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Somos mais ágeis nas decisões
Com investimentos que somam R$ 13 bilhões na área de infra, Perfin aposta em decisões rápidas para competir com estruturas de casas maiores

Edição 364

O lançamento no final do ano passado do programa de investimentos do governo federal em várias áreas estratégicas, incluindo transportes, transição energética e infraestrutura urbana, tem movimentado os planos das gestoras de recursos que atuam nesses segmentos. Principalmente porque o BNDES, que no governo anterior tinha se retirado completamente do financiamento desses projetos, anunciou estar de volta à cena. Além disso, no início deste ano o governo publicou a nova lei de incentivos fiscais às debêntures de infraestrutura, mudando as perspectivas de retorno desses títulos e tornando-os mais interessantes aos investidores institucionais. Conversamos sobre o setor de infraestrutura com a sócia e diretora de operações da Perfin Investimentos, Carolina Rocha, para ver como essa casa está se posicionando no novo cenário. Com R$ 32 bilhões sob gestão, dos quais R$ 13 bilhões na área de infraestrutura, Rocha diz que a gestora está preparada para disputar esse mercado. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Investidor Institucional - Como você está vendo a retomada dos investimentos em infraestrutura pelo governo brasileiro, através do Novo PAC?
Carolina Rocha – Fico feliz que o governo atual tenha dado importância à continuidade desse trabalho de investimentos em infraestrutura. Acho que, por conta da evolução que houve, esse governo aprendeu com o passado que não consegue fazer tudo e que a iniciativa privada tem que estar junto, mas também que é importante contar com a presença do BNDES, num modelo que a gente ainda está vendo de uma forma saudável.

Não foi saudável no passado?
Teve um momento, em governos anteriores, que era um BNDES muito ativo e não sustentável, com taxas sendo dadas em níveis que não faziam sentido, tendo que buscar recursos que eles não tinham para emprestar a taxas subsidiadas. E depois, no governo passado, talvez tenha havido um aperto muito grande dessa presença do BNDES no setor, as taxas subiram demais, mas era uma coisa importante que tinha que ser feita.

E agora, como você está vendo?
Acho que a iniciativa privada tem potencial para crescer e tudo mais, mas acaba sendo, vamos dizer assim, mais reativa a fatores exógenos. Então, com a agenda de um banco de fomento como o BNDES o fluxo de investimentos acaba sendo mais perene. Se o cenário fica mais adverso, a reação da iniciativa privada é de cautela, o dinheiro não é infinito, e onde você está buscando capital ele pode estar custando mais caro. Então, ter o BNDES aqui, lado a lado, ajudando a dar um pouco mais de colchão, de serenidade para essa agenda, isso ajuda.

Em que aspectos isso ajuda?
Por exemplo em pensar em project finance de fases. Você vai ao mercado e vão te pedir o molde de garantia e etc, coisas que às vezes começam a tornar mais difícil colocar o projeto de pé, e isso, obviamente, inibe o seu crescimento. Ter o banco olhando para o projeto, entendendo que o próprio projeto é a garantia, é um olhar interessante. Outra discussão talvez que talvez possa ajudar é em relação ao câmbio, porque investimentos em infraestrutura muitas vezes têm componentes que são dolarizados enquanto a receita não é, então talvez se pudesse considerar algo nesse sentido.

Dos setores que o governo colocou como prioritários no Novo PAC, quais interessam à Perfin?
A gente gosta muito do setor de rodovias. Acho que tem muita coisa para ser feita nesse setor. Num Brasil do nosso tamanho, onde a gente não tem uma base ferroviária importante, a gente precisa de um modal rodoviário trabalhando a nosso favor. Só para citar um número, no Brasil o percentual de rodovias pavimentadas é muito baixo, coisa de 12%, então a gente quer se posicionar como um player atuante nesse setor. Na verdade não é a Perfin diretamente, a gente entra nos projetos como acionista da EPR Participações, uma plataforma que está em nossos fundos e que já tem 2,1 mil quilômetros de rodovias.

Qual o espaço para crescer no setor de rodovias?
Tem muito espaço, o próprio governo federal tem falado aí em 12 a 14 ativos que virão a leilão, possivelmente neste ano. E além disso tem as iniciativas estaduais, que ainda não têm um programa muito claro mas a gente sabe que tem muita coisa guardada no pipeline.

