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Off-shore e exclusivos em alta
A internacionalização das carteiras garantiu aos investidores de fundos no exterior acesso a novas classes de empresas e a mercados mais sólidos

O impulso do investidor local na direção do salva-vidas internacional durante a crise levou os fundos off-shore a somarem um volume sob gestão de R$ 138,9 bilhões no final de junho, com um crescimento de 31% no semestre e de 42,4% em doze meses. Segundo o CIO da Vinci Partners, Fernando Lovisotto, o crescimento dos fundos off-shore foi o mais relevante no período. Com R$ 7,43 bilhões sob gestão nessa categoria, aumento de 308% em seis meses e de 489% nos doze meses, a Vinci faz um balanço positivo do mercado do ano passado para cá, especialmente em suas carteiras de renda variável global. “O ano foi muito volátil e os fundos de pensão estão olhando essa opção com outro interesse porque quem tinha exterior antes da crise passou por ela muito melhor”, diz Lovisotto. A tese continua fazendo sentido diante do juro baixo e da necessidade das fundações gerarem retornos de longo prazo compatíveis com metas de 5% a.a.
A internacionalização assegurou acesso a mercados mais profundos, a maior número de empresas e de alternativas como as da área de alta tecnologia e indústria farmacêutica. Na Vinci, há quatro opções que englobam renda fixa ou renda variável, com quatro versões diferentes, incluindo ou não hedge cambial. Nesse modelo de gestão, a asset faz a escolha dos melhores fundos lá fora, direto via Luxemburgo e sem feeders locais. “O balanceamento é feito por nós e isso ajudou a atingir bons resultados e a pensar em bater metas em reais no longo prazo”. Facilitou muito o fato de a Vinci contar com uma equipe em NY, garantindo retornos de 3% a 4% em dólar no ano.
O aumento da demanda tem acontecido de modo consistente, assim como a busca por produtos mais sofisticados e ativos específicos lá fora. A única coisa a atrapalhar essa expansão é a preocupação com o dólar no curto prazo, observa Lovisotto. “É importante que o investidor saiba que o dólar só entra nessa equação para diversificar, mas esse ainda é um fator que atrapalha um pouco”. Com dez EFPC em sua grade de clientes, a gestora trabalha com um cenário que soma o juro baixo ao elevado grau de incertezas domésticas e externas, o que se traduz em muita volatilidade pela frente.
Apesar do avanço, a situação no segmento de EFPC permanece ambígua, admite o gestor, porque na média o seu investimento no exterior fica entre 1% e 2% dos ativos, embora algumas fundações já estejam no limite máximo de 10% ou próximas disso e querendo alocar mais. “Por enquanto, o problema do limite regulatório atinge apenas alguns deles, mas a trava jurisdicional atinge a base do mercado. A jurisdição hoje só dá acesso a fundos com sede em Luxemburgo e não permite, por exemplo, acessar Caymã. Para acessar os melhores produtos será necessário liberar isso mas é um caminho que só deverá surgir a longo prazo”, reconhece Lovisotto.

