Persevera defende que BC zere, temporariamente, a taxa Selic

Gilherme AbbudEm carta aos investidores a gestora Persevera, comandada por Guilherme Abbud, defendeu que o Banco Central (BC) zere temporariamente a Selic como forma de criar estímulos à economia. “Certamente baixar juros não vai impedir a contração abrupta da atividade, muito menos ajudar no combate direto à pandemia”, escrevem os gestores. “Trata-se, porém de uma atitude necessária ainda que não suficiente para dar algum fôlego à economia”, diz a carta da gestora.

Na carta, os especialistas da asset reconhecem que a queda dos juros não é suficiente para sustentar a economia durante a crise do coronavirus, mas é “o ponto de partida indispensável, sobre o qual vêm todas as outras atitudes financeiras”. Os gestores da Persevera defendem também a utilização vigorosa das reservas cambiais – “não faz sentido não utilizar o seguro no meio da calamidade” – e uma atuação de “forma rápida e resoluta, única maneira eficiente em tempos de crise de confiança e empoçamento de liquidez”.

Na carta, os especialistas avaliam ainda que a autoridade monetária deve sinalizar aos agentes do mercado a total ausência de pressões inflacionárias, o que levará à manutenção da taxa de juros em patamares baixos por um longo período, de forma a reduzir a inclinação da curva de longo prazo.

“Acreditamos que o Banco Central já está no caminho de ter essa percepção e, quanto antes utilizar seu arsenal para cumprir a enorme responsabilidade que lhe recai sobre os ombros, mais contribuirá para evitar que a pandemia do coronavírus jogue o país em uma rota de estagnação crônica”, defende a Persevera. “Não há tempo a perder e não há munição a preservar. É hora de o Banco Central liderar o movimento, trazendo a taxa Selic temporariamente para zero, permitindo uma taxa nominal longa ao redor de 3% e, aí sim, uma taxa real de juros de longo prazo próxima a zero. Como no caso de Ben Bernanke em 2008 e Mario Draghi em 2012, é preciso “Coragem de Agir””.

André Esteves e Rogério Xavier cobram novas medidas do governo

andre estevesA SPX Capital prevê uma queda de 5% do PIB brasileiro em 2020 como reflexo da pandemia do coronavírus. Diante do quadro assustador que se desenha à frente, o sócio da SPX, Rogério Xavier e o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, cobraram novas medidas do governo para tentar minimizar os impactos da paralisação na economia.

“O mundo está sofrendo um baque sem precedentes. No mês que vem faço 35 anos de mercado, e nunca vi nada parecido”, disse Xavier, durante uma live no YouTube promovida pelo BTG Pactual digital na quarta-feira (25). “Não por outro motivo temos visto os bancos centrais e governos através do Tesouro tomando medidas que não foram adotadas nem na crise de 2008”, afirmou o gestor. Xavier disse ainda que, apesar do Banco Central do Brasil (BCB) já ter anunciado algumas medidas, elas ainda são insuficientes e é preciso mais. “O Brasil ainda está alguns passos atrás em relação ao que o mundo está fazendo”, disse o gestor. “Por mais que tenham sido anunciadas medidas, elas me parecem ainda muito modestas pelo tamanho da crise que a gente vai passar pela frente”.

Esteves, que também participou da live, fez coro ao alerta feito por Xavier quanto à necessidade de novos estímulos, mas ressaltando a importância de essas medidas não causarem impacto fiscal para as contas públicas. “Temos um BC muito qualificado no Brasil, muito técnico, mas acho que a autoridade monetária ainda tem sido muito tímida em sua atuação”, afirmou Esteves. Segundo o fundador do BTG Pactual, o principal problema no cenário atual não é uma eventual falta de liquidez para o sistema financeiro, mas sim para que essa liquidez flua para a economia real, uma vez que os canais de transmissão estão interrompidos neste momento. “Infelizmente tivemos o sinistro, e é hora de usar o seguro”.