E fora das rodovias, o que interessa à gestora?
Outra área que nos interessa é a da transição energética, a parte de renováveis como um todo, na qual a gente já é muito atuante através da plataforma da Comerc. A Comerc é uma empresa que já atuava como comercializadora no mercado de energia há muito tempo, e a mais ou menos três anos a gente adquiriu uma participação nela. Então, juntamos nessa empresa todos os nossos ativos de renováveis, como eólica, solar e geração distribuída e turbinamos a Comerc para olhar preferencialmente essa parte de renováveis. Ela está debaixo dos nossos fundos, na verdade a gente divide o controle dela com a Vibra.

Quanto vocês têm de participação na Comerc?
Hoje temos 35%, mas eram 70% através de fundos como o Mercury, que era uma plataforma de solar, o Arizon, que era nosso fundo eólico, e o Aeris 2, que era o nosso fundo de geração distribuída. Mas a gente vendeu a metade para a Vibra e ficamos com 35% de participação.

Você citou dois setores, rodovias e energia, como atraentes para a gestora. E saneamento, também é um setor importante para vocês?
Sim, também está no nosso foco. Através da Aegea a gente tem participação na empresa Corsan, que é aquela do Rio Grande do Sul, que tem 60% do saneamento do estado, e também ganhamos uma PPP da Sanepar, em onde entraram a Aegea e a Perfin diretamente. Acho que teve um momento, ali no ano passado, onde as coisas deram uma acalmada nesse setor, porque vinham numa toada muito forte nos três anos anteriores a 2023, por causa de mudanças em governos estaduais.

Qual o tamanho da Perfin no setor de infra?
Temos 8 anos de existência e estamos chegando em R$ 13 bilhões sob gestão na área de infra. Estamos em mais de 14 estados do Brasil, temos mais de 2 GB de energias renováveis e 2,1 mil quilômetros em rodovias. Então, acho que a gente já tem também um tamanho que hoje nos coloca numa posição de referência. E porque que isso nos ajuda no final do dia? Porque a gente se associa mais fácil com outras casas, porque a gente tem esse caráter muito associativo. A gente é hub de outras empresas. A gente faz a transmissão com a Alupar, faz o saneamento com a Aegea.

Quanto vocês captaram no ano passado em infraestrutura?
A gente levantou cerca de R$ 500 milhões num fundo de rodovias e mais R$ 150 milhões de saneamento no começo do ano, então ao todo foram R$ 650 milhões no ano. Mas a gente vinha de uns R$ 2 bilhões em 2022, e mais R$ 2,2 bilhões no anterior, então foram perto de R$ 5 bilhões nos últimos 3 anos.

Quais são os planos para esse ano de 2024? O que vocês têm no pipeline?
A gente tem uma necessidade de levantar mais capital, porque com essas operações dos últimos 3 anos a gente já comprometeu tudo o que queria e podia. Então, basicamente, o capital chegou ao fim e a gente está como uma iniciativa de captação pensando em chegar a algo como R$ 2 bilhões. Num primeiro momento o nosso foco é buscar recursos com os investidores locais.

A Perfin está competindo em infraestrutura com gestoras de grande porte. Dá para competir? Vocês pensam em aquisições, consolidações?
A gente sempre soube que esse era um mercado de gestores grandes e também de empresas grandes, então vamos dizer assim, um mercado de conglomerados. Mas o interessante é que, na verdade, a gente consegue navegar onde eles não navegam, porque eles não são rápidos como a gente. Então, para uma companhia que é do setor de infraestrutura, focada em energia, tomar a decisão de entrar em um novo setor, por exemplo rodovias, essa não é uma decisão trivial e ela não vai ser tomada do dia para a noite. O mesmo vale para gestoras maiores, como o Pátria, a Vinci, o próprio BTG, por exemplo. Mas a gente consegue se mover de um lado para o outro com muito mais leveza. Então a gente não se intimida e também não acha que seja a hora de partir para consolidações, sinceramente. Acho que tem espaço aqui para continuar crescendo numa boa assim, trazendo bons retornos.

Dos R$ 13 bilhões sob gestão na área, quanto são de institucionais?
Algo como 5%, ainda não é muito grande mas é um trabalho que a gente tem tentado fazer junto a esse público. Está num estágio meio formiguinha, tentando plantar umas sementes, mas você sabe bem que no passado esses investidores tiveram alguns problemas com essa classe de fundos de infraestrutura, então hoje ainda há algum ceticismo em relação a eles, alguma resistência, em algumas fundações.

