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Mulheres mais ativas em PE/VC
Eleição de duas mulheres para o Conselho Deliberativo da Abvcap mostra que o sexo feminino quer ampliar sua presença no mercado

Edição 336

A gestão de fundos de private equity e venture capital, representado frequentemente pelas iniciais PE/VC, era um daqueles segmentos onde a participação feminina nunca foi muito numerosa, com poucas mulheres participando de instâncias decisórias, seja de empresas ou entidades, mas isso está começando a mudar. Na última eleição para o Conselho Administrativo da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), dos 12 novos conselheiros eleitos duas são representantes do sexo feminino. Pode parecer pouco, e na verdade é, mas vale lembrar que o Conselho anterior contava com a presença de apenas uma mulher.
Apesar da pequena participação feminina no Conselho, deve-se destacar que a entidade é uma das poucas que tem uma mulher no comando das operações do dia a dia, a superintendente executiva Ângela Ximenes, há quase 14 anos no cargo. “O mundo de private equity, sobretudo nas posições chave, ainda é preponderantemente masculino”, diz Ângela. “Pela primeira vez, em nossa história de 21 anos, temos duas mulheres em nosso Conselho. Mas já há um movimento de visível renovação no cenário brasileiro, impulsionado pelas exigências de diversidade trazidas por investidores estrangeiros”.
Para o novo Conselho da Abvcap, além da reeleição de Marina Procknor, advogada do escritório Mattos Filho com mais de vinte anos de atuação na área de mercado de capitais e já em seu terceiro mandato no Conselho da Abvcap, também foi eleita para um primeiro mandato a partner da gestora Crescera, Priscila Rodrigues, que atua na área de PE/VC também há quase duas décadas. Uma terceira representante do sexo feminino entrou na disputa, Alexandra de Haan, diretora do Mubadala, o fundo soberano dos Emirados Árabes, mas não conseguiu votos suficientes para se eleger. “Ainda é uma presença pequena, mas estamos evoluindo”, diz Marina. “A participação no Conselho da Abvcap é reflexo do que acontece na indústria de PE/VC, onde a presença feminina ainda é tímida”.
Para ela, a indústria de PE/VC poderia ganhar bastante em termos de governança e novas idéias com uma maior participação feminina. “O aumento do número de mulheres na indústria de PE/VC significaria mais diversidade, idéias novas e pontos de vista diferentes, e isso sem dúvida poderia melhorar o seu desempenho, assim como acontece em todos os outros segmentos de negócios”, diz.
A advogada participa da indústria de PE/VC há bastante tempo, suficiente para se lembrar de temas que marcaram a trajetória do setor, como por exemplo a briga da Previ com o banco Opportunity por mais governança nas empresas investidas da área de telecomunicações, no início da década passada. Como consequência dessa disputa, na qual os fundos de pensão consideraram que precisariam ter participação mais ativa nos fundos para fazerem valer seus direitos, eles passaram a condicionar os investimentos em fundos de PE/VC à criação de comitês de investimento. “Eu participei desse processo, advogando para os fundos de pensão na época, e posso entender o motivo original da criação desses comitês, mas atualmente eles não fazem mais sentido,” explica. “Hoje as gestoras não querem o investidor opinando quando e como fazer um investimento, essa responsabilidade deve ser do gestor”.
Os comitês de investimento estão caindo em desuso na indústria de PE/VC, em virtude principalmente da evolução do setor. “É uma jabuticaba, algo tipicamente brasileiro, em nenhum outro lugar do mundo isso existe”, diz a partner da Crescera, Priscila Rodrigues. “A responsabilidade deve ser do gestor, isso inclusive exime os investidores de responsabilidades pela condução do processo de investimentos”.
Priscila está há 12 anos na Crescera, uma gestora que atua tanto com fundos de private equity quanto de venture capital. “Estamos no nosso quinto fundo de PE e no terceiro de VC”, explica. “Fazemos tanto cheques maiores quanto menores, fornecemos capital para o crescimento das empresas”.