Tanto Esteves quanto Xavier também refutaram novas reduções da taxa Selic como solução para tentar resolver o problema. “Caso a taxa de juros seja reduzida novamente, haverá um aumento nos prêmios da curva de juros nos vértices mais dilatados, o que ocasionará em aumento nos spreads e encarecimento do crédito, fazendo com que o afrouxamento monetário acabe gerando um efeito contracionista na economia”, explicou Esteves, que disse ainda que o BC pode adotar medidas que destravem o crédito para o tomador final sem que seja necessário fazer subsídios ao sistema financeiro, que é saudável e não precisa de ajuda para fazer isso, segundo avaliação do próprio banqueiro. “Não é nem uma questão de originalidade, basta copiar medidas que têm sido adotadas nos Estados Unidos, na Europa ou mesmo em outros países da América Latina como o Chile”. O fundador do BTG Pactual também defendeu um aumento da intervenção do BC no câmbio, com um incremento nas vendas das reservas internacionais para conter a escalada do dólar.

Os dois experientes profissionais do mercado também demonstraram preocupação com as trocas previstas no comando da Câmara dos Deputados e do Senado a partir de 2021. “Apesar de saber que o Rodrigo Maia não é uma unanimidade, ele consegue ter uma organização da Câmara e acho que se trata de uma figura importante para o Brasil nesse momento, e não vamos poder contar com ele no ano que vem”, disse Xavier. “Se não tivermos uma união do governo em todos os níveis, federal, estadual, municipal, e na sociedade brasileira, a gente vai ter problema”, afirmou o gestor da SPX, que disse que o momento não é de procurar potenciais pechinchas no mercado, dada o nível de incerteza que ainda impera. Para ele, a prioridade agora deve ser tentar preservar o capital dos investidores.

“Como sociedade, temos que cobrar dos que elegemos uma atuação com bom senso e racionalidade, e em uma situação de extrema dificuldade e desafios, que atuem acima de tudo pelo bem da população e não por interesses próprios de uma futura eleição”, encerrou Esteves.

 

Mauá faz alterações no portfólio de ações como reflexo dos impactos do coronavírus

A gestora Mauá Capital promoveu algumas trocas de posições em seu fundo de ações diante das incertezas sobre o impacto da pandemia do coronavírus na economia. “Optamos por desafazer de posições em empresas que considerávamos bons investimentos, porém inseridas em setores que julgávamos ter maior dificuldade ou clareza quanto aos impactos do curto e médio prazo, e, portanto, sem uma boa relação de risco-retorno, como Gol, Via Varejo e Usiminas”, escreveram os gestores da asset, em carta aos investidores.

Ao mesmo tempo em que realizou os desinvestimentos, a gestora buscou reinvestir em empresas que julga ter um balanço sólido e resiliente, e portanto menos suscetíveis ao fluxo negativo de notícias do curto prazo. Entraram no radar da Mauá empresas com baixo grau de endividamento e/ou empresas que tivessem uma posição de caixa privilegiada. Depois de um longo tempo fora, a Vale voltou a entrar na carteira da asset. Apesar dos problemas ambientais e de sustentabilidade questionados pelos investidores estrangeiros, a companhia apresentou quedas significativas e já está negociando com múltiplo EV/EBITDA abaixo de 3,8x, apontam os profissionais da gestora. "Além disso, é uma companhia com grande exposição ao dólar e os dados mostram que o impacto do Covid-19 na China está diminuindo e a atividade econômica voltando aos poucos, portanto a demanda por minério de ferro deve retornar em breve". Na carta, os gestores dizem ainda que buscaram preservar as empresas que passaram por um processo de capitalização recente como é o caso de Magazine Luiza, Intermédica, Cogna, Eztec e Anima. Como forma de reduzir a volatilidade do portfólio, a gestora também reduziu suas posições em derivativos – como índices futuros e compras e vendas de opções de Ibovespa.