Está se referindo aos problemas dos FIPs relacionados à Lava Jato e Greenfield?
Sim, hoje isso pesa um pouco menos, mas a gente ainda vê fundações colocando vedações a esses investimentos em suas políticas de investimento. Mas acho que já aconteceram mudanças de postura importantes, principalmente desde o ano passado, pois a Previc tem apresentado uma visão de descriminalizar o setor e de mostrar que é um setor importante para a carteira de investimentos, é um setor importante na carteira dos fundos de pensão do mundo todo, então acho que já traz uma luz no fim do túnel.

Vocês já notam uma postura mais receptiva por parte das fundações?
Temos um time de 30 pessoas trabalhando em cima de infraestrutura e algumas dessas pessoas estão em conversas com as fundações, e acho que essas conversas estão avançando um pouco mais agora. Enfim, é um processo. Acho que tem um processo, vamos dizer, de destraumatizar as entidades com relação à investimentos em infraestrutura, demonstrar que muita coisa mudou nesse setor.

O que mudou?
Naquela época não tinha tanto player fazendo infraestrutura, eram praticamente as construtoras com uns FIPs malucos que infelizmente acabaram gerando aquele ruído todo. Mas aos poucos a gente está tentando trabalhar para superar isso, junto com outros players que também estão ajudando a mostrar que o setor se profissionalizou. Então, isso tira um pouco o peso daqueles erros do passado, as entidades começam a relaxar um pouco para voltar a fazer esses investimentos.

Embora tenham um apelo grande para as pessoas físicas, por causa da isenção tributária, os fundos de infra têm menos apelo ao institucional, que já é isento. Como contornar isso?
Primeiro que a gente está esperando os detalhes das novas regras, criadas neste início de ano, para as debêntures de infraestrutura. Elas vão dar benefícios fiscais diretamente aos emissores ao invés de dar benefícios aos tomadores, e com isso esses emissores poderão elevar as taxas de forma a torná-las mais atrativas aos institucionais, mas isso ainda não saiu. Estamos aguardando. Mas além disso tem um ponto bacana nesse tipo de investimento que é a questão da resiliência que esse setor traz. Por serem contratos muito longos, que são sempre reajustados pela inflação na receita, então você tem aqui um negócio que é protegido da inflação para casar com as metas atuariais das fundações, que também são baseadas na inflação, além de um prêmio interessante.

E tem riscos compatíveis?
A gente está num negócio de pouco risco, com oportunidades latentes muito grandes, permitindo achar retornos interessantes e bem acima das metas atuariais das entidades. Então, se o negócio não sai exatamente como se previa, embora ele seja muito previsível, ainda assim sobra um espaço muito grande com relação às metas. E, de novo, a base da receita do faturamento já é baseado no IPCA. Os PPAs de rodovias, por exemplo, eles são contratos de 15 a 20 anos com essas contrapartes reajustados por esses índices. O mesmo na transmissão de energia, onde a receita reajustada pela inflação é contra diversas contrapartes organizadas pela ONS e pela própria ANEEL, então não tem inadimplência.

E a questão da liquidez?
Obviamente tem essa questão da liquidez, mas a depender do plano você consegue trabalhar isso muito bem. E, historicamente, a gente tem entregue um resultado de capital reciclado para o investidor em muito pouco tempo. Então, apesar dos fundos serem longos, de 10, 12 anos de prazo, a gente tem um incentivo e mandato para fazer isso em menos tempo.

Um ponto importante do setor, principalmente quando se fala em energia limpa, é a questão da sustentabilidade. A discussão sobre exploração de petróleo na foz do Amazonas pode manchar a imagem do País como País de energias sustentáveis?
Olha, até pode, mas sendo muito direta eu acho que existe uma histeria no mundo com relação a tudo que acontece no Brasil nesse aspecto. Europa, Estados Unidos e China, que são grandes emissores de CO2 do mundo, acabaram com as suas florestas e agora vem dizer prá gente não desmatar a Amazônia. Sou super a favor de não desmatar, mas a gente tem que botar as coisas em perspectiva, né? A gente está vivendo o fóssil fuel, que não vai sumir do dia para a noite, então tem um risco de entrega de energia também. De fato, a gente tem o pulmão do mundo, mas tem também o outro lado da moeda e a gente tem que saber vender isso bem.

Para finalizar, queria que situasse a Perfin além dos investimentos em infra, quais são os outros setores em que a Perfim atua?
Além dos R$ 13 bilhões em infra, como eu já falei, nós temos cerca de R$ 19 bilhões em wealth management e pouco mais de R$ 1 bilhão em fundos de ações. Então, o total sob gestão está em cerca de R$ 32 bilhões atualmente.