Velhos hábitos são difíceis de mudar
Carlos Massaru Takahashi é CEO da BlackRock Brasil

A proximidade do final de ano nos leva a diversas reflexões, algumas em torno daquilo que realizamos no ano que termina, e outras em torno das expectativas e planos para o próximo período.
Ainda não estamos no tradicional momento de fazer as listas daquilo que abandonaremos no ano que vem e aquilo que faremos melhor, mas, com certeza, já começamos a elaborar um “rascunho mental” a respeito.
Destacar os fatos mais relevantes que impactaram as nossas finanças e, consequentemente, os nossos investimentos, não é tarefa fácil, ainda que pareça óbvio. No ambiente doméstico, a taxa de juros (Selic) que atingiu o menor nível em nossa história e, segundo algumas previsões, pode cair ainda mais, merece uma atenção especial, pois pela primeira vez ela chega a este nível de forma estruturada e com perspectivas de permanência em patamares aceitáveis por um período de tempo mais longo.
No cenário externo, em diversos países relevantes também vivenciamos uma situação muito peculiar, com baixa taxa de crescimento econômico e taxas de juros reais reduzidas ou negativas, desafiando a base da política monetária vigente nas últimas décadas.
Esses fatores, especialmente as perspectivas de permanência da taxa de juros em novos patamares, têm acentuado a já conhecida discussão em torno da diversificação dos investimentos, para que os objetivos de retorno financeiro, tanto por parte dos investidores individuais como institucionais, sejam alcançados.

Migração de portfólios - Ao avaliarmos os níveis de crescimento de algumas modalidades de fundos durante o ano, já percebemos uma importante migração dos portfólios para produtos que, até pouco tempo atrás não vinham conseguindo atrair os recursos dos investidores, como os fundos multimercados.
Todavia, ao analisarmos a exposição dos investidores nas diversas classes de ativos, no segmento fundos de pensão verificamos uma movimentação muito tímida e desproporcional aos desafios a serem enfrentados.
Quando olhamos para os níveis de diversificação em ativos internacionais, a participação desses investidores é ainda mais acanhada e muito distante dos percentuais máximos permitidos pela regulação. Sabemos que transições profundas não são fáceis de serem viabilizadas e demandam um intenso e detalhado trabalho nos níveis técnicos, passando pelas questões de governança, até que as decisões sejam tomadas e implementadas, ainda que a consistência dos argumentos seja sólida e embasada.
Sustentadas pelas reformas implementadas e em curso, as perspectivas internas sinalizam a retomada do crescimento econômico. A adoção de política liberal traz uma nova dinâmica de retorno e risco dos investimentos ao pretender que os ativos de crédito, necessários para a construção dessa agenda, sejam originados pelo próprio mercado, sem interveniência governamental.
Por estar agrupado em um bloco de países emergentes, ainda que com fundamentos superiores a grande parte deles, nosso País sofre o impacto das discussões que vêm de fora, como guerras comerciais, tensões geopolíticas e outros fatos transfronteiriços.
Alguns desses cenários poderão sofrer alterações em 2020 (ano em que o grande evento político-econômico será as eleições presidenciais americanas), testando algumas dinâmicas, além das observadas em 2019:
• Estabilização do crescimento econômico com baixa inflação
• Maior crescimento vindo de países emergentes, como o Brasil
• Políticas monetárias nos limites da eficiência e menor apetite global para estímulos fiscais
• Aumento da pressão para adoção de investimentos alinhados com sustentabilidade (ESG)
A combinação do ambiente interno e do externo acentua a necessidade de adição de maiores riscos nas carteiras para obter melhores retornos, indicando o caminho da diversificação como estratégia de otimização e balanceamento dos portfólios, especialmente utilizando as alternativas internacionais.
Sempre é bom relembrar alguns números relacionados ao nosso mercado quando comparado a outros: enquanto a bolsa brasileira possui 328 empresas listadas, a de New York tem em torno de 2.800, a de Londres mais 3.000, a de Tokyo cerca de 2.300 e a de Hong Kong, perto de 1.900. Consequentemente, os volumes de negociação, os setores cobertos e outros indicadores também se tornam bastante discrepantes.
Avaliando o mercado de crédito privado, enquanto buscamos desenvolver condições como maior transparência, precificação e um mercado secundário ativo, necessárias para um crescimento saudável e consistente, outros países mais desenvolvidos já têm um ecossistema consolidado.
As opções de investimentos que utilizam critérios de sustentabilidade também contam com alternativas mais abrangentes em outros mercados, com opções que utilizam metodologias de seleção amplas como o ESG, passando por temas específicos como “descarbonização” e chegando nas estratégias de impacto, com históricos de performance apurados em períodos mais longos.

Descorrelação – Outro aspecto a ser considerado neste “novo normal” é o efeito dos custos com taxas de administração e impactos tributários no retorno líquido dos investimentos, o que também demanda uma reflexão em torno da eficiência dos veículos a serem utilizados para cada tipo de investimento.
Um exemplo claro é a adoção de índices para implementação de estratégias voltadas à diversificação internacional. Estudos realizados em torno do MSCI World Index, que cobre 85% da capitalização de mercado de 23 países, demonstram que ações internacionais possuem uma correlação negativa, se comparados com ativos brasileiros locais em geral e quando adicionadas a uma carteira doméstica em cenários de “stress”, apresentam melhoria no retorno ajustado ao risco.
O caminho em busca das expectativas de retorno pelos investidores traz novas variáveis que não podem ser reduzidas a uma simples mudança ou adição de produtos. Uma adequada modelagem do portfólio, utilizando diversas classes de ativos e veículos eficientes, demonstra ser o melhor caminho para essa nova jornada. Veículos como ETFs de menor custo e maior eficiência para estratégias que seguem algum índice, e fundos específicos que sejam capazes de adicionar valor de gestão para ativos ilíquidos e alternativos, serão pilares essenciais para o novo mundo que estamos vivenciando.
Abandonar velhos hábitos não é tarefa fácil, pois vivemos um longo período viciados em ativos locais de risco soberano, proporcionando rendimentos extraordinários, mas como acontece com qualquer outro vício que nos incomode, quanto antes tivermos a coragem de abandoná-lo tanto antes poderemos começar o restabelecimento de nossa saúde, ampliando nossas perspectivas futuras.

Carlos Massaru Takahashi é CEO da BlackRock Brasil.