Equitas protege carteira e Brasil Capital mantém posições

Luiz Felipe AmaralEm momentos de extrema volatilidade e forte aumento da aversão ao risco dos investidores como nas últimas semanas, é uma reação comum dos gestores de renda variável aumentar o conservadorismo da carteira com um incremento nos níveis de caixa. A Equitas, por exemplo, que antes da eclosão da crise estava com a carteira quase 100% investida, chegou a ter cerca de 20% dos recursos em caixa, patamar que já recuou para aproximadamente 15%. “Uma das principais posições do fundo era na Petrobras, e acabamos zerando para fazer caixa”, afirmou Luis Felipe Amaral, durante uma live no YouTube na noite de terça-feira (24) promovida pelo BTG Pactual digital. “Normalmente nesse tipo de crise, os investidores acabam exagerando demais na avaliação do cenário e às vezes jogam os preços muito para baixo, o que acaba gerando oportunidades para voltarmos a comprar com preços interessantes”, complementou Amaral.

No entanto, a decisão de levantar a guarda em momentos incertos não é unânime entre os gestores. A estratégia mais defensiva não foi adotada na Brasil Capital. Segundo o CIO da asset, André Ribeiro, os recursos em caixa dos fundos da casa não ultrapassaram o patamar de 2% que já vigorava antes da eclosão da crise. “Ao analisarmos as empresas em nosso portfólio, verificamos que 2/3 são formados por empresas que prestam os serviços essenciais que não foram paralisados, portanto não terão uma queda tão brusca das receitas”, disse Ribeiro durante a live no YouTube. Transporte e logística, transmissão, distribuição e geração de energia, além do comércio eletrônico são os setores mais resilientes no portfólio da asset.

Já entre as empresas de caráter mais discricionário, e consequentemente mais suscetíveis à volatilidade do mercado, a equipe de gestão da Brasil Capital entendeu que, diante de quedas tão expressivas nos preços dos ativos nas últimas semanas, valia a pena seguir posicionado. Ribeiro ressalta, contudo, que a desvalorização expressiva da bolsa não significa necessariamente que há claras oportunidades de entrada. “Houve um recuo muito forte no preço das ações, mas as receitas das companhias também devem cair de maneira expressiva nos próximos meses”, disse o gestor. “Portanto, mesmo com toda a desvalorização do mercado, há papéis que estão negociando com múltiplos próximos aos que tinham antes da crise”.

Amaral, da Equitas, acredita que o momento apresenta oportunidades de entrada, citando a velha máxima do mercado de comprar na baixa e vender na alta. “A questão é que os momentos de baixa nunca são situações confortáveis”, afirmou o especialista. “Outra máxima do mercado é a de que o que é confortável raramente é rentável”, complementou. O gestor da Equitas disse também que enxergar a queda recente como uma janela para comprar ativos de boa qualidade com descontos generosos não significa que não pode haver novos dias de realizações agudas à frente. “Estamos no olho do furacão, sem conseguir traçar cenários para se apoiar e fazer posições de curto prazo”.

No acumulado de 2020, até 24 de março, o fundo da Equitas recua 42,3% e o da Brasil Capital, 42,9%, ante uma baixa de 39,7% do Ibovespa no mesmo intervalo.

Verde Asset reconhece erro ao subestimar impacto do coronavírus

Luis StulbergerA Verde Asset, do gestor Luis Stuhlberger, divulgou uma carta aos investidores na qual reconhece que cometeu um erro importante: “começamos a comprar muito cedo”. Há cerca de dez dias, a asset havia divulgado outra carta em que informou que estava adotando uma estratégia gradualista de aumentar as posições em ações do fundo aos poucos, focando no mercado acionário americano, por considerá-lo o mais resiliente e que deve se recuperar primeiro que os demais.

Já na carta desta sexta-feira (20), a gestora reconhece que subestimou alguns pontos importantes, como atribuir um peso relevante ao binômio temperatura/umidade, com base no número de casos baixíssimo de lugares como Tailândia, Cingapura e Indonésia. “Com isso acreditávamos que por volta de maio o número de casos ia retrair de maneira importante, e portanto, os mercados iam conseguir atravessar o período mais agudo de março-abril sem grande pânico”, escrevem os gestores da Verde, na carta.

Os gestores da Verde dizem também que a incerteza econômica trazida pelos seguidos lockdowns mundo afora faz com que o horizonte de investimentos de todos seja reduzido ao máximo. “Já vimos isso em 2008 e outras crises. Esta é a oportunidade”, destacam os profissionais da gestora. “Obviamente teremos impactos econômicos sérios. Mas para nós, a correção dos mercados mais do que reflete tais impactos”. Segundo os especialistas, há uma combinação de social distancing, tratamentos para o COVID-19 (seja anti-virais, antiinflamatórios, e eventualmente vacinas), com as medidas fiscais e monetárias já anunciadas, como uma ponte capaz de atravessar o período de volatilidade atual. “A China e a Coreia do Sul mostraram o caminho”.

