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O charme dos fundos offshore
Percepção dos investidores de que o mercado internacional se recupera da crise da pandemia antes que o local influenciou na alta dos off-shores

Edição 340

O desempenho dos fundos off shore, que já representam R$ 208,09 bilhões ou 3,63% do segmento de assets no Brasil, mostra que os investimentos globais caíram no gosto do brasileiros. O volume sob gestão no final de junho expressa um crescimento de 15,95% em seis meses e de 50,05% em doze meses, sendo um dos destaques entre as classes de investimentos pesquisadas por Investidor Institucional.
“Nos 12 meses até junho estávamos muito bem posicionados e tudo deu certo nas estratégias de América Latina”, avalia Nathan Shor, responsável pela área de fundos internacionais da gestora Quasar. Olhando para o ambiente de fundos globais, a exposição à China está sofrendo no último mês, mas o retorno dolarizado continua positivo. A casa mantém dois fundos, um que investe em bonds Latam em dólar com hedge local, só em títulos semi-soberanos e nas maiores companhias privadas; e um feeder em Luxemburgo que não tem hedge e é global.
A expectativa é de correção maior no fundo global. “A China está fazendo uma correção importante agora e aproveitamos para readequar o portfolio para ganhar quando a situação se estabilizar”, explica. No fundo local, a gestora acaba de aumentar sua posição em debêntures participativas da Vale, que representa 18% do fundo. “É interessante ter essa exposição paga em dólares e yeld de 8% sendo que os bonds da Vale de 2042 pagam menos da metade”, observa Shor. As debêntures participativas da Vale pagam rendimentos semestrais baseados na receita em dólar da mineradora.
Mas o papel favorito em Latam bonds é o da Cosan, diz o gestor, um título perpetual que pode ser chamado a qualquer trimestre mas até agora, desde 2015, não fez sequer uma chamada. “Ele não sobe muito de preço e tem baixíssima volatilidade, com um carrego de 8% em dólares. O risco Cosan é muito pequeno por causa dessa chamada trimestral. O fundo concentra suas posições em México, Brasil e Colômbia além de mercados que são alocados de maneira pontual, como Jamaica, Costa Rica e outros. “À exceção das debêntures da Vale, a exposição a risco de commodities na carteira Latam é baixa e a maior parte está alocada em risco privado porque o risco da maioria dos países não compensa agora”, conta.
Dos nomes brasileiros, há também o Banco do Brasil, mas aí o risco é considerado semi-soberano e a posição é mais relevante. Na carteira global, a gestora gosta de real estate, mas esses ativos sofreram agora por conta da Evergrande, que aliás não estava no portfolio da Quasar, avisa Shor. “Não compramos porque estava muito alavancada”, diz.

Outra asset que mantém a totalidade dos recursos alocados em ativos no exterior é a Pimco, que no final de junho tinha R$ 3,92 bilhões em estratégias globais de renda fixa, explica o vice-presidente executivo no Brasil, Luis Oliveira. Foi um crescimento relevante em relação aos R$ 2,99 bilhões sob gestão em junho de 2020. “ Já estávamos vendo um interesse crescente de investidores locais antes da pandemia de Covid-19, devido a uma combinação de fatores: taxas de juros mais baixas no Brasil, falta de capacidade dos gestores locais de multimercados, alta correlação entre gestores locais, clientes adicionando riscos às suas carteiras e percebendo que precisavam de diversificação, etc”, conta.
A partir da crise da pandemia, esse interesse só tem crescido. Além dos fatores já mencionados, diz Oliveira, eles perceberam que a recuperação dos mercados globais pode ter acontecido primeiro e mais rapidamente do que a dos mercados locais. Do lado institucional, ele diz que o comportamento não foi diferente.
Foi possível captar nas três estratégias diferentes de renda fixa que a asset tem no Brasil. “Desde o início da pandemia, nosso cliente evoluiu de uma base de investidores predominantemente pessoas físicas (afluentes e private banks) para uma base de clientes mais equilibrada, na qual os investidores institucionais representam uma boa parte de nosso negócio. E continuamos vendo demanda de fundos de pensão”, informa Oliveira.

