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CDI com os dias contados
Com a Selic no piso histórico, o tradicional índice de referência para fundos de renda fixa e multimercados deve começar a perder espaço

Segundo José Perri, da Quasar Asset, a tendência é que com o tempo o mercado brasileiro comece a se aproximar de práticas já estabelecidas em praças mais desenvolvidas, com curvas de juros distintas que levam em conta o rating e o prazoNos últimos meses se tornou comum ouvir gestores e investidores alardeando que conseguiram rentabilizar a carteira em 150%, 200% ou até 300% do CDI. Não se trata, contudo, do surgimento repentino de uma série de gênios das finanças que estão conseguindo auferir retornos fora dos padrões normais de pressão e temperatura. Quando a Selic estava em 14,25%, era difícil, ou inexistente, os casos de retornos em termos percentuais do CDI nesses patamares. Tendo a taxa de juros caído para 4,25%, ficou mais fácil, e conveniente, para os agentes de mercado propagandear esse tipo de retorno.
Essa, no entanto, é uma situação que não deve perdurar por muito tempo. Diante do atual patamar da taxa de juros, especialistas do mercado acreditam que novos benchmarks que não mais o CDI devem começar a surgir para servir como balizadores mais fidedignos do desempenho das carteiras de crédito privado e multimercados.
Segundo José Perri, diretor de riscos da Quasar Asset Management, gestora com o foco exclusivo no mercado de crédito, a tendência é que com o tempo o mercado brasileiro comece a se aproximar de práticas já estabelecidas em praças mais desenvolvidas. “No mercado americano existem curvas de juros distintas que levam em conta o rating e o prazo da emissão, o que facilita bastante na comparação entre ativos com características similares”, afirma Perri, que reconhece que ainda falta profundidade ao mercado local para que tenhamos sofisticações nesse nível.
No mercado brasileiro, a Anbima tem o IDA, índice de referência para o mercado de debêntures, mas que abarca uma gama muito ampla de títulos, colocando no mesmo barco as debêntures tradicionais e aquelas emitidas por empresas de infraestrutura com incentivo tributário. “Isso acaba gerando uma certa distorção da curva de debêntures da Anbima, já que os spreads das debêntures incentivadas via de regra são um pouco menores pelo incentivo tributário”, afirma Perri. Procurada, a Anbima não se manifestou.
O diretor da Quasar tem participado de um grupo de trabalho da B3 que tem discutido a criação de novos benchmarks para o segmento de crédito privado. “A B3 está trabalhando em diversas iniciativas com o objetivo de desenvolver o mercado de renda fixa privada, estimulando a liquidez do mercado secundário”, afirma Fábio Zenaro, diretor de produtos de balcão, commodities e novos negócios da B3. “Uma delas é a criação de uma família de índices de debêntures que, além da possibilidade de se tornarem benchmark, potencialmente poderão referenciar produtos listados como contratos futuros, contratos de opções e ETFs”, diz Zenaro, acrescentando que ainda não há uma previsão sobre o lançamento dos novos índices.
Segundo o diretor da B3, os títulos privados terão papel cada vez mais relevante para financiar o crescimento das empresas no Brasil. “Por isso, iniciativas que estimulem o aumento de negócios neste mercado serão extremamente importantes, tanto para que mais empresas optem por essa forma de financiamento, quanto para que mais investidores escolham a renda fixa privada para diversificar suas carteiras,”, afirma o executivo.
Segundo o consultor da Aditus, Guilherme Benites, emissões que se propõem a entregar um retorno percentual do CDI não estão mais sendo bem aceitas pelos investidores, e em muitos casos sequer tem sucesso em sua colocação no mercado.
“O que tem sido mais comum agora são emissões privadas que oferecem o CDI ou o IPCA mais um percentual de juros”, afirma o especialista. De acordo com o consultor, quando se tratam de títulos com ratings triplo A, os juros oscilam ao redor dos 0,6%. “Ao descer um pouco na qualidade do ativo, essa remuneração pode até dobrar”, afirma Benites.
“Um ponto que pode favorecer com que os gestores de crédito não se vejam forçados a rapidamente ter de adotar novos benchmarks é o fato de a demanda por esses ativos ainda estar muito alta e bem maior do que a oferta”, afirma Ricardo Valente, sócio da Investment One Partners.