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Sob a marca da volatilidade
Gestoras de fundos de ações tiveram que conviver com diferentes cenários durante os últimos 12 meses, e capacidade de análise foi fundamental

Edição 339

O mercado de renda variável viveu de 2020 para cá um período sem paralelo na história recente em termos de volatilidade, avalia Rogério Poppe, CEO da ARX Investimentos. A visibilidade muito baixa a partir de março de 2020 levou a casa a adotar, em primeiro lugar, uma estratégia mais diversificada em busca dos setores menos prejudicados – em especial comércio eletrônico e supermercados, que tiveram demandas acima das expectativas – para navegar até que a nuvem espessa do início da crise começasse a se dissipar.
Com dois fundos de ações classificados como excelentes, entre três analisados no ranking Melhores Fundos para Institucionais, a ARX manteve a diversificação do primeiro semestre mas passou a combiná-la, a partir do segundo semestre, com maior exposição a commodities. Com essa receita, de diversificação combinada com exposição a commodities, ganhou exposição aos setores mais beneficiados sem deixar de lado os papéis mais defensivos. “Isso foi importante porque a aceleração na queda da Selic favoreceu o setor de concessões, como as empresas de energia elétrica e outras que foram beneficiaram da redução do juro e buscamos identificar essas oportunidades”, afirma. No segundo e no terceiro trimestres de 2020, foi essencial olhar para os setores que ganhariam com a reabertura.
O primeiro semestre de 2021 já foi um pouco mais equilibrado, com um grande número de IPOs que representaram oportunidades, mas havia também um histórico muito curto e poucas referências dessas empresas. Outro complicador foi o grande volume de informações sobre elas - mais de 40 empresas em oferta-, para ser digerido em pouco tempo. “Diante disso decidimos ser conservadores na análise e ponderamos bem, privilegiando os papéis de empresas que tinham os melhores times de gestão e acabou sendo produtivo pelo próprio processo de adquirir conhecimento sobre essas companhias”, pontua Poppe.

Os 12 meses encerrados em junho último não foram fáceis para a ARX, concentrando diversos momentos com ênfases bem distintas. Num primeiro momento, ainda de recessão, as estratégias focaram principalmente em empresas com crescimento mais estrutural e menos conjuntural, mas num segundo momento, já de recuperação econômica a partir do primeiro semestre de 2021, o foco voltou-se também para empresas do comércio eletrônico e commodities. “Foram contribuições distintas para o desempenho dos investimentos e, no final do primeiro semestre deste ano, esse movimento foi estendido para a recuperação dos cíclicos domésticos – varejo, indústria e transportes e saimos daquela postura mais defensiva”, afirma Poppe. Atualmente, a observação da economia chinesa já fez a asset reduzir um pouco sua exposição a commodities.
O fundo Arx Income aloca em papéis de empresas com perfil maior de geração de caixa, mas também se posiciona em empresas que devem ser beneficiadas pelo ciclo econômico, com ponderação maior para o lado conservador, conta Poppe. São 35 empresas investidas em papéis mais defensivos e sem ter mais do que 10% no mesmo papel nem mais de 30% no mesmo setor. “É uma estratégia de longo prazo, contando três anos para a frente, então o giro de papéis é menor”, detalha o gestor. Já no Long Term há maior concentração (são só 20 ações) e horizonte mais curto, com empresas de crescimento e giro maior de papéis, num perfil mais agressivo. A grande exposição tem sido no consumo e a carteira está exposta em mais de 50% aos setores ligados aos ciclos domésticos, a maior parte no varejo.
A visão da casa é a mesma para as duas estratégias, o que muda é apenas a forma de alocar o risco, diferente em cada um dos fundos. No momento, o time macro da gestora analisa um cenário pior porque aumentou a probabilidade de problemas. “Estamos reavaliando cenários, porque não esperávamos uma deterioração tão rápida decorrente da precificação maior de riscos na área política, com os três poderes estressados, do aperto monetário e da inflação. O PIB de 2022 vai decepcionar, mas em contrapartida o quadro de crescimento de lucros ainda é positivo para os próximos seis meses, então essa não é uma conta fácil de fazer”, analisa Poppe. Por enquanto, a deterioração não justifica alterar as carteiras de maneira relevante além do que a casa já fez.

