receitas em queda e custos crescentes”. O poder de negociação das corretoras em um ambiente como esse, constata o executivo, é próximo de zero.
Ainda que, por ser uma companhia de capital aberto, a BM&FBovespa tenha de pensar no retorno aos acionistas, uma outra preocupação que ela deveria priorizar, mas que não tem acontecido, diz o presidente da Ancord, é buscar formas de fomentar o número de participantes no mercado. Esse número, se não tem diminuído, está estagnado nos últimos anos. “O único que pode se beneficiar com a operação são os acionistas da bolsa e da Cetip, mas seria uma visão muito de curto prazo, eles não podem pensar só no lucro deles, tem de pensar no futuro do mercado de capitais, que é importante para o próprio desenvolvimento do país”, afirma Raymundo Magliano Neto, diretor-presidente da corretora que leva o nome da família desde 1927.

Risco de mercado – Além do aumento de custos, que Magliano também acredita que deve ocorrer caso a fusão se concretize, outra consequência negativa seria um aumento do próprio risco do mercado. “Hoje temos pelo menos duas empresas para dividir o risco, com a renda fixa na Cetip e a variável na Bovespa. Se as duas se unem, o risco sistêmico do mercado aumenta, e não é ruim só para as corretoras, mas para os clientes e até mesmo para as autoridades fiscalizadoras”.
Além disso, o provável aumento de custos decorrente da fusão das empresas, nota o presidente da corretora, pode provocar um outro problema que é a “exportação” do mercado de capitais, seja de investidores, ou mesmo de empresas em busca da abertura do capital. “Quando o governo estabeleceu a cobrança da CPMF na negociação de ações isso começou a ocorrer, e quando acontece é irreversível, o investidor se acostuma a operar lá fora e dificilmente volta”, fala Magliano, que prevê uma vedação da operação por parte do CADE, caso as partes entrem em acordo.
“Se o estrangeiro e o local percebem que o risco está aumentando, e os preços também, é um problema. A bolsa já tem um volume baixo, se começar a exportar uma parte para outros países, vai ficar muito ruim”. Procurada pela revista para responder às corretoras, a BM&FBovespa não se manifestou.