Apesar de reconhecer o erro, a carta desta sexta da Verde informa que a gestora segue aumentado a exposição ao mercado acionário americano. “Vemos ali a melhor combinação de poder de fogo fiscal e monetário com lucratividade das empresas”. A gestora também mantém exposição a ações no Brasil e na curva de juros real, focado entre a parte intermediária e longa.

 

 

Quasar Asset vê oportunidades em bonds de cias latino-americanas

CarlosMaggioliDiante da aguda deterioração recente nos preços dos ativos como reflexo da pandemia do novo coronavírus, gestores de recursos começam a alertar os investidores sobre as oportunidades que têm surgido. A Quasar Asset, focada no mercado de crédito, enxerga nos bonds de companhias latino-americanas um nicho promissor para realizar bons negócios nos próximos dias. No início de fevereiro, a gestora liderada por Carlos Maggioli adquiriu a Galloway, asset com atuação centrada em estratégias de crédito ‘high yield’ em mercados emergentes.

“A qualidade do crédito no nosso portfólio continua boa, mas há muita volatilidade nos preços causada por fluxos de mercado e vendas forçadas por fundos indexados ou que sofreram saques que fazem pouco ou nenhum sentido do ponto de vista fundamentalista”, escrevem os gestores do fundo que investe em títulos privados globais da Quasar, em carta aos investiores. Por isso, prosseguem os especialistas, alguns nomes de melhor qualidade estão sofrendo demais, em linha com créditos mais fracos, fenômeno que eles enxergam como uma oportunidade. “Estamos começando a utilizar um pouco da posição em caixa do fundo para comprar esses bons nomes a grandes descontos que em alguns casos são maiores que 30% em relação aos seus preços do mês anterior”.

No documento, os profissionais da Quasar destacam ainda que, embora tenha ocorrido um forte ajuste de taxas nos spreads dos bonds, não há perdas no fundo a não ser em caso de default. Uma dívida que está sendo marcada a mercado a 70% ou 80% do seu valor de face, por exemplo, vai voltar a valer 100% quando for paga, explicam os gestores. “Assim, como nosso fundo possui principalmente papéis de duration médio e baixo, o retorno dos preços deve ocorrer logo”, preveem os especialistas.

i9 Capital entra na gestão | Consultoria fundada em 2015 por profissionais oriundos da Risk Office cria braço de gestão de recursos para atender demanda crescente dos clientes

No início de 2020 a FIPECq, fundo de pensão da FINEA, IPEA, CNPq, entre outros, contratou a i9 Capital para a estruturação de um fundo exclusivo que compra cotas de fundos de terceiros no mercado, seja de renda fixa, variável ou multimercados. Segundo o presidente da EFPC, Claudio Munhoz, a gestora tem uma agilidade maior do que a entidade para fazer a alocação dos recursos de maneira apropriada e aproveitar taticamente as oportunidades de investimento, que nem sempre duram muito tempo, e também para defender a carteira em momentos de estresse e aumento da volatilidade nos mercados.
A i9 Capital, que iniciou suas atividades em fevereiro de 2019, é uma ramificação da i9 Advisory, consultoria de investimentos constituída em 2015 por profissionais egressos da Risk Office, como Relton Rodrigues, Jordanno Santos, Rone Almeida e Diego Condado. Segundo Rodrigues, a decisão de deixar a Risk Office e criar uma nova consultoria decorreu da percepção do grupo de que a antiga casa não atendia os clientes da melhor maneira possível, por não oferecer uma participação efetiva no processo de tomada de decisão dos investimentos. “Nossa proposta é ser uma consultoria mais participativa, e para isso costumamos ter membros da nossa equipe integrando os comitês de investimento das fundações, auxiliando na construção dos portfólios”, afirma o sócio da i9 Advisory.
A consultoria tem uma carteira com 65 clientes, sendo 32 fundos de pensão e a outra metade formada por family offices, seguradoras e empresas. “No início das nossas atividades começamos a atender fundos de pensão patrocinados por multinacionais que já eram nossos clientes na Risk Office, como a PRhosper da Rhodia, a GEBSAPrev da General Eletric, a Previplan da Clariant e a PreviBayer”, diz Rodrigues. “Com o tempo, fomos crescendo e recebendo demanda de outros clientes, e hoje cerca da metade dos fundos de pensão que atendemos são patrocinados por multinacionais enquanto a outra metade divide-se em patrocinadoras estatais e empresas de menor porte”. Ao todo, o portfólio dos investidores atendidos pela i9 Advisory soma cerca de R$ 70 bilhões em investimentos, diz Rodrigues.

