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O semestre em que tudo mudou
A quarentena da Covid-19, aliada a taxas de juros em níveis historicamente baixos, apressou a transformação do perfil de investimentos dos brasileiros

Com R$ 4,87 trilhões sob gestão no final de junho passado, em queda de 0,65% em relação a dezembro de 2019, a indústria de alocação de recursos sofreu este ano, em especial ao longo do primeiro quadrimestre, o impacto da crise trazida pela pandemia de coronavírus. Ainda que a partir do final de abril tenha se iniciado um processo de recuperação de ânimos nos mercados, o primeiro semestre de 2020 refletiu o peso da insegurança e da retração que atingiram investidores nas diversas classes de ativos e veículos de investimento. Mas o resultado em doze meses ficou positivo e o volume sob gestão registrou alta de 5,12% em comparação a junho de 2019. A percepção dos gestores sobre o “novo normal” da indústria é bem clara: a crise da Covid apressou a transformação do perfil de investimentos no Brasil, que aprendeu o caminho global e incorpora de vez o conceito de mais risco para compensar a queda da taxa Selic.
Na liderança do mercado, com um total sob gestão de R$ 1,09 trilhão, crescimento de 4,09% no semestre e de 3,55% em doze meses, a BB DTVM conseguiu navegar de maneira competitiva durante esse período muito específico criado pelo evento da pandemia, diz o seu diretor executivo de Gestão de Ativos, Marcelo Pacheco. “Este ano começou como uma continuidade de 2019 , mas logo a crise afetou todos os ativos e levou à redução maior do juro básico pelo Banco Central, alterando a percepção de que a queda da Selic tivesse chegado ao seu final”, diz Pacheco.
Todos os mercados foram impactados. A bolsa despencou, os ativos de crédito privado perderam liquidez e aumentaram os prêmios, a renda fixa pós-fixada cortou a remuneração enquanto os prefixados mantiveram performance positiva na marcação a mercado. “Mas a recuperação também veio muito intensa a partir de maio. O crédito privado reagiu e, embora os níveis atuais não sejam os mesmos de antes da crise, houve uma recuperação relevante”, afirma o diretor da BB DTVM.
Na renda fixa, o semestre foi marcado pela migração dos investidores da gestão passiva para a ativa e pela troca dos títulos pós-fixados pelos prefixados. “O juro deverá continuar no atual nível por um bom tempo e, no pior cenário, uma alta da Selic só ocorrerá no final de 2021 mas mesmo assim não será uma volta aos padrões anteriores”, estima Pacheco.
O único ativo que não voltou ao normal foi o câmbio, lembra Pacheco, até porque ele perdeu o seu único freio, que era a taxa de juro interna. “Esse fator de atração do capital externo por meio da taxa de juro deixou de existir no Brasil mas o ajuste nas contas externas do País tende a ser rápido e zerar o déficit que era de 4% do PIB e já caiu para 1,5%, o que poderá limitar novas altas do dólar”, avalia o diretor da BB DTVM. Utilizado como instrumento de proteção contra as turbulências de outros mercados, o dólar segue porém sob pressão.
Ele vê um amadurecimento do investidor como resposta à crise. “Todos os agentes estão trabalhando muito na educação financeira, o que já está surtindo efeito, mas as ferramentas de tecnologia, como as plataformas, aliadas ao baixo nível da Selic foram fundamentais para levar o investidor a buscar alternativas”. As empresas já elevaram o número de IPOs na B3 este ano (no momento de fechamento desta edição alguns IPOs haviam sido cancelados), ao mesmo tempo em que aumenta tanto a demanda quanto a oferta de novos produtos, com maior sofisticação de estratégias para se adequar às exigências dos clientes. “Tem crescido absurdamente a demanda dos investidores por assessoria de informações financeiras depois da eclosão da pandemia”, afirma Pacheco.
Com uma prateleira já bastante ampla, de aproximadamente 900 fundos de investimento, a BB DTVM tem investido para atender à demanda por produtos mais sofisticados e reforçar principalmente três campos. No primeiro, de fundos de renda fixa, quer fortalecer os veículos de gestão ativa. No segundo, de fundos de ações e multimercados, quer tornar as estratégias mais acessíveis a novos tipos de investidores. E no terceiro, quer surfar mais fortemente na onda de alocação no exterior, que acelerou bastante depois da nova baixa da Selic.

