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Queda dos juros foi lenta
O ritmo lento da queda dos juros no Brasil e no mundo, principalmente nos Estados Unidos, tem trazido dificuldades para as gestoras de recursos

Edição 365

Pacheco,Marcelo(BBDTVM) 22julO comportamento errático do banco central dos EUA (Fed) e seus reflexos sobre os preços dos ativos no mundo inteiro, tornaram o ano de 2023 difícil para as gestoras de recursos, afetadas adicionalmente, no Brasil, pelos eventos do mercado de crédito. No ambiente incerto, a renda fixa ativa manteve a liderança em captação junto aos institucionais, com a exploração de oportunidades nas parcelas de alocação em títulos públicos e em ativos de alta qualidade a preços deprimidos no crédito privado.
Ao mesmo tempo em que as classes de ativos com maior risco perderam espaço, a indústria viu crescerem as grades de produtos com ativos de infraestrutura, novas parcerias em private equity e apetite pelo crédito ESG, que tendem a seguir em alta este ano.
“O ano passado foi de grande desafio para os gestores porque, além do comportamento do Fed e dos eventos de crédito no mercado local, tivemos também o caso de quebra dos bancos nos EUA. Aqui, porém, aproveitamos as oportunidades e mais do que compensamos as perdas na marcação a mercado e o segundo semestre foi muito bom”, diz Marcelo Pacheco, CIO (diretor de investimentos) da BB Asset. A equipe de gestão antecipou o início do ciclo de queda do juro local, o que contribuiu para os resultados.
Nos mercados de risco, depois de um outubro ruim veio a valorização das bolsas globais nos dois últimos meses do ano, com forte alta também na bolsa brasileira. “Ficou claro para nós, já em outubro, que aquela piora não era sustentável e que o mercado voltaria, como de fato voltou em novembro e dezembro”, afirma.
Somando os acertos na renda fixa e no risco, faltou pouco para a gestão “tirar nota dez”, diz Pacheco. “Teria sido melhor se pudéssemos ter evitado o que aconteceu em outubro na bolsa, mas havíamos projetado uma performance melhor de algumas empresas de small caps que iriam performar melhor do que o mercado como um todo, então erramos no timing porque isso deve acontecer este ano”, avalia.
Em relação à renda variável, ele lembra que o dinheiro dos institucionais pode até vir a mercado em 2024, mas não será isso que fará o mercado andar porque o investidor pessoa física ficou “mal acostumado” com os ativos isentos de impostos. O investidor estrangeiro, por sua vez, ainda depende muito do juro nos EUA e quando essas taxas começarem a baixar serão o gatilho para impulsionar os ativos de risco nos mercados emergentes.
Por enquanto, a renda fixa ativa e o crédito privado seguem “na crista da onda”, aponta Pacheco. “A bolsa continua desafiadora e precisamos esperar o sinal dos EUA para ter um fluxo que sustente uma alta mais consistente, tanto é que o mercado está “de lado” desde o final do ano passado. Há, contudo, uma expectativa positiva em relação aos produtos de investimento com temática ESG, que seguem princípios de responsabilidade ambiental, social e de governança. “Lançamos um produto com a gestora JGP e os primeiros sinais de captação são promissores”, diz.
Há também sinais positivos nos mercados de FIDC (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e de FII (Fundos de Investimento Imobiliários). A asset está no meio da janela de captação de um FII em parceria com o grupo Iguatemi, que opera shoppings de marca premium. “Até agora só tínhamos um FoF listado nessa classe,então esse será o primeiro fundo voltado a investimentos imobiliários “de tijolo”, uma área que estamos inaugurando na asset, com a consultoria do Iguatemi”, lembra Pacheco.

