Carteira de aluguel

Maurício Marcellini, da Funcefaluguel de acoesevolucao do aluguel

Edição 246

Fundações aumentam parcela alugada da carteira própria de ações em busca de ganho diferenciado e seguro - José Roberto Castro.

A BM&F Bovespa registrou no ano passado um volume de R$ 785 bilhões em negociações de aluguel de ações. O valor é o maior desde que a operação foi criada no Brasil, em 1996. Parte do volume envolvido nestas transações tem os investidores institucionais na chamada ponta doadora – a parte de quem disponibiliza os papéis para outros agentes do mercado. A constatação é de que, em tempos de retornos mais modestos, a rentabilidade trazida pelo aluguel pode ser um aliado para investidores que precisam cumprir metas atuariais e que trabalham com um horizonte de longo prazo. Pelo menos cinco dos dez maiores fundos de pensão do país fazem hoje aluguel de ações.

“Se a fundação está com a carteira parada, ela está deixando de ter um ganho adicional. Para as ações mais líquidas, a rentabilidade gira em torno de 1% ao ano. Para as menos líquidas, é maior ainda”, defende o diretor de Renda Variável da BM&F Bovespa, Júlio Ziegelmann. “É uma rentabilidade que a fundação pode ter sem correr o risco, já que a operação é garantida pela Bovespa”, completa.

Somente nos dois primeiros meses de 2013, o volume chega perto dos R$ 150 bilhões e a expectativa é que este tipo de operação continue crescendo no país. Segundo informações da BM&F Bovespa, 1,2% do estoque de ações no Brasil é hoje alugado. Na comparação no cenário internacional, o Brasil aparece atrás dos Estados Unidos, onde 1,4% dos papéis está envolvido em operações de aluguel, mas na frente de países como Austrália, Canadá, Hong Kong e Japão.

O sócio-diretor da consultoria NetQuant, Marcelo Nazareth, diz que o aluguel de ações não apresenta grandes riscos ao doador, por ser garantido pela BM&F Bovespa. “É uma operação, a princípio, muito boa. Ainda mais para quem tem uma estratégia passiva e um horizonte de longo prazo. É aí que entram os investidores institucionais”, opina.

Nazareth, porém, não acha que a possibilidade de doação de papéis deva ser central na hora de se optar por uma gestão passiva. “A decisão entre uma estratégia ativa e passiva antecede a questão do aluguel. Escolher a estratégia passiva pensando no aluguel de ações não me parece uma escolha acertada. O aluguel deve ser considerado, mas tratado como um fator marginal na hora da escolha”, diz o consultor.

Funcef – Um caso representativo do crescimento desta operação entre os institucionais nos últimos anos é o da Funcef, terceiro maior fundo de pensão do país com patrimônio de quase R$ 52 bilhões. A fundação estreou no aluguel de ações em 2009 e expandiu as operações em 2011. Agora, no início de 2013, atingiu seu maior valor mensal alugado na história. Nos meses de janeiro e fevereiro, cerca de 40% de uma carteira avaliada em R$ 2 bilhões esteve alugado. A previsão do diretor de investimentos da fundação, Maurício Marcellini, é que este número oscile entre 40% e 50% durante todo o ano.

Marcellini ressalta que este percentual já poderia ter sido alcançado no ano passado, mas que mudanças operacionais obrigaram a fundação a paralisar este tipo de operação por três meses. Mudaram o custodiante e os objetivos. Agora, quem faz as operações de empréstimo é a própria Funcef através de corretoras habilitadas. “Não é que o mercado esteja demandando mais, é que agora nós temos a condição de oferecer e operacionalizar o empréstimo”, diz o diretor da Funcef.

Dentro da estratégia de diversificação e desconcentração em papéis do tesouro, a Funcef tem hoje 36% de seus recursos em renda variável. Um terço disto, cerca de 12% do patrimônio total, está investido em bolsa, metade em carteira própria - cerca de R$ 3 bilhões. Deste valor, R$ 2 bilhões são parte da carteira passiva e estão disponíveis para operações de empréstimo. “É uma alternativa interessante para o fundos de pensão, que trabalham com prazos mais longos. O aluguel é importante porque ajuda a remunerar a carteira de fundações que negociam com menor frequência.”

E a demanda por aluguel já é fator determinante na hora de optar por determinado papel. Mesmo operando abaixo do potencial em 2012, o retorno obtido com o aluguel de ações foi de 0,5% sobre o total da carteira passiva, o suficiente para superação da meta que é Ibovespa mais 0,5%. Como a média alugada da carteira ficou na casa dos 25%, a taxa média obtida pela Funcef foi de 2% ao ano. “É um retorno importante em cima de uma carteira que está parada. Não dá para desprezar”, conta Marcellini.

O diretor de Investimentos ressalta que a Funcef é um locador conhecido no mercado, a quem os interessados recorrem quando querem alugar algum papel. A expectativa na fundação é de poder ao longo do ano aumentar tanto a taxa cobrada quanto o percentual médio alugado. “Se houver a demanda, a gente aumenta. Eu só não deixo disponível 100% porque pode haver a necessidade de algum movimento. Alguns papéis, a gente tira por algum interesse estratégico. A regra é deixar disponível até 80%”, diz.

ETF's impulsionam aluguel – “Hoje, os ETF’s só se justificam em uma carteira como a da Funcef por conta da possibilidade de empréstimo. A taxa de aluguel de um ETF é superior e assim eu consigo compensar a taxa de administração.” A constatação é do diretor de investimentos da Funcef, que costuma doar cotas de ETF, papéis que reproduzem os índices, para aluguel.

E a taxa mais alta de aluguel é um ponto propagandeado pelas assets responsáveis por criar os Exchange-Traded Funds no Brasil. “A gente conversa com diferentes perfis de investidores que fazem as duas estratégias, nas duas pontas da negociação. Quando a gente apresenta para os investidores, a gente sempre apresenta a possibilidade do aluguel”, conta Ricardo Cavalheiro, diretor da BlackRock, que tem cerca de R$ 2,7 bilhões sob gestão em ETF's como o Bova 11, o Small 11 e o Ecoo 11.

Além de impulsionar a venda com a possibilidade de aluguel, a BlackRock costuma doar parte de seus ETF's para empréstimo. É que, além do papel vendido diretamente ao cliente, a asset gere fundos de investimento em ações (FIAs) compostos por ETF's. Geralmente, é através dos FIAs que as fundações menores investem nos fundos de índice. “O aluguel pode funcionar tanto para quem tem uma posição comprada quanto para quem quer fazer uma proteção da carteira ou apostar num mercado em queda. Nosso trabalho é apresentar a característica da possibilidade de se fazer o aluguel com o ETF”, afirma Cavalheiro.

Atualmente, cerca de 50 fundações utilizam os ETF's da BlackRock e boa parte delas se beneficia do retorno dos aluguéis, seja fazendo a operação por conta própria ou via fundos de investimento.