A diversificação foi o tema da alocação em ações feita pela BB DTVM (gestora que conta com o 18 fundos de ações classificados como excelentes), que apostou na tese da recuperação econômica em 2021, disseminada ao redor do mundo. “No primeiro semestre deste ano seguimos acreditando nisso, tanto nos fundos multimercados quanto nos de ações, com estratégias de valor em empresas com preços descontados, análise fundamentalista aliada à de cenários e a gestão baseada nessa ideia, mais forte no segundo semestre de 2020 e no primeiro deste ano”, conta o diretor de produtos Julio Vezzaro.
Segundo Vezzaro, no segundo semestre ganharam espaço no portfólio empresas voltadas à exportação e ao mercado de commodities, mas a tese de valor e a análise fundamentalista, com atenção a todos os setores e olho no lado real da economia, ainda continua prioritária. “A decisão estratégica foi de que vamos continuar na mesma tônica”. Outro ponto que ajudou a performance dos fundos, analisa Vezzaro, é o modelo de gestão baseado em grande governança “porém sem grandes estrelas no time”.
A casa lançou este ano o primeiro fundo dedicado a empresas do agronegócio, que está há seis meses no mercado, e já soma patrimônio de R$ 400 milhões. O pipeline é forte no segundo semestre para lançamentos de novas estratégias globais em fundos de ações e multimercados. O portfolio amplo, trabalhado por gestores especializados, é diversificado mas tem um viés forte de alocação no exterior. “São ações com várias teses no Brasil e no exterior, incluindo as de governança e de equidade porque a pauta de ASG (critérios ambientais, sociais e de governança) é permanente na casa”, diz Vezzaro. O objetivo é atingir capacidade até o final deste ano para ter mais de 90% de todos os ativos da casa analisados também sob a ótica ASG e chegar a 100% deles no primeiro trimestre de 2022. O percentual atual é de 80% dos ativos analisados.

Em tempos turbulentos, previsibilidade é um diferencial especialmente relevante para os investidores, ressalta o sócio e CIO da Vinci Partners, Fernando Lovisotto. Os dois fundos de ações da casa classificados como excelentes no ranking são mandatos de dividendos, investindo em empresas maduras e capazes de oferecer previsibilidade de receita, além de gerar lucros. “Isso é fundamental, nós fugimos de empresas que paguem dividendos com dívidas e os dois mandatos se provaram devido às características que buscamos nas empresas. Numa janela de quatro anos, para investimentos que ficaram no portfólio no mínimo durante quatro anos, o retorno foi de inflação mais 6% ao ano em 100% das vezes”, calcula Lovisotto.
Esse tipo de gestão sofre menos em épocas de incertezas e permitiu diversificar em companhias e setores cujas receitas têm grande visibilidade, além de oferecer proteção contra a inflação. “Um exemplo dessa soma de características nos fundos de ações foi o da Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP), que ofereceu tudo isso na veia. Outro caso foi o da Equatorial Energia, por exemplo, que pagou dividendos com um retorno excedente expressivo sobre as NTN-Bs sem tanto risco adicional”.
A tese de proteção contra a inflação segue relevante, diz o gestor, embora haja uma perspectiva de que a pressão inflacionária acalme um pouco em 2022. Para os fundos de pensão, isso é sempre importante porque os seus passivos são corrigidos em inflação e porque eles precisam dessa proteção no longo prazo”, avalia Lovisotto. Ainda que o mercado de dividendos não seja tão grande, o gestor lembra que o volume de operações já garante liquidez para a saída dos investimentos e as fundações, hoje, tem agilidade para girar suas carteiras.
“A grande questão que se coloca atualmente é saber se o percentual dos investimentos das entidades em renda variável está suficiente, abaixo ou acima do que deveriam estar”, diz. Uma pergunta que ficou mais difícil de responder, observa Lovisotto, depois da alta dos juros e também por causa dos movimentos de ajustes nas metas atuariais feitos por uma parte das fundações.

Melhores gestores em Ações (arquivo em pdf)