Mainnav

Tchê luta em meio à tragédia
Entidade tenta se reerguer à catástrofe climática e prevê retorno ao funcionamento regular na primeira quinzena de junho

Edição 366

Stodulski,AdimilsonLuis(TchePrev) 24mai 02No dia 18 de maio, quando foi feita esta entrevista com o presidente da Tchê Previdência, Adimilson Luis Stodulski, as catástrofes climáticas que atingiram o Estado do Rio Grande do Sul já tinham alagado 461 dos 497 municípios gaúchos. As chuvas começaram em 29 de abril e em 3 de maio transformaram-se em inundações que atingiram cidades pequenas, médias e principalmente a capital, Porto Alegre. O balanço feito pela Casa Civil do Estado em 18 de maio indicava 155 pessoas mortas, 94 desaparecidas, 806 feridos, 540 mil desalojados, 77 mil pessoas em abrigos e um total de 2,3 milhões de pessoas afetadas.
Os 17 fundos de pensão do estado, 13 dos quais filiados à Tchê (entidade que congrega as entidades previdenciárias gaúchas), enfrentaram problemas, uns mais outros menos. Dos 13 associados à Tchê, 10 tiveram suas sedes alagadas, sofreram com falta de energia, falta de sinais de dados e de telefonia e com sistemas de processamento de dados inoperantes. Aliás, como a imensa maioria das empresas do estado. Mas voltaram rapidamente à operacionalidade com um principal objetivo: processar as folhas de pagamento de benefícios a cerca de 25 mil participantes assistidos dessas entidades. “A prioridade das entidades era rodar as folhas de pagamento de benefícios dos assistidos”, explica Stodulski.
Segundo ele, que é também diretor de investimentos da Funcorsan, a volta à normalidade ainda deve demorar quase um mês. “A gente acredita que a primeira quinzena de junho seja o período em que as entidades vão estar retornando às suas sedes para trabalhar de uma forma regular, depois das águas terem baixado e do trabalho de limpeza e de higienização em suas sedes ter sido feito”, afirma. Veja a seguir os principais trechos da entrevista que Stodulski deu à Investidor Institucional:

Investidor Institucional - Quantos fundos de pensão foram alagados no Rio Grande do Sul?
Adimilson Luis Stodulski - No Rio Grande do Sul temos 17 fundações, sendo que 13 são associadas à Tchê Previdência, mas são as maiores entidades gaúchas, e dessas associadas 10 ficam em Porto Alegre. Das 10 localizadas na capital, sete ainda estão com o prédio alagado ou com acesso interditado, duas tiveram o acesso alagado temporariamente mas a situação já foi regularizada e uma teve alagamento na rua dos fundos e na rua lateral, porém sem impacto direto nas suas atividades. Além disso, nós temos três que não estão em Porto Alegre, duas estão na Serra Gaúcha e uma em Gravataí, e nenhuma dessas foi afetada.

Você poderia nominá-las?
Eu fiz contato com algumas dessas fundações e, por política de comunicação delas ou do patrocinador, elas disseram que não gostariam de ver seus nomes expostos de forma explícita quanto à sua situação. Então não posso falar sobre cada uma delas especificamente, mas posso falar em geral sobre a situação do sistema.

E qual é a situação do sistema das EFPCs gaúchas neste momento, passadas duas semanas do início dos alagamentos?
Algumas tiveram bastante dificuldades nos primeiros dias do alagamento para conseguir acessar os prédios, para conseguir de alguma forma levar energia até os servidores de dados para poder retirar as informações necessárias para dar sequência às atividades normais. Algumas entidades estavam com o processamento na nuvem, então para essas o impacto foi menor. Outras mantinham o processamento físico, mas tinham alguns backups e algumas contingências, mas no primeiro momento também o acionamento dessas contingências foi prejudicado porque as empresas que prestam serviço de processamento manual e de contingência também tiveram muitos dos seus empregados atingidos.