Finalmente as casas gestoras “faixa-preta” globais estão sendo atraídas para atender o investidor brasileiro, lembra o entusiasmado gestor responsável pelos fundos internacionais da XP Asset, Fabiano Cintra. Com mais de 60 opções no mapa de sua plataforma de fundos, a XP somava no final de junho R$ 1,44 bilhão sob gestão em fundos off-shore, com crescimento de 586% no semestre e de 700% em doze meses. Mas esses números já virão mais expressivos quando forem anunciados os resultados do terceiro trimestre, assegura Cintra. Pelo menos mais 30 opções de estratégias estão sendo adicionadas este ano ao mapa da plataforma, desde as mais passivas até as mais ativas. A intenção é caminhar, aos poucos, para estratégias especializadas, como as oferecidas pelo parceiro Moneda, casa chilena especializada em análise de ativos da América Latina.
“O Brasil sempre teve um viés doméstico em investimento, inclusive dos institucionais, e 99% de seus recursos estão alocados aqui, por causa dos juros altos. Agora é a oportunidade para mudar essa realidade e incorporá-la às carteiras”, avalia o gestor. Cintra lembra que o Brasil vive hoje um processo similar ao vivido pelo Chile nos anos 1990, quando as entidades de previdência complementar enfrentaram as condições estruturais adversas do mercado interno e internacionalizaram seus investimentos. “Lá havia um mercado de capitais relativamente raso, como aqui. As 300 ações na bolsa brasileira são um mercado raso diante do mar aberto que existe lá fora para ser explorado. Há uma diversificação limitada no universo local e os gestores enfrentam o desafio da capacity – capacidade de alocação da estratégia -, ou seja, a concentração específica numa posição compromete a geração de alfa.
A XP espera fechar no segundo semestre mais dez parcerias com gestores estrangeiros, avançando em opções na Ásia, China e em temas como ESG, por exemplo. “Resolvemos tomar a frente dos investimentos de impacto no Brasil e breve deveremos anunciar parceria com a gestora que é referência número um em ESG no mundo”, diz Cintra.
Entre as novidades está também a primeira estratégia de Europa em euros, da Fidelity. Em multimercados, a intenção é trazer hedge funds e investir em casas reconhecidas. ‘’Queremos trazer as melhores gestoras, as da categoria “faixa-preta” mesmo, como JP Morgan, Wellington e outras, porque os fundos off-shore foram o grande estouro do ano aqui, esse é o começo de uma transformação sem precedentes, uma integração global com gestores que estão no mercado há séculos e são os melhores do mundo”. Este ano a casa fechou um pedaço importante de capacity lá fora , com estratégias bem restritas e que agora estarão disponíveis aos institucionais aqui. É preciso estimular a discussão sobre flexibilizar o acesso a ativos fora do Brasil, no âmbito da Anbima e da CVM, diz Cintra. “As políticas frouxas de juros zero ou negativos vão continuar e como será possível aos institucionais atingir suas metas?”
No primeiro semestre, R$ 600 milhões captados pela XP vieram de institucionais, sendo R$ 267 milhões dos RPPS. “A grande surpresa veio dos RPPS, porque as EFPC já estão entrando em outro patamar, elas procuram estratégias especializadas, falam de Ásia e de produtos mais completos. Como as fundações não tinham diversificado tanto em exterior, agora elas já entram na alocação global de maneira mais bem feita, especializada”, diz a head de Distribuição Institucional da XP, Taís Campos. A preocupação central das fundações com o câmbio cedeu espaço à busca agora por índices customizados e portfolios mais amplos. “As fundações de maior porte procuram montar um FIC de exterior customizado conforme os riscos, etc, enquanto as de médio porte que estão começando agora ou ainda têm pouca coisa querem investir diretamente nos fundos condominiais”, explica Campos.
Destaque de crescimento, os fundos exclusivos refletiram a busca de novas soluções de investimento frente à crise da Covid e à queda da Selic. Na Bram, esses fundos somaram ativos de R$ 230,9 bilhões sob gestão, com crescimento de 0,42% no semestre e queda de 2,89% em doze meses. “A governança de risco garantiu a captação positiva dos nossos fundos balanceados exclusivos, assim como a performance e o reconhecimento da “boa placa” da asset” em período de mares revoltos nos mercados, analisa o CEO da casa, Ricardo Almeida. Os fundos balanceados institucionais de renda variável, renda fixa e uma parte de IMA-B de maior destaque não foram os fundos “caixa” mas os de gestão ativa, que incluem um trabalho de assessoria de investimento.
Segundo Almeida, o objetivo é mostrar a importância da diversificação, indo além da classe de ativos e alcançando também as diferentes geografias e diversos horizontes de tempo. Além disso, “é preciso alcançar outros gestores internacionais, especializados em mercados descorrelacionados, com diferentes estratégias long biased, long short ou long only, que analisem todos os elementos dos fundos multimercados”, diz.
Nos exclusivos, a assessoria tem que estar perto do cliente para entender suas necessidades e expectativas; na crise da pandemia não tivemos grandes volumes de saques por causa desse trabalho e daqui para a frente isso será cada vez mais importante”.

Segmentação por Veículo de investimento (em pdf)