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Agilidade e método foram vitais
Num período marcado pela pandemia da Covid 19, que estressou os ativos de risco, os gestores que tiveram disciplina e agilidade se deram bem

Manter a disciplina na gestão de riscos, assumir agilidade extra nas revisões de cenários e rapidez para recalibrar carteiras multimercados quando, em pleno Carnaval, a onda de pânico atingiu os preços dos ativos. Essa combinação foi essencial para amenizar o impacto da crise sobre as carteiras dos fundos de investimentos este ano até junho. No ranking dos Melhores Fundos para Investidores Institucionais o foco nos doze meses encerrados em junho passado incluiu dois períodos completamente distintos nos mercados e no mundo: o segundo semestre de 2019, que apesar das instabilidades geopolíticas e econômicas terminou mais positivo, e o primeiro semestre de um ano que ainda não terminou mas que já deixou marcas indeléveis na atuação dos gestores.
São 974 fundos analisados, dos quais 447 são de renda fixa, 275 multimercados e 252 de ações. Dos 974 fundos deste ranking, 332 foram classsificados com as cores verde (excelentes), 319 amarela (adequados) e 323 vermelha (insuficientes). A seleção e classificação dos fundos foi feita pela ComDinheiro com base na sua relação risco/retorno, comparados dentro das classes Anbima (ver critérios no quadro “para entender o ranking”).
Num primeiro momento, a disciplina foi fundamental para evitar que se assumisse riscos ainda mal compreendidos “No auge do caos introduzido pela pandemia, uma análise retrospectiva indica que tanto os fundos que foram muito bem quanto aqueles que foram muito mal podem ter tido uma gestão de riscos questionável diante do comportamento dos mercados”, avalia o CIO da BRAM, Marcelo Nantes. O mais relevante, diz Nantes, era manter a disciplina diante da magnitude dos riscos desconhecidos no auge da crise. Passado o pico mais “irracional” dos mercados, num segundo momento, quando os dados começaram a clarear, foi preciso fazer o dever de casa e identificar as boas oportunidades para retomar o stock picking de ativos. Com o maior número de fundos classificados como Excelentes no ranking de 12 meses, a BRAM pouco alterou o risco de todas as suas carteiras.
A correção forte dos mercados logo depois do carnaval era reflexo de um evento global difícil de mensurar. “Os mercados colapsaram e a ideia geral era a de risk off, diz Nantes. Em abril havia a sensação de que as bolsas haviam caído demais mas faltava visibilidade sobre a saída da pandemia na Ásia, embora já fosse possível ter alguma ordem de grandeza”. Em meados de maio já era possível fazer contas mas a BRAM pouco reduziu o risco, ele estava concentrado em setores com impacto menor e melhor visibilidade dos resultados financeiros. Quando o Ibovespa ficou mais similar ao que era antes da crise, passando dos 95 mil pontos, a casa voltou aos papéis estruturais.
Com posições maiores em ações de capitalização média na bolsa, o CIO da BRAM vê ainda uma mudança este ano que precisa ser levada em conta: o aumento explosivo do fluxo de investidores pessoas físicas na bolsa e o consequente movimento mais errático de alguns papéis. ‘Isso não afeta a visão de longo prazo do papel, que é mais estrutural, mas é variável que precisa ser considerada porque afeta as ações no curto prazo por conta da disseminação de informações nas redes sociais, o que pode produzir facilmente um efeito manada”, diz Nantes.
“Entre 2019 e 2020 foi como se tivéssemos passado por um túnel em que a saída era em outra vegetação, completamente diferente da entrada”, ressalta o sócio da Garde Investimentos, Marcelo Giufrida. O ano passado havia trazido bastante turbulência interna com o debate sobre a reforma da Previdência e também externa, por conta de questões como a greve e protestos na França, problemas de governo na Alemanha e na Itália, Brexit, a guerra comercial entre EUA e China. “Mas o ano terminou numa nota positiva para o Brasil, a bolsa atingiu recorde e os juros seguiram em baixa, além do que as demais medidas a serem aprovadas pelo Congresso não pareciam tão drásticas”, frisa o gestor. Na saída do túnel - a ficha da pandemia caiu em pleno Carnaval, com os mercados fechados -, foi preciso mexer rapidamente nos portfolios já em meio a um cenário totalmente diverso.
Nesses 12 meses o cenário não foi “para amadores”, pontua o especialista em porfolio da Itaú Asset Management, Fernando Cavallete. Ele lembra os desafios externos que já haviam pressionado os mercados no ano passado por conta da guerra comercial entre EUA e China, a expectativa preocupante do Brexit e seus efeitos para a Europa e um alto grau de tensão geopolítica de modo geral. Fatores agravados no âmbito local pela preocupação com a reforma da Previdência. Até pouco antes do final do ano já havia um risco que impedia os emergentes de alçar maiores voos mas esses fatores acabaram sendo ajustados e 2020 começou com uma perspectiva mais animadora nos mercados. “Veio a pandemia e entramos numa montanha-russa de emoções; foi preciso ter uma atuação rápida em busca de proteção e até mesmo de extrair algum valor para as carteiras em meio à crise”, enfatiza Cavallete.

Para a Western Asset, foi essencial ter a clareza de que a crise era sem precedentes mas os estímulos fiscais e monetários também teriam proporções inéditas.”Nos seis primeiros meses deste ano isso ficou claro com o programa de recompra de títulos pelo FED na crise, mais agressivo do que havia sido na crise de 2008/2009, quando levou quatro meses para trazer o juro a zero”, observa o CEO da casa gestora, Paulo Clini. Desta vez os movimentos foram muito mais rápidos e o programa fiscal também foi sem precedentes, valendo também para a Europa, China, Japão e outros países. “Isso fez com que nós evitássemos tomar qualquer atitude precipitada no sentido de reduzir posições no auge da crise, em fevereiro e março. Tomamos o cuidado de não reduzir o risco de maneira relevante porque no passado estímulos fiscais e monetários menores haviam sido capazes de mover os mercados para cima”. Em abril e maio vieram correções de quedas abruptas, provando que a estratégia havia sido acertada. O mais importante, diz Clini, foi que a gestão cautelosa conseguiu segurar posições e ficar muito perto dos clientes para explicar porque estava fazendo isso, inclusive adicionando risco de maneira paulatina às carteiras.
O último trimestre tirou do radar do mercado o risco da guerra comercial, então havia um input externo favorável. “Aqui também havia uma perspectiva interessante com o fim da Disneylandia do CDI”, lembra o sócio da Mauá Investimentos, Luis Garcia. Esse era o pano de fundo da virada do ano, que levou os gestores a apostarem mais em bolsas do Brasil e do mundo, antes que viessem as notícias letais sobre o vírus. Ainda assim, diz Garcia, havia uma expectativa de que esse vírus seria parecido ao da peste suína, de curta duração, e foi preciso ouvir os especialistas em epidemiologia, pever cenários ficou muito complicado e os níveis de convicção cairam. A visão mais preocupante, lembra o gestor, foi com a volta da atividade econômica mas a bomba atômica de liquidez injetada pelos bancos centrais e pelos Tesouros levou mais pessoas físicas aos mercados de bolsa e ativos nos EUA foram muito bem, como os papéis na Nasdaq. “Muito antes que as casas de research dos grandes bancos e outros profissionais enxergassem, os investidores pessoas físicas apostaram na volta em “V” e a bolsa americana voltou antes que a economia desse sinais de recuperação”, pondera Garcia.

Ranking - Data base 30/06/2020 ( arquivo em pdf)

Performance geral dos gestores ( arquivo em pdf)