“Após termos alcançado um tamanho razoável, passamos a receber uma demanda dos próprios fundos de pensão para assumir o trabalho de implantação das estratégias que traçamos para eles”, afirma Rodrigues. Segundo ele, embora em um primeiro momento a consultoria tenha relutado em assumir esse papel, diante da procura crescente de clientes pelo serviço, em meados de 2018 a i9 Advisory iniciou os trabalhos para criar a i9 Capital. A nova frente de negócios, por questões regulatórias e de compliance, tem uma equipe segregada que não se relaciona diretamente com o time da consultoria.
“A i9 Advisory traça o cenário e as melhores alternativas de investimento, e o fundo de pensão então tem uma nova conversa com a i9 Capital para que ela faça a efetivação da estratégia por meio de fundos exclusivos, que compram cotas de fundos de terceiros no mercado”, diz Rodrigues. Liderada pelo gestor Guilherme Piantino, a asset conta com o apoio de dois executivos vindos da consultoria, Diego Condado e Silvio Santos (ex-HSBC e Tag Investimentos). “Entendemos a política de investimentos da fundação, suas metas de rentabilidade, e conseguimos customizar um produto com as características específicas de cada entidade através da estrutura de um fundo exclusivo”, diz Condado. “E com redução de custos para o cliente se comparado a uma alocação que ele fizesse por conta própria”, complementa.
Atualmente a i9 Capital já tem cerca de R$ 3 bilhões em ativos sob gestão, de quatro clientes fundos de pensão e uma empresa que já eram atendidos pela consultoria. A gestora não tem fundos abertos, e no momento não pensa em atuar com esse formato de produto. “Nosso papel é encontrar os melhores gestores de recursos e fazer a alocação do capital dos investidores de acordo com as diretrizes que nos foram passadas”, afirma Condado.

Asset aposta em sistemas e Big Data | Adepta dos sistemas de análise baseados em grandes bancos de dados, a Constância conseguiu ampliar o número de papéis de seus fundos