Com R$ 637,87 bilhões sob gestão, queda de 6,62% no semestre e de 8,76% em doze meses, a Bradesco Asset Management (Bram) enfrentou as dificuldades da pandemia procurando adaptar rapidamente sua estrutura, até hoje em trabalho remoto, conseguindo entregar bons resultados graças ao planejamento e à comunicação entre gestores, analistas e área comercial. “Essa coordenação bem planejada no home office ajudou e perdemos pouca eficácia na migração; agora estamos reforçando nossa capacidade de gestão, tanto no que diz respeito à equipe própria quanto à gestão de terceiros, principalmente as equipes internacionais, para buscar os melhores gestores lá fora”, diz o CEO da asset, Ricardo Almeida. Se houve perda de clientes pessoas físicas por conta da fuga dos fundos DI, a asset ganhou novos clientes no segmento institucional, afirma.
A opção diante da crise foi reduzir o risco, no primeiro momento, e manter a cabeça fria para aproveitar oportunidades, principalmente nas posições de renda fixa, o que ajudou inclusive a reforçar resultados dos fundos exclusivos. “O Banco Central aprofundou a redução da Selic e nos concentramos no juro curto, prefixado, com vencimento até 2022, fugindo dos prazos mais longos”, detalha Almeida. Na renda variável, a asset reduziu o risco inicialmente mas voltou a ampliar posição à medida em que o cenário foi “clareando”, com movimentos mais agressivos nos fundos balanceados de vários mandatos e hedge entre renda variável e câmbio. Mas a principal aposta foi mesmo na queda dos juros. No mercado de crédito, entre março e abril, ocorreu talvez o movimento mais estressado entre os efeitos secundários da Covid, lembra Almeida.
O grande volume saindo da renda fixa, entre o primeiro trimestre e o começo do segundo trimestre, resultou de investidores pessoas físicas trocando os fundos DI pela bolsa. Para atender esses investidores, a Bram pretende reforçar a equipe de fundos de fundos para diversificar e lançar produtos que combinem com o que a asset já tem na casa. A asset lançou este ano dois fundos de investimento em ouro, em dólar, que apostam na valorização do metal. As duas versões permitem escolher entre fazer ou não hedge cambial. No período de quatro a seis meses desde seu lançamento, esses fundos já captaram perto de R$ 300 milhões.
O ouro surge como mais um ativo para diversificar e compor o retorno num cenário em que a volatilidade continuará alta, sob os efeitos da Covid e da recorrência do vírus a curto prazo.“Com a melhora no mercado de crédito e a recuperação da bolsa, o semestre terminou de modo mais positivo e conseguimos navegar bem pela crise, mas agora a segunda onda de Covid na Europa preocupa de novo, assim como a eleição nos EUA”, pondera Almeida.