Customização mais flexível - A característica multi estratégia e multi portfólio, a relação de longa data com os investidores institucionais e a rede de parcerias contribuíram para a expansão do patrimônio sob gestão da Bradesco Asset Management, observa o CIO Luiz Philipe Biolchini. “Há produtos que manufaturamos em casa e outros que vamos buscar por meio de parcerias, no Brasil e lá fora. Esse é um caminho importante para os clientes em todos os segmentos de público”, afirma.
A captação líquida segue positiva em 2024, assim como foi em 2023, e o patrimônio sob gestão tem crescido junto aos diversos públicos institucionais, impulsionado pela performance em renda fixa e crédito. Houve ganho de novos mandatos e crescimento dos volumes em previdência fechada, aberta e RPPS, três segmentos relevantes para a casa. No caso da previdência aberta, a Bradesco Vida e Previdência ajudou a fortalecer a participação da asset.
Havia expectativa favorável para a performance dos ativos de risco este ano, diz Biolchini, mas os ciclos de queda de juro foram revertidos e os bancos centrais estão mais lentos para fazer os cortes, o que reduz a atratividade do risco. “Seguimos avançando em crédito estruturado como um todo e temos tido captação expressiva em fundos de debêntures incentivadas de infraestrutura e em fundos de crédito high yield”, conta.
No pipeline está o lançamento de um produto de private equity no exterior, com parceiros, e mais operações em fundos de investimento imobiliário.
Na área de soluções de investimentos, que mantém um time dedicado a buscar oportunidades e fazer curadoria de fundos líquidos no mercado local, há também uma segunda vertente voltada a fazer a mesma coisa nos EUA e na Europa. A terceira vertical é uma equipe dedicada aos mercados privados, que faz originação ou seleção de ativos para private equity, venture capital, infraestrutura, energia, florestas e, mais recente, para o mercado de moedas digitais.
“A perspectiva para esses mercados é positiva, sobretudo quando o juro real no Brasil recuar para baixo de 6% ao ano, então estamos nos preparando porque essa vertical será cada vez mais importante”, afirma o head da área de Soluções de Investimentos, Adilson Ferrarezi.
Com R$ 70 bilhões sob gestão, dos quais R$ 12 bilhões são de fundos de pensão, distribuídos em 25 mandatos, a área de soluções reúne hoje, nas três vertentes, 200 gestores investidos. No rol de serviços, há uma curadoria que inclui um catálogo de soluções para fundos exclusivos de investidores institucionais. “Há outros públicos também, mas os exclusivos de institucionais têm características peculiares, o que demanda um time dedicado só para eles, com seis profissionais”, informa.
Ao todo, há 35 pessoas na área de soluções, 15 deles para encontrar, monitorar e originar operações nas três vertentes. Há ainda um bloco composto por 12 pessoas, entre os que cuidam do segmento private e os de fundos de pensão. E um terceiro grupo faz análise e seleção.
“No time que atende os fundos de pensão, os profissionais vieram do universo de Entidades Fechadas de Previdência Complementar – duas de consultoria e quatro de alocadores EFPC”, diz Ferrarezi. “Atuamos muito próximos desses clientes e houve uma grande evolução em transparência. A tomada de decisões de investimento emula modelos do mercado internacional e usamos a estrutura de manufatura de produtos da própria asset, seja para consumo de inteligência, seja para ter acesso a novas fontes de retorno”, explica.

Crédito ESG em alta - Renda fixa ativa e crédito privado, as duas categorias de investimento que mais fluxo registraram na indústria em 2023, foram também as que reforçaram a captação positiva e a performance na Sul América Vida, Previdência e Investimentos. “E não tínhamos nada de Americanas, Light, Unigel ou qualquer das outras empresas que viveram eventos de crédito”, afirma Marcelo Mello, CEO da asset. “Isso nos ajudou a crescer nos segmentos de EFPC, previdência aberta e na plataforma. Em 2024, estamos até agora com R$ 70 bilhões contra R$ 65 bilhões sob gestão no início deste ano”, informa.
A temática se mantém, devido ao cenário, com muito pouco fluxo para renda variável e para fundos multimercados. Na renda fixa ativa para institucionais há muitos mandatos exclusivos e também abertos que buscam 120% do CDI. No crédito premium, são mais de R$ 6 bilhões em fundos abertos.
A grade inclui o crédito ESG, que tem tido crescimento importante, afirma Mello. “Hoje o crescimento em crédito ESG é expressivo e todas as emissões levam em conta o escore em cada uma das três letras, que é comparado ao escore do setor”, explica. O fundo ESG tem carência em D+45, retorno adicionado maior em relação ao CDI e tudo a ver com os passivos atuariais das fundações. “Os fundos de pensão estão cada vez mais maduros em relação a esse tema e buscam se aprofundar nele conosco e com as consultorias de investimentos ESG, que também ajudam”, acredita.
Ao todo são R$ 22 bilhões em fundos de crédito, entre exclusivos e abertos. As EFPCs mantiveram o fluxo de recursos em fundos abertos de crédito. “Não vejo razão para mudarem porque a regulação reduziu a oferta de incentivados mas, ao mesmo tempo, criou o benefício fiscal para os emissores de LCAs, CRIs e CRAs, o que acaba tornando esses ativos mais atraentes para as fundações e, embora ainda deva ser regulamentado, já notamos maior interesse”, avalia.
Além disso, ele lembra que no início do ano prevalecia a visão desinflacionária, com o juro do Fed em perspectiva de queda e a Selic terminal projetando 9% este ano, mas de lá para cá tudo mudou e os bancos centrais tiraram um pouco o pé do acelerador em relação à queda do juro. Nos EUA, a previsão de seis cortes de taxas este ano mudou para apenas três cortes. Aqui, a Selic de 9% já foi para 9,75%, então ainda acreditamos que o ano irá favorecer novamente a renda fixa e o crédito”, diz Mello. A estimativa da asset para a Selic terminal saiu de 9% no início do ano para 9,5% agora, com viés altista.