Especializada em créditos estressados (distressed) mas também em estratégias de créditos estruturados, a Jive navegou em ritmo de expansão no mercado de crédito privado e com baixissima inadimplência durante a pandemia, informa o sócio Guilherme Ferreira. “Os créditos estressados são ativos não adimplidos, em atraso e não quitados vendidos pelos bancos, um pedaço importante da nossa carteira. No estruturado, são novas operações no mercado primário voltadas para empresas sem acesso aos mercados porém com boas estruturas, uma alternativa que elas encontram ao crédito bancário tradicional”, detalha Ferreira.
Há também as operações que envolvem ações judiciais, com arbitragem para que seja feito o pagamento devido. Fora isso, o lastro dos FIDCs inclui cotas de consórcios, com a devolução de valores já pagos, e outros créditos “mais exóticos”, como os recebíveis de direitos autorais, de energia e outros. “Tudo o que sobrou acaba entrando nos FIDCs”, conta o gestor.
O objetivo é criar diversificação a partir de um blend dessas estratégias todas para obter retornos superiores, entre 20% e 25% ao ano, porque cada tipo de crédito tem um perfil específico e os fundos alocam de maneira discricionária para atingir essa rentabilidade. Um dos fundos da casa, mais maduro, entregou rentabilidade de 21% depois de todas as taxas, informa Ferreira. Entre as etapas do trabalho está o uso de tecnologia para filtrar os processos judiciais e identificar ativos interessantes, por exemplo, nos créditos bancários.
“Desde a pandemia, tivemos apenas 0,97% de inadimplência, sinal de que os ativos eram de empresas resilientes, o que é gratificante para nós porque o portfolio tem cinco mil empresas”, afirma. Em 2020, a Jive captou R$ 4 bilhões no seu terceiro fundo e já alocou R$ 2 bilhões dessa carteira, mais rápido do que o esperado. Há também a opção de co-investimento em que o fundo faz uma parte da alocação e o investidor que quiser pode fazer aporte adicional. “Já houve R$ 700 milhões de co-investimento desde o final do ano passado nesse fundo”, informa Ferreira.
O fundo de recebíveis da Reag, colocado em pé no primeiro semestre e voltado para o segmento de recebíveis comerciais, está perto de atingir R$ 60 milhões em cotas, informa o sócio da Reag Investimentos, Silvano Gersztel. “É um fundo para o investidor profissional, qualificado e ainda não chegou à s plataformas de distribuição mas essa será a segunda etapa. Agora ele vai abrir captação de cotas senior, ainda em 2021, dedicada ao público em geral”, detalha. A casa tem uma base de originação de recebíveis forte e viu a necessidade de deter parte disso num veículo próprio. “A nossa estrutura de FIDCs não era aberta à captação, então resolvemos lançar esse fundo mas seguimos com os parceiros”.
Ao todo são R$ 11 bilhões em FIDCs de terceiros, informa Gersztel. Ele conta que a originação de ativos recebíveis continua forte, até por ser um instrumento que foi aperfeiçoado pelos normativos e ganhou amplitude no mercado. A Reag cresceu em parte p ela qualidade dos ativos originados e também ganhou fôlego como efeito indireto das instabilidades na política e na economia que acabaram favorecendo essa qualidade. “As cadeias produtivas ligadas à indústria procuram viabilizar a estrutura de crédito junto aos seus parceiros para fugirem da dependência em relação ao crédito bancário”, avalia o gestor.

