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Citi paga US$ 900 milhões por engano
Após pagamento indevido feito a credores da multinacional de cosméticos Revlon, que atribuiu a um erro da sua área de TI, banco recorre aos tribunais dos Estados Unidos para tentar recuperar os valores

O Citibank, o quarto maior banco dos Estados Unidos, com ativos de US$ 1,63 trilhão, tenta reaver nos tribunais US$ 900 milhões pagos por engano, recentemente, a um grupo de credores da multinacional de cosméticos Revlon, controlada pelo bilionário Ron Perelman. A instituição financeira, que atua como agente administrativo entre as partes, liberou os recursos ignorando a inexistência de acordo firmado entre tomador e doares e só recebeu da Revlon, em 11 de agosto, o valor referente aos juros dos empréstimos. O equívoco milionário, atribuído pelo Citi em comunicado oficial à sua equipe de tecnologia da informação (TI), virou motivo de chacotas e piadas em Wall Street. “É um erro burocrático de um bilhão de dólares. Isso provavelmente está repercutindo nas salas bem espaçosas dos escritórios do Citibank”, declarou à agência de notícias Bloomberg, no último dia 17, o ex-consultor Michael Stanton, especializado em reestruturações e falências.
Até o momento, o Citi conseguiu reaver cerca de US$ 374 milhões junto a credores da Revlon que consideraram o pagamento indevido. Outros tantos, contudo, se recusaram a efetuar o estorno dos US$ 526 milhões restantes, levando o banco a recorrer à Justiça dos Estados Unidos. Em 27 de agosto, a direção do banco comemorou uma decisão judicial que determinou a devolução, pela gestora Highland Capital Management, do Texas, de um total de US$ 243,85 mil.
A origem do imbroglio que envolve o Citi, a Revlon e os seus credores remonta a 2016, quando a indústria de cosméticos estado-unidense adquiriu a concorrente Elizabeth Arden. A transação somou por volta de US$ 3 bilhões, dos quais US$ 870 milhões saíram do caixa da compradora e o restante foi bancado por meio da contratação de empréstimos. O caldo começou a azedar há um ano, quando a Revlon ofereceu como garantias a um novo financiamento de US$ 200 milhões negociado com a Ares Management Corporation, da Califórnia, direitos de propriedade intelectual que já haviam sido utilizados com o mesmo fim na operação de compra da Elizabeth Arden.
A reação de uma parcela dos financiadores mais antigos não tardou. Além de colocarem a tomadora contra a parede, eles solicitaram a troca do Citibank pela UMB Financial Corporation, de Kansas City, na função de facilitadora financeira do processo. Como não houve acordo, a UMB deu entrada em 12 de agosto último, no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York, a uma ação contra a Revlon, acusando-a de ter transferido de forma ilegal marcas pertencentes a empresas que lhe garantiram empréstimos de quase US$ 1,8 bilhão há quatro anos. O Citibank também foi arrolado no processo, o que explica, em parte, a relutância de alguns credores da Revlon de devolver-lhe os pagamentos efetuados por engano há poucas semanas.

As recentes “doações” não foram as únicas mancadas milionárias cometidas pelo Citibank ao longo dos últimos tempos. Em novembro de 2019, ele foi multado pela autoridade de regulação prudencial (PRA, no acrônimo em inglês) do banco central da Inglaterra em 44 milhões de libras, o equivalente a US$ 57 milhões, pelo fornecimento, por anos a fio, de relatórios imprecisos sobre capital e liquidez. Como assumiu seus erros sem maiores discussões e se dispôs a passar a seguir à risca os rígidos padrões ingleses, a instituição obteve um desconto generoso na multa, cujo valor original somava 62,7 milhões de libras. “Retornos regulatórios precisos das empresas são vitais para a PRA cumprir nosso papel. O Citi falhou em fornecer retornos precisos e não cumpriu os padrões de governança e supervisão de relatórios regulatórios que esperamos de um banco sistemicamente importante”, comentou à época Sam Woods, o titular da PRA.