A Constância Investimentos, que há cinco anos tinha porte e histórico abaixo do que exigiam os institucionais na hora de fechar negócios, conseguiu chegar a esse público e consolidar sua marca através de uma estratégia inovadora: a incorporação de matemática avançada e conceitos de inteligência artificial à análise das empresas que compunham seus fundos de ações.
A asset começou a planejar essa estratégia por volta de 2014, quando o fundo de ações Fundamento, carro-chefe da casa especializada em renda variável, contabilizava um patrimônio líquido de minguados R$ 7 milhões. Eram tempos de vacas magras para a renda variável, o Ibovespa tinha despencado 15,5%, no ano anterior.
Para o CEO da Constância, Cassiano Leme, a transição para um modelo de investimentos baseado em big data era essencial, por reduzir riscos e permitir aproveitar vantagens ainda não percebidas pelo mercado. A mudança foi viabilizada pela incorporação de duas pequenas casas de gestão com bagagens tecnológicas, a NP Investimentos e a Principia Capital. Além disso, a Constância montou uma equipe própria de modelagem de risco, comandada por Rogério Oliveira, doutorado em economia pela Universidade de Chicago.
“Seguimos os passos de grandes e bem-sucedidas assets internacionais que abraçaram essa proposta nas últimas três décadas. Alguns exemplos são a Acadian e a AQR, dos Estados Unidos, e a holandesa Robeco, que somam cerca de US$ 475 bilhões sob gestão”, observa Leme.
A partir de 2015, com o sistema já montado e o Fundamento reformulado, a equipe da Constância passou a oferecê-lo ao mercado, inicialmente aos RPPS. “Percorremos todo o interior do país para oferecer nossos fundos a essas entidades”, explica Leme.
Hoje, o sistema acompanha cerca de 1.500 empresas brasileiras, incluindo cotações, dividendos e aumentos de capital, entre outros itens, além de informações sobre a evolução da liquidez dos papéis. O uso dessa base permitiu ampliar o leque de empresas analisadas pela equipe. “Se no passado tínhamos braços para acompanhar não mais do que 20 empresas, atualmente, graças ao uso intensivo do big data, as carteiras de nossos dois fundos de ações, Fundamento e Brasil, têm papéis de cerca de 120 e 80 companhias, respectivamente”, diz Leme.
O Fundamento, um long only cujo patrimônio líquido médio é de R$ 340 milhões, alcançou uma rentabilidade acumulada de 222,58% num período de quatro anos, encerrado em 2019, superando o Ibovespa em 55,82 pontos percentuais. Já o Brasil, com uma proposta mais conservadora, cresceu 62,41% no último biênio, 11,06% pontos acima do Ibovespa. “A amplitude e a diversidade das carteiras do Fundamento e do Brasil permitem captar maiores ganhos e, de forma simultânea, compensar com sobras desempenhos eventualmente insatisfatórios de um ou outro papel”, observa Leme.
A robustez do sistema de dados tem permitido à gestora ampliar sua grade de produtos. Há dois anos lançou o multimercado Absoluto, com retornos de 156% e 252% do CDI em 2018 e 2019, respectivamente. Agora se prepara para lançar um fundo previdenciário que combina elementos do Fundamento e do Absoluto, mas sem riscos de bolsa.
Segundo Leme, “outro projeto prevê a criação de um fundo, talvez um long bias, que siga, em linhas gerais, os parâmetros da Resolução 4.661 do Conselho Monetário Nacional, mas sem se enquadrar 100% a essa regra. A ideia é adotar estratégias de short e derivativos que permitam captar melhores retornos e garantir proteção contra a volatilidade.”
A Constância também quer incluir empresas de outros países em seu big data, como suporte para o lançamento de fundos de investimentos no exterior. Inicialmente, devem ser incluídas cerca de 1.500 novas companhias latino-americanas na base da casa. “Os fundos centrados em mercados externos vêm sendo muito demandados pelos investidores institucionais, que estão empenhados em diversificar as suas aplicações, e ainda contam com grande potencial de crescimento”, diz Leme.
Atualmente a gestora possui R$ 2 bilhões sob gestão, atendendo basicamente entidades fechadas de previdência complementar (EFPCs) e regimes próprios de previdência social de servidores públicos (RPPSs). “Trabalhamos com cerca de 40 fundações de previdência públicas e privadas, além de 80 RPPS de 12 unidades da Federação. Juntos, eles respondem por algo em torno de 90% do volume total dos nossos fundos, diz Leme.

Eles querem fazer a diferença | Fundos que revertem receita da taxa de administração para projetos em comunidades carentes começam a ganhar espaço no País