Entre o segundo semestre de 2020 e o primeiro deste ano, a RBR Asset Management concentrou esforços em manter suas propriedades e as novas aquisições de qualidade. “Todas muito bem localizadas, tanto em terrenos, galpões e prédios de escritórios, onde nos sentimos seguros para fazer investimento em tijolo”, destaca o CEO Ricardo Almendra. No segmento de FoFs, que têm maior liberdade por ser multiestratégia, houve alocação forte de capital em crédito imobiliário, para se beneficiar da inflação e do juro alto já que os CRIs rendem na média inflação mais 8% ou CDI mais 4% “Gostamos muito desse tipo de investimento e aumentamos a nossa posição nesse FoF, saindo de 25% para 50% do portfolio”, diz Almendra. A gestora manteve sua posição em lajes corporativas em bairros nobres da cidade de SP e em galpões logísticos bem localizados.
“O crédito segue muito bem até agora. Acreditamos que a maior parte da aceleração inflacionária já aconteceu mas continuará acima do nível que o governo pretende, principalmente para operações indexadas à Selic”, afirma. A gestora usa rating proprietário A na escala RBR.
Em 12 meses até o final de junho, a estratégia mais segura foi mesmo a do crédito imobiliário e, no caso do tijolo, quase só imóveis bem localizados na cidade de SP. “Isso nos permitiu passar por esse período sem ter inadimplência significativa e sem eventos de crédito este ano”, diz Almendra. A casa captou cerca de R$ 1,7 bilhão no primeiro semestre de 2021, sendo 20% desses recursos destinados a investimentos em tijolo no exterior. São dois mandatos, metade aplicará em REITs e a outra metade será investida em participação direta em 30 predinhos residenciais no Brooklyn e em Manhattan. “São investimentos que rendem 15% ao ano em dólar e já vislumbrávamos o Brasil mais nervoso, o juro em alta, então estamos montando essas carteiras de exterior há dois anos”, explica.
A aposta no mercado americano é tão firme que a RBR já se prepara para abrir escritório em Nova York em 2022 e pretende que dentro de c inco anos um quarto do seu patrimônio sob gestão esteja em investimentos imobiliários internacionais.
“Nesses 12 meses tivemos uma captação relevante em fundos de crédito, fundos indexados ao CDI e ao IPCA, que são os vencedores e representam mais de 30% das captações de todo o mercado, mas captamos bem também em logística. E hoje os segmentos que mais sofreram, como os fundos de shoppings, hotéis, escritórios e varejo, estão de volta”, avalia a sócia e gerente de investimentos imobiliarios da Rio Bravo, Anita Scal. A casa tem R$ 13 bilhões sob gestão, dos quais R$ 11 bilhões estão em fundos de tijolos. Os shoppings estão retomando atividades e há gestores falando em receitas melhores, neste segundo semestre, do que foram em 2019, No segmento de escritórios, sabemos que está havendo número recorde de visitas para ativos bem localizados, nas regiões primárias e bem performadas”, diz Scal.
Na área de logística, que passou a ser uma das novas queridinhas do mercado, houve uma adaptação e a procura é por imóveis muito bem localizados para e-commerce. “Há uma grande volatilidade nas cotas de todos os FIIs, mas não há volatilidade nos seus fundamentos. É um movimento de fluxos provocado pela migração depois da quinta alta da Selic, então é preciso entender qual será o topo do ciclo de alta do juro porque até lá haverá volatilidade nas cotas”, avisa Scal. Enquanto isso, a boa notícia é que os locatários continuam pagando em dia e estão muito próximos dos gestores e do mercado.
A Rio Bravo reciclou o seu fundo corporativo por conta do tamanho que ele atingiu. “Não fazia mais sentido ter um ou dois andares inteiros no mesmo edifício porque não tínhamos autonomia nas assembléias e decidimos vender”, conta. Em julho, a casa fez um IPO do seu FII residencial e a captação terminou em setembro com R$ 100 milhões, além de R$ 25 milhões em nova etapa e espera captar mais R$ 25 milhões até o final do ano, informa Scall. É um fundo voltado para renda, estruturado originalmente para dar 7% de dividend yeld médio mas isso já foi ajustado e na nova emissão de cotas esse retorno deverá subir para 9%. O fundo tem 30% nas mãos de investidores institucionais, informa Scal.
Em época de juro e inflação elevados, o ganho dos FIIs veio principalmente pela indexação dos fundos de papel, com lastro em CRIs, que pagam inflação mais um cupom e assim recompõem o resultado de imediato. Mas também nos fundos de tijolo ganharam já que seus contratos são indexados, mas a recomposição não é imediata, ressalta o sócio fundador e CEO da Hedge Investimentos, André Freitas. Ele lembra que a velocidade de transmissão do CRI é mais rápida, por isso o grande destaque do ano foram os fundos de papel, mas daqui para a frente a inflação tende a recuar e esse mercado deverá se normalizar”, acredita o gestor.
Com R$ 7,5 bilhões de ativos sob gestão, a casa tem R$ 400 milhões desse total sob gestão em fundos de CRIs mas pretende aumentar a presença do papel. “É o que está captando mais desde que a Selic subiu de 2% e passou a projetar 8%, isso trouxe uma grande alta no movimento de fundos de crédito”, pontua Freitas. No momento em que a maior parte dos FIIs de tijolo listados em bolsa são negociados abaixo de seu valor patrimonial, ele lembra que não seria justo fazer emissões. “Seria uma prática incorreta com os investidores que não puderem acompanhar a oferta e teriam seu patrimônio diluído. Preferimos nos concentrar em produtos de desenvolvimento, que olham para a TIR (Taxa Interna de Retorno) e não para os dividendos”, explica Freitas. A casa tem R$ 350 milhões sob gestão em FIIs de desenvolvimento.