Qual era a principal preocupação das fundações em relação à falta de acesso aos sistemas de processamento?
Todos tinham uma preocupação muito grande com o pagamento da folha de benefícios. A prioridade das fundações é com o pagamento da folha de benefício aos assistidos, pois mais do que nunca é necessário esse apoio à essa gente. A informação que eu tenho é que essa etapa, que é primordial dentro da nossa atividade de previdência, ela vai ser cumprida pelas entidades. Segundo me informaram, todas elas já tinham, de alguma forma, conseguido acessar suas áreas de processamento e estão aptas a rodar a folha de benefício dos assistidos.

Qual o tamanho dessa folha?
Das entidades associadas à Tchê apenas uma não tem assistidos, mas todas as demais têm. Dos mais ou menos 100 mil participantes das nossas associadas, cerca de 75 mil são ativos e em torno de 25 mil são assistidos. E a folha de benefícios dessas entidades gira mais ou menos em torno de R$ 150 milhões por mês. Esses valores referem-se apenas à entidades associadas à Tchê, sem incluir entidades como Previ, Funsef, Postalis, Petros, Elos, Atlântico, cujas sedes estão em outros estados mas que possuem um contingente importante de participantes no estado do Rio Grande do Sul. Acredito que se a gente incluir os assistidos dessas fundações, vindos do Banco do Brasil, Caixa, Correios, Petrobras, Eletrosul, a antiga companhia telefônica, a folha de pagamentos a assistidos deve dobrar.

Mas mesmo superando o problema de rodar a folha de pagamentos, a rede bancária está com problemas. Como os participantes estão recebendo os benefícios?
Eu sei que muitas cidades do interior, inclusive em Porto Alegre, estão com boa parte da rede bancária prejudicada. Semana passada tinha dificuldades de dinheiro mesmo nos caixas eletrônicos que ainda estavam funcionando. Porém as redes bancárias têm conseguido operar por aplicativos, por office banks, inclusive a recomendação dos próprios agentes financeiros é que se utilize mais o PIX, a transferência eletrônica de dados, uma vez que o dinheiro em espécie está bem difícil.

Você, além de presidente da Tchê, é diretor de investimentos da Funcorsan. Qual é a situação dessa entidade?
Na Funcorsan, nós já estamos com o sistema de processamento de dados normalizado. A gente tinha feito a transferência de todo o contingenciamento para a nuvem e estamos finalizando a transferência dos nossos sistemas para a nuvem. Estamos trabalhando em home office, que não é muito diferente do sistema híbrido que a gente vinha adotando antes do alagamento, com quatro dias por semana em casa e um na sede. Só que, agora, não dá prá fazer um dia de trabalho presencial e não temos nem previsão de retorno dessa rotina.

Como os funcionários da entidade foram afetados?
De nosso quadro de 34 funcionários, apenas três foram atingidos diretamente pelas enchentes. Desses três, duas funcionárias tiveram a casa alagada até o telhado. Outra, que mora no quarto andar de um prédio onde a água chegou ao segundo andar, embora seu apartamento não tenha sido alagado, o prédio dela está inacessível há 15 dias. Essas pessoas estão abrigadas em casas de parentes e aguardando o retorno do nível das águas para o leito para poderem retornar às casas e ver o que é possível salvar. Até onde eu sei, todas saíram meio que resgatadas dos seus imóveis, praticamente sem conseguir retirar nada, só alguma roupa, documentos.

E o psicológico desses funcionários, como está?
Toda essa catástrofe tem um impacto psicológico muito grande sobre as pessoas, porque mesmo aquelas que não foram atingidas diretamente pela água tiveram familiares ou pessoas de relacionamentos que foram. Outros, mesmo sem terem sido atingidos pela água, ficaram sem abastecimento público de água e de energia elétrica em casa, então tiveram que se mudar para casa de parentes ou amigos assim como aqueles que tiveram as casas alagadas. Uma dessas pessoas que se mudou para a casa de parentes me disse assim: eu preciso trabalhar, porque eu preciso ter uma rotina. Quando a água baixar eu vou precisar de um tempo pra me organizar, mas agora que eu estou abrigado em outro lugar eu preciso trabalhar pra manter uma rotina.