Atuação em todas as frentes - O ano de 2023, que trouxe captação líquida negativa para indústria de gestão de recursos, foi encerrado pela BTG Pactual Asset Management com um volume de R$ 80,4 bilhões em dinheiro novo, afirma o sócio da asset, Sérgio Cutolo.
Com uma aposta forte nas classes de fundos estruturados – FIPs, FIDCs e FIIs –, que têm crescido bem, a gestora mantém,contudo, seu histórico de atuar em todas as frentes, até porque tem uma equipe grande e que atua em conjunto há muito tempo, diz Cutolo.
Com o atual patamar de juros no Brasil e a alta volatilidade, ele reconhece que sair da renda fixa tradicional não é tão simples. “O juro real elevado faz todos correrem para os títulos públicos, mas é impossível que ele se mantenha no atual patamar e, quando baixar, ficará mais difícil para quem não se posicionou antes, então já vemos demanda dos investidores e estamos posicionados para isso”, afirma.
Na renda variável, em que a asset tem posição de liderança, ele lembra que é inviável pensar apenas no curtíssimo prazo. Entre os destaques de rentabilidade, ele cita o fundo de ações mais recente da casa, um fundo de investimentos em ações de oportunidades listadas, com pouquíssimos ativos – de quatro a cinco – para o investidor qualificado.

FIPs e infra no radar - Do total global de R$ 200 bilhões em ativos sob gestão no Pátria Investimentos, grupo especializado em ativos alternativos na América Latina, R$ 35 bilhões já são de clientes brasileiros, o que reflete a expansão dessa participação uma vez que em 2021 havia R$ 170 bilhões sob gestão e apenas R$ 5 bilhões de investidores locais, informa José Augusto Teixeira, sócio e head da área de produtos e marketing.
“Dobrou a participação de brasileiros desde 2021 e a casa expandiu sua operação no País, que sempre foi protagonista como destino dos capitais investidos em mercados da América Latina”, diz.
O resultado reflete o aumento do time dedicado a atender clientes brasileiros e a ofertar FIPs (Fundos de Investimento em Participações) de maneira mais abrangente. De duas pessoas em 2021, a equipe passou a 20 pessoas.
A área de private equity (PE), que captava 100% no exterior em 2014, reduziu esse percentual para 95% em 2018 e hoje passou a captar entre 15% a 20% no Brasil. A casa continua a ofertar PE e FIPs de infraestrutura, que são os mais tradicionais,mas começou a oferecer outros fundos, como os da área imobiliária, em parceria com o BBI.
Hoje a área de FII cresceu e a gestora passou a oferecer também fundos de crédito. “Há séries completas de FIP, de FII, de fundos de crédito e fundos de equities, numa plataforma que capta R$ 5 bilhões anuais aqui, dos quais R$ 1,5 bilhão vieram de FIPs em PE e infraestrutura”, diz Teixeira.
Na atual safra de captação de FIPs, grande parte dos recursos veio dos institucionais, notadamente de RPPS, com mais de R$ 1 bilhão. A regulamentação e o escrutínio dos reguladores tem sido importante e saudável para impulsionar esse mercado. “Ela limita os gestores que podem ser investidos por RPPS e os que passam por esse filtro são qualificados”, observa. Em 2023, a captação mais expressiva de PE ocorreu no primeiro semestre, enquanto o segundo semestre teve a infraestrutura como destaque, e os RPPS entraram em ambas.
Este ano, começou bem o fundo de crédito para infraestrutura, um fundo de dívida de project finance, para financiar pequenos e médios projetos de infraestrutura e que tem parcerias com o BNDES, Fapes, CAF (banco de desenvolvimento da América Latina) e a IFC (braço de investimento privado do Banco Mundial). Alinhado com os objetivos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o fundo já captou mais de R$ 1,5 bilhão.
Há também forte interesse dos RPPS pelos FIPs de PE e de infra, enquanto os grandes fundos de pensão estão voltando a esse mercado, acredita Teixeira. “Temos perto de R$ 1 bilhão em FIPs vindo só dos institucionais”, afirma
Em private equity, historicamente sempre houve captação maior de recursos lá fora, mas no fundo VII, um FIP de PE que está captando, parte do dinheiro vem de investidores locais, lembra Fernanda Garrelhas, sócia e gestora de PE. O fundo é voltado a investimentos em agro, saúde e alimentos e deve encerrar captação este ano, depois de um esforço para atrair recursos aqui e também no exterior. “Um dos grandes temas hoje é a infraestrutura, assim como os FIIs listados para renda e desenvolvimento, que atraem o interesse de EFPCs e RPPS”, diz.

Ranking - Data base 31/12/2023 (arquivo em pdf)

Raio X - Data base 31/12/2023 (arquivo em pdf)

Perfil de controle | por EFPCs | por RPPS | por Crédito Privado | por FIPs | por Fundos Exclusivos (arquivo em pdf)

Empresas no Ranking (arquivo em pdf)