Com características muito peculiares e que a diferenciam no mercado de FIPS, a classe dos fundos florestais seguiu melhor da pandemia do que muitos de seus pares no mercado. Com retornos mais moderados e volatilidade menor, esses fundos seguem no ritmo do crescimento das florestas plantadas e do consumo da madeira no País e no mundo. “Não há tantas variações porque a gestão tem um horizonte de muito longo prazo, entre dez a vinte anos, então não sofremos tanta turbulência como pode ter acontecido em outros tipos de FIPs”, explica o gestor Guilherme Ferreira, da Lacan Investimentos. Sem sofrer impacto das turbulências politicas, esses fundos são afetados indiretamente pelas variações cambiais mas funcionam como proteção contra a inflação já que os contratos são indexados ao IPCA.
O setor teve resposta contrária à do mercado porque saiu beneficiado da crise. “Houve aumento no consumo de vários tipos de madeira, a começar pela produção de papel e celulose, principalmente de eucalipto, destinados à fabricação de papéis com fins sanitários e portanto sem restrições de operação durante a pandemia”. Além disso, cresceu o uso siderúrgico da madeira porque aumentou o consumo de carvão vegetal na fabricação de ferro gusa e houve maior demanda por florestas plantadas em Minas Gerais. O “boom” no mercado de imóveis, com a procura por espaços maiores para moradia e home office e as reformas residenciais para acomodar melhor as pessoas, acabou gerando maior demanda por painéis de MDF e compensado tanto no mercado local quanto nos EUA e outros países, explica o gestor. Também cresceu o consumo de celulose de fibra longa e de fibra curta, entre outros produtos derivados da madeira.
Durante os 12 meses, a Lacan seguiu expandindo suas florestas nos estados do MT e no sul do Brasil, agora chegando também ao MS. “Estamos em fase final de captação do nosso terceiro fundo e expandindo”, avisa o gestor. Até setembro já haviam sido levantados 90% do fundo, cujo total é de R$ 500 milhões e cuja captação deverá ser encerrada no final do ano. A casa tem trinta fundos de pensão como cotistas dos seus fundos florestais e a demanda desses investidores continua aquecida.
O terceiro fundo oferece rendimento de IPCA mais 8% e tem prazo um pouco mais curto do que os dois anteriores, largando com dez anos mas com prazo máximo de 17 anos. “Os dois outros fundos da casa têm rentabilidade que já está acima dessa, pagando retorno médio de IPCA mais 9,5% e IPCA mais 10% e seu prazo máximo é de 20 anos”, conta o head comercial e de relações com investidores, Guilherme Monteiro.

Segmentação por Veículo de Investimento (em pdf)