Desde 2002 a Organização Não Governamental (ONG) Vaga Lume ajuda a levar educação e conhecimento para comunidades isoladas na região amazônica e já construiu quase cem bibliotecas comunitárias em regiões desassistidas pelo poder público. Em tempos em que o próprio presidente da República faz críticas reiteradas ao trabalho realizado por essas organizações, elas começam a receber um importante e inusitado apoio, cada vez maior, de gestoras de recursos e investidores. A união dos dois extremos – grandes riquezas e comunidades carentes – tem se tornado comum com o surgimento de fundos que apoiam, direta ou indiretamente, causas sociais diversas.
Em dezembro de 2019 a Sul América deu início à uma estratégia de investimento em renda variável que reverte a taxa de administração de 1,2% do fundo para a ONG Vaga Lume. “O que nos motivou a estruturar o fundo foi a vontade de contribuir com a sociedade de forma direta e não só através dos princípios de sustentabilidade que aplicamos em nossos processos de seleção dos ativos”, afirma o vice-presidente da gestora, Marcelo Mello.
A carteira do fundo é composta apenas por empresas alinhadas às boas práticas socioambientais. Para chegar às ações de companhias como Lojas Renner, Lojas Americanas, Fleury e Weg, a Sul América faz uma série de filtragens – para começar, ela considera somente empresas que sejam aderentes a pelo menos dois de quatro índices – os de sustentabilidade, de carbono eficiente e de governança corporativa da B3 e o da Dow Jones de empresas socialmente sustentáveis. Após essa primeira filtragem, restam, de um universo de quase 400 empresas listadas na B3, cerca de 40. A gestora parte então para uma análise qualitativa e avalia, dentre as 40, as que entregam as maiores rentabilidades aos investidores com os menores níveis de alavancagem, e chega a uma seleção final por volta de 20 ações. Esses papéis recebem, de maneira isonômica, os valores do patrimônio do fundo, que por ter sido criado há pouco tempo tem cerca de R$ 15 milhões. A expectativa da Sul América é que o produto chegue aos R$ 100 milhões ainda em 2020, o que vai fazer a contribuição à ONG Vaga Lume superar R$ 1 milhão.
“Temos uma estratégia competitiva para o cenário atual, de renda variável com empresas de alta qualidade, o que deve atrair o interesse de investidores como os institucionais, que precisam buscar alternativas frente aos juros baixos para superar as metas atuariais”, diz Mello. Segundo ele, já existem conversas em estágio avançado com algumas fundações interessadas em aplicar parte do capital no fundo, que não é voltado apenas para investidores qualificados. O produto está disponível em plataformas digitais como Órama, Pi e Modalmais e tem aplicação mínima de R$ 100. “Temos notado o engajamento dos players com a causa, já que as plataformas aceitaram fazer a distribuição do fundo sem ter nenhum ganho com isso, já que toda a taxa será revertida para a Vaga Lume”, afirma o vice-presidente da Sul América.
De dezembro de 2019 a fevereiro de 2020 o fundo rendeu 2,60% e superou com folga a performance negativa de 4% do Ibovespa no período. “Pelo perfil das empresas que compõem o portfólio, o fundo tende a ir melhor que o benchmark, principalmente no longo prazo, uma vez que está comprovado que companhias que se preocupam com questões sociais tendem a ter um desempenho melhor que os pares com o passar do tempo”, diz Mello.

Em escala já mais avançada, o VRB Multimercado conta com cerca de R$ 300 milhões de investidores que viram no produto a oportunidade de unir retorno e ajuda ao próximo. Um dos primeiros a investir no projeto, via ‘seed money’, foi o megainvestidor George Soros. O VRB é um fundo de fundos que compra cotas de fundos multimercados, de renda fixa e renda variável, e tem dois chamarizes importantes que tem contribuído para atrair cada vez mais interessados.
“A seleção dos fundos que serão comprados é feita por uma equipe composta por gestores de grandes familys offices, como Guilherme Ferraioli, da UBS Consenso, Leonardo Martins, da Turim MFO, Demosthenes Madureira, da Brazil Warrant, Luciano Telo, da XP Advisory e Lucas Borges, da Tera Capital”, afirma Tiago Fernandes, um dos criadores do fundo e CEO da VRB, instituição filantrópica que é o braço de impacto social do veículo. O executivo ressalta que os gestores dos family offices fazem o trabalho de seleção de fundos em caráter pro-bono, sem qualquer tipo de gratificação financeira.
Além disso, dentre os multimercados selecionados, muitos estão fechados para captação por já terem alcançado volume relevante sob gestão, como o Verde, o SPX Nimitz, o Truxt Long Biased, o Bahia Marau, o Oceana Long Biased e o Kapitalo Zeta. “Pelo aspecto social do fundo, os gestores aceitam abrir os multimercados pontualmente para receber os aportes do VRB”, diz Fernandes.
Desde o início da estratégia, em julho de 2016, até fevereiro de 2020 o fundo rendeu 45,10%, o que corresponde a 138% do CDI. A taxa de administração de 1%, após os custos que consomem cerca de 0,45%, é revertida para causas sociais como a academia de futebol Pérolas Negras, voltada para jovens de comunidades carentes do Rio de Janeiro que além da prática esportiva também recebem reforço escolar. “Nossa expectativa é destinar nos próximos dez anos cerca de R$ 35 milhões para as causas apoiadas nas áreas da educação e de inserção de jovens no mercado de trabalho, impactando a vida de até 500 mil pessoas”, afirma o CEO da VRB.
Para fazer a seleção dos projetos sociais a serem apoiados foi criado um comitê com nomes versados sobre o tema tais como Edmar Bacha, Anna Victoria Lemann, Bernardo Sorj, Simon Schwartzman, Rubem César Fernandes e Aik Brandão.
Para tornar o fundo mais acessível e assim conseguir repassar quantias maiores para os projetos sociais, em dezembro de 2018 o ticket mínimo do VRB Multimercado caiu de R$ 300 mil para R$ 10 mil, o que fez a base de cotistas saltar de 22 para 1,3 mil investidores.