Com todas essas dificuldades, está sendo possível atender os participantes?
As entidades estão retomando o serviço de processamento e, como eu já disse, a prioridade é a questão do pagamento de benefícios. As entidades não estão a pleno, mas estão funcionando. Na Funcorsan, estamos fazendo todo o atendimento ao participante de forma remota, mas a gente já trabalhava anteriormente de forma híbrida, então apesar das dificuldades temos conseguido dar conta de toda a rotina da entidade. Com um pouco de esforço de cada um a gente está conseguindo manter todos os prazos e todos os compromissos que a gente tem.

A Previc anunciou o adiamento por 60 dias do prazo para envio dos balanços atuariais. É suficiente?
Tão logo começou a tragédia, ainda com quase todas as sedes das entidades alagadas, com dificuldade de acesso a processamento de dados, a gente entrou em contato com a Abrapp que imediatamente falou com a Previc pedindo uma flexibilização nos nossos prazos. Nós também, como Tchê, encaminhamos uma correspondência à Previc solicitando essa flexibilização na entrega dos demonstrativos, porque a gente tem que entregar demonstrativo de investimento, demonstrativo contábil, estatístico atuarial, informações atuariais que tenham uma regularidade. E a Previc imediatamente emitiu um ofício circular flexibilizando a entrega dessas informações por 60 dias, que dá um fôlego importante para as entidades gaúchas.

Que outras medidas seriam importantes?
A Previc também sinalizou, no próprio documento, que todas as entidades que têm carteira de empréstimo consignado com os participantes que tenham uma atenção especial para flexibilizá-las. Todas estão buscando alguma alternativa, algumas com um período sem o pagamento das parcelas, outros estão flexibilizando algumas regras, sacrificando margens etc. Mas claro, sempre olhando aquilo que é possível fazer, sem ferir o regulamento nem a legislação.

E em relação ao pagamento do décimo terceiro?
Temos recebido uma série de demandas, uma delas é a antecipação do décimo terceiro, que na verdade o termo técnico é abono anual. Isso depende muito do regulamento dos planos, sei que muitas entidades gostariam de fazer isso para auxiliar especialmente aqueles participantes que tiveram também suas casas atingidas, e são muitos, só que às vezes há alguns limitadores regulamentares em relação ao mês em que vai ser feito esse pagamento. Então, talvez fosse possível uma flexibilização quanto a essas regras de data de pagamento pelo órgão regulador. Eu acho que seria uma opção importante.

Poderia haver uma suspensão das contribuições extraordinárias?
Eu sei que tem um movimento nesse sentido, pois algumas entidades têm valores significativos, mas não sei até que ponto isso seria positivo para o plano. Talvez traga um fôlego para o participante hoje, mas o ônus pra ele pode ser maior mais adiante. Então, eu não saberia te dizer sobre isso, seria uma medida a ser avaliada.

Já dá prá começar a calcular os prejuízos das entidades?
Tem que esperar baixar a água prá começar a contabilizar. Nenhuma das entidades ainda conseguiu acessar sua sede para ver como ficou depois do alagamento. Mas, a princípio, a gente não vislumbra prejuízos muito grandes para as entidades. Talvez tenha ocorrido algumas despesas extraordinárias agora, porque talvez tenha sido necessário contratar alternativas de energia, contratar serviços que não estavam no planejamento, mas eu acredito que não seja nada que vai impactar de forma muito significativa no custeio das entidades.

A cobertura dessas despesas sairá do PGA?
Acredito que, normalmente, o custeio desses prejuízos é feito através do plano de gestão administrativa. O fundo PGA funcionará como uma reserva técnica para esse custeio de despesas e nas entidades que talvez tenham menos reserva técnica no plano PGA pode haver necessidade de uma revisão no plano de custeio para que possa dar conta da cobertura desses prejuízos.

Você tem mantido contato com os dirigentes das entidades gaúchas?
Nós temos um grupo de WhatsApp que tem conversado, mas foram duas semanas bem complicadas, porque com o alagamento a gente ficou sem energia elétrica, sem comunicação com internet. E a maioria das entidades funcionam em prédios que não tem uma estrutura de gerador. Enfim, temos mantido contato mas com alguns a gente consegue conversar um pouco mais, com outros um pouco menos.