Ela começou a atuar de forma mais sistemática na Abvcap somente a partir do ano passado, participando do Comitê 2030, que discute a inserção dos 17 princípios de desenvolvimento sustentável definidos pela ONU (Organização das Nações Unidas) para serem implementados até o ano de 2030. Esses princípios, com uma forte conexão com a temática ESG (de Ambiental, Social e Governança), começam a entrar na pauta dos investimentos dos fundos PE/VC. “A indústria de PE/VC tem que responder a esses novos desafios colocados pela temática ESG e pelos 17 princípios da ONU”, diz. “
Tanto ela quanto Marina sabem, no entanto, que isso não caminha de forma isolada, mas deve seguir em paralelo com o retorno financeiro dos investimentos. Com a queda da taxa de juros no Brasil, que nos últimos anos desceu para os níveis mais baixos do nossa história financeira, alcançando o patamar de 2% ao ano (subiu 0,75 pontos percentuais nas últimas duas reuniões do Copom, estando atualmente em 3,5% ao ano), a demanda por ativos de risco como os fundos de PE/VC passam a ser importantes para os investidores, principalmente os de longo prazo, como os fundos de pensão. “Nunca foi tão importante para os institucionais olharem para a classe dos investimentos alternativos, como os fundos de private equity e venture capital”, diz Marina.
Na verdade, os fundos de pensão brasileiros já perderam grandes oportunidades em investimentos na área de PE/VC nos últimos anos, por conta de travas colocadas principalmente pelas grandes fundações nas suas políticas de investimento para alocação em Fundos de Participações (FIPs), por conta de problemas relacionados à investigações da Polícia Federal em ativos como Sete Brasil, FIP Florestal e outros. “Quem ganhou dinheiro com os investimentos em FIPs nos últimos anos foram os investidores estrangeiros, que compraram empresas que evoluíram muito bem e trouxeram ótimos retornos”, diz Marina. “Algumas têm ido à mercado, via IPOs, e remunerado muito bem aos seus cotistas”.
Segundo ela, o que ocorreu com esses veículos no passado não é algo que seja intrínseco a eles, mas sim um desvio de finalidade. “É injusto atribuir ao instrumento FIP essas fraudes, o que tivemos foram instrumentos que foram empacotados como FIPs mas sem respeitarem as suas características”, explica. Segundo ela, hoje eles nem seriam caracterizados como FIPs, uma vez que para isso teriam que investir em vários ativos e não exclusivamente em um, como fizeram Sete Brasil, FIP Florestal, FIP Naval etc. “O setor evolui muito, incluindo os gestores, o órgão regulador (CVM) e fiscalizador (Previc)”.
A Abvcap tem na pauta da atual diretoria, comandada por Piero Minardi que foi reeleito para um segundo mandato à frente da entidade, reaproximar os FIPs dos fundos de pensão. “Um dos nossos gols (objetivos) para este ano é trazer os institucionais de volta para o setor”, explica Marina. “Queremos desmistificar o que deu errado no passado, mostrar que a culpa não é do instrumento FIP mas do mau uso que se fez deles”.
Para a conselheira, com as taxas de juros nos níveis em que estão os institucionais terão que alocar em ativos alternativos que tragam retornos suficientes para alcançar suas metas atuariais, como acontece em outros países. E hoje terão que disputar esses ativos tanto com os investidores estrangeiros, que já alocam nesse setor no Brasil há muitos anos, quanto com os fundos de family office, assets independentes e mesmo o investidor pessoa física que, no último um ano e meio, passaram a direcionar parte das suas carteiras para o setor.
Ela vê o crescimento das ofertas públicas iniciais (IPOs na sigla em inglês) com otimismo. “Enquanto tivermos os juros baixos os recursos de investimento devem buscar o mercado de capitais. E quando o mercado de capitais vai bem o segmento de PE/VC também vai”, diz. “O desempenho do setor no ano passado faz lembrar o boom de 2006/2007. Já neste ano de 2021, devido a alguns cenários menos favoráveis, o setor parece estar um pouco mais contido”.
Na opinião de Priscila, da Crescera, o temor que alguns manifestam de que o número de IPOs no ano passado e neste ano possa representar uma bolha é infundado. “Não acho que seja uma bolha, até pode ter ativos que estejam vindo a mercado sem estar devidamente preparados, mas muitos desses estão recuando”, diz a executiva. “O trabalho dos gestores de PE/VC é justamente preparar a empresa, tanto financeiramente quanto em termos de governança, para o momento de vir a mercado, de abrir o capital”.
Na sua lista de segmentos com maior potencial de performarem bem nos próximos anos estão infraestrutura, tecnologia, educação, saúde e consumo e varejo. A Crescera, segundo ela, tem feito vários investimentos em empresas dos setores de saúde e educação.
A lista do setores que devem performar bem nos próximos anos, segundo Marina, inclui infraestrutura e tecnologia voltada aos negócios em agrobusiness, saúde, seguros e indústria financeira. “O mais importante para o investidor é analisar bem os setores e ter uma política bem robusta para escolha do gestor”, diz a executiva. “É um jogo no qual a palavra chave é a escolha do gestor”.