No campo dos investimentos voltados para causas sociais há também o caso da Wright Capital, fundada em 2014 pela executiva Fernanda Camargo. Ela batizou a empresa em homenagem a Roger Wright, banqueiro com quem trabalhou na gestora de patrimônio Arsenal e que faleceu em um acidente aéreo em Trancoso, na Bahia, em 2009. A casa é um multi-family office com cerca de R$ 3,5 bilhões sob gestão. E nas conversas para iniciar o atendimento de famílias endinheiradas, a Wright sugere a elas a destinação de 1% dos seus recursos para fundos de impacto social.
Esses fundos, contudo, não fazem operações tradicionais no mercado, comprando e vendendo ações e títulos de renda fixa, como os da Sul América ou da VRB. Eles são veículos de porte mais modesto e investem os recursos diretamente em empresas de menor escala, constituídas e com sua atuação centrada em comunidades carentes. Entre os fundos apoiados pela Wright está o Mov, que investe em empresas como a Terra Nova, que ajuda famílias carentes a regularizar a situação de suas moradias em áreas ocupadas irregularmente. O Vox é outro fundo apoiado pelo multi-family office, que tem entre as investidas as empresas de microcrédito Avante e Banco Pérola.
“As características desses fundos, pelo perfil das empresas investidas, se assemelham aos de um venture capital, e podem entregar rentabilidades muito atraentes como podem também não trazer nenhum tipo de retorno”, afirma Fernanda. “Ao alocar os recursos conosco e aceitar a destinação de 1% para esses fundos, os clientes têm consciência do risco assumido, mas o aceitam pela oportunidade de ajudar outras pessoas”.

SulAmérica Investimentos prevê queda da Selic a 3%

A SulAmérica Investimentos prevê que o juro básico da economia, a taxa Selic, deverá sofrer mais reduções e terminar o ano em 3%, 0,75 ponto percentual abaixo do patamar definido pelo Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), na última semana. Os novos cortes seriam uma forma de estimular a atividade econômica nacional, que, segundo as projeções da gestora, deve apresentar quedas entre 1,3% e acima de 3%, a depender da suspensão ou da manutenção das medidas de distanciamento social, para frear a propagação do coronavírus Covid-19, no terceiro trimestre. “Com cenário de PIB negativo, imaginamos que o Copom será forçado a cortar juros novamente nas próximas reuniões, reduzindo a Selic para 3,0%”, conclui o relatório da gestora, distribuído hoje.

 

Segundo o texto, ao contrário da greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, que foi rápida e teve efeito maior sobre a indústria, a atual paralisação da atividade “deverá durar por diversas semanas” e afetar mais o setor de serviços. Para a SulAmérica, os eventos atuais também diminuirão bastante a renda de pessoas que trabalham no setor informal ou por conta própria, que representam somados quase 44 milhões de pessoas. “As medidas de ajuda anunciadas pelo governo devem recompor apenas uma parte muito pequena da renda perdida por essas pessoas (entre 5% e 25%), levando a uma queda de 30% da renda do trabalho antes de levar em conta possíveis demissões”, diz o documento.