As alocações em renda variável, multimercados e outros ativos com maior nível de risco, inclusive no exterior, vinham crescendo desde o ano passado, com um aumento dessa tendência no início de 2020 . “Todos estavam alocando mais em risco até que o ‘acidente de percurso’ da pandemia produziu os meses bem difíceis de março e abril. Mas ao mesmo tempo o investimento no exterior acelerou”, ressalta o country head da Schroders no Brasil, Daniel Celano. Com R$ 17,8 bilhões sob gestão, queda de 1,58% no semestre mas crescimento de 9,7% nos doze meses, a gestora viu disparar na demanda dos investidores a importância dos mandatos internacionais sob medida, o que pressionou ainda mais a oferta que já vinha crescendo na casa. O comportamento das bolsas internacionais em comparação com o da bolsa brasileira no auge da crise, em março, deixou claro para o investidor que, até mesmo quando cai lá fora, o mercado cai menos do que aqui. No momento em que a bolsa local perdia 30% em dólar, o mercado global perdia 13%, por exemplo.
“Ganhamos este ano mais três Entidades Fechadas de Previdência Complementar para fazer mandatos internacionais sob medida, além de seis outros processos abertos e mais três fundações que começaram essa discussão nas últimas semanas”, conta Celano. A casa saiu de zero fundos exclusivos para esse resultado, baseado em investimentos internacionais. Até o final de junho eram R$ 2,97 bilhões sob gestão em fundos exclusivos. “A Covid tangibilizou para as fundações a importância de usar o limite de 10% de seus ativos em alocações globais”, aponta o executivo. Para aquelas que têm patrimônio igual ou acima de R$ 100 milhões, a demanda inclui principalmente negociar mandatos sob medida, com novas soluções de investimentos.
Foi preciso aliar seu time de investimentos brasileiro ao time internacional de investment solution de forma coordenada com a mesa de renda fixa. “Estamos agora fazendo as primeiras revisões de performance para avaliar o comportamento dos portfólios no semestre, o que indica que esse trabalho integrado já está entrando numa rotina”, diz Celano. A carteira de global equities da Schroders, seu carro-chefe nessa classe, já passou os R$ 500 milhões de patrimônio. “Os portfólios, de modo geral, conseguiram defender bem a queda, a baixa mais forte ocorreu no fundo de crédito lá fora mas a recuperação também foi acima do esperado, abrindo novas oportunidades para explorar nos fundos exclusivos”, avalia o executivo. Até o final de 2021 a gestora pretende ampliar sua prateleira internacional para ter cerca de dez produtos, do quais seis serão no modelo sob medida.

A corrida para o risco foi acelerada durante a pandemia, principal diferença entre a crise atual e as anteriores, reforça o responsável pela plataforma internacional da ARX, Guilherme Caldas. “As turbulências teriam gerado, em outras ocasiões, uma fuga de capitais para ativos de menor risco mas desta vez não foi assim. Com juros muito baixos, os investidores pessoas físicas registraram recorde sobre recorde na bolsa”, observa Caldas. Na ARX, que encerrou o semestre com volume de R$ 24,36 bilhões sob gestão, uma baixa de 9,81% no semestre mas crescimento de 33,96 % nos doze meses, o fluxo positivo nos fundos de ações seguiu afetado apenas por movimentos pontuais de saídas, que foram irrelevantes porque “o que saiu, voltou quase imediatamente”, afirma o executivo. Ele lembra que “ainda estamos vivendo um período de incertezas nos mercados e não sabemos qual será o impacto disso sobre os preços dos ativos”.
Até mesmo os fundos multimercados foram bastante impactados e caminham para um novo modelo, de maior volatilidade e maior risco. Essa é uma tendência que deve ser mantida, assim como a entrada relevante de recursos nos fundos de ações, pontua Caldas. “A história do segundo semestre ainda está sendo contada mas ela é um pouco diferente, traz carteiras de ações mais diversificadas e não tão concentradas em ativos de empresas de comércio eletrônico, por exemplo”.
Uma recuperação mais acelerada da China pode fazer com que as commodities e os alimentos sejam o destaque do mercado, assim como empresas que possam se beneficiar do movimento das moedas. “Ainda mantemos posições relevantes em varejo e comércio eletrônico mas os ganhos agora poderão vir também de outros setores”, conta o diretor da ARX. O primeiro semestre trouxe aumento do número de clientes e abertura de novos produtos-espelho na área de previdência, ligados a estratégias já existentes de ações. A casa tem aproximadamente R$ 1 bilhão sob gestão em fundos de previdência sendo que, desses, R$ 250 milhões estão em fundos de previdência com ações.

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