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Os desafios das OABPrevs
Em meio à instabilidade do mercado, fundos apostam em escolhas conservadoras para seguir batendo as metas atuariais

Edição 366

Palma,Erika(OABPrevSP) 24maiEntidades que mais cresceram no sistema de fundos de pensão nos anos recentes, os planos de benefícios previdenciários dos advogados, mais conhecidos como OABPrevs, enfrentam desafios para seguir em ascensão em um cenário atual bastante desafiador. A crise econômica, a dependência do mercado financeiro internacional e a dificuldade de fidelizar participantes são apontadas pelas lideranças das entidades como obstáculos constantes para manter em alta a rentabilidade dos planos.
“As OABPrevs foram as grandes precursoras do sistema fechado no que se refere a plano instituído. Elas abriram o caminho, tiveram esse mérito, depois outros fundos vieram a reboque e hoje vários planos instituídos que existem acabam tendo patrimônio até mais significativo do que o das OABPrevs”, explica a presidente da OABPrev São Paulo, Érika Palma.
Palma se tornou a primeira mulher a liderar o plano instituído dos advogados no estado, ao assumir o posto no fim do ano passado, após passagens pelo seu Conselho Deliberativo. E, apesar dos obstáculos, tem conseguido manter números positivos, tanto em termos de rentabilidade quanto da conquista de novos participantes.
Com um patrimônio de R$ 1,4 bilhão, a OABPrev São Paulo fechou o ano passado com uma rentabilidade de 11,95%. Atualmente, entidade conta com mais de 53 mil participantes, representando um crescimento de cerca de 35% em relação ao primeiro trimestre do ano passado.
“É muito expressivo um crescimento de 35% em um cenário como esse, com a economia dando sinais complicados, a gente refém de uma taxa de juros em queda, o mercado oscilando e as metas fiscais sendo colocadas em xeque no mercado nacional”, avalia. “Nossa rentabilidade também acaba oscilando bastante, a gente apanha um pouquinho”, diz. “Mas, no geral, acho que estamos indo muito bem.”

Outras regionais - São Paulo conta com a maior base de advogados do Brasil e, consequentemente, é sede da maior seção da OABPrev. Em outras localidades, apesar da variação no número de inscritos e de patrimônio, o momento é parecido.
Em Santa Catarina, por exemplo, o presidente Márcio Sachet também destacou um balanço positivo de 2023. Com nove mil participantes, o Plano teve crescimento patrimonial de aproximadamente 20%, chegando aos R$ 300 milhões atuais. “Viemos de uma ascensão, e nossa curva não parou. A subida não é meteórica, mas vem em ‘velocidade de cruzeiro’ e subindo sempre. Em 2023, registramos nosso melhor ano em ingresso de participantes, com quase mil a mais”, celebra.
No Paraná, são aproximadamente 18 mil associados, com patrimônio de R$ 750 milhões. Em 2023, a rentabilidade foi de 12,5%. “Continuamos em uma crescente. Não na velocidade que gostaríamos, mas seguimos crescendo. Nossa OABPrev tem crescido, os números são muito bons, mas ainda estamos longe do ideal”, considera o presidente da seção paranaense, José Manuel Justo Silva.

Pandemia - Apesar do crescimento, as OABPrevs precisaram superar obstáculos importantes nos últimos anos. O principal foi a pandemia da Covid-19. Os dirigentes são unânimes ao apontar 2021 como o ano mais difícil dos últimos tempos. “Era o auge da pandemia, toda a economia mundial sofreu impacto. Claro que nos afetou”, lembra Sachet.
Em meio ao caos econômico e sanitário do período, os planos sofreram com a falta de rentabilidade, mas também com as constantes retiradas de quantias pelos advogados, que viam naquele dinheiro um caminho para sobreviver à crise.
“A gente precisou conviver com os muitos resgates. Deixamos de ter crescimento em alguns momentos porque, por mais que entrem muitos participantes, tem muita gente tirando o dinheiro. Isso aconteceu em todas OABPrevs. Foi uma situação comum entre os advogados, na época da pandemia. A situação financeira da classe, como um todo, piorou”, relata Justo Silva.
Passados três anos, o cenário financeiro continua abalado pelas incertezas do mercado, especialmente em relação aos juros, o que tem tornado o início de 2024 especialmente desafiador entre os fundos de pensão. Em São Paulo, a OABPrev teve rentabilidade de 1,94% no primeiro trimestre. Em Santa Catarina, a média mensal foi de 1% no período, enquanto no Paraná houve crescimento patrimonial de 2,5% de janeiro a março. “Estamos muito reféns das definições do Federal Reserve (Fed) e do mercado internacional”, resume Érika Palma.

Novos participantes - Outro obstáculo comum para os dirigentes é a atração de novos participantes. Eles consideram que a porcentagem de advogados que aderem à OABPrev é bastante reduzida se levado em consideração o total de profissionais da área no país.
Para alavancar este número, cada seção tem sua estratégia. No Paraná, a entidade aposta na realização de palestras de educação financeira para os credenciados da OAB. Em Santa Catarina, o planejamento passa por “humanizar” a OABPrev, com representantes do Plano espalhados pelas 53 subseções do estado. Já em São Paulo, a meta é melhorar a comunicação.
“Temos comparecido a eventos, feito campanhas publicitárias. Estamos com mais presença em redes sociais, nossos canais de atendimento são cada vez mais treinados. Tudo para poder fazer, mesmo, uma campanha de convencimento”, explica a presidente da OABPrev de São Paulo, Érika Palma.
Mas um fator visto por todos como fundamental para estreitar a relação com os advogados é a desburocratização da inscrição nas OABPrevs. Muitos profissionais não estão dispostos a pensar no próprio futuro econômico, especialmente se este planejamento envolver um aporte financeiro imediato e, além de tudo, ter que enfrentar um processo complicado para aderir ao Plano.
“É uma questão cultural. Precisamos, primeiro, fazer a pessoa entender que o tempo vai passar. Ela, esteja cuidando do futuro ou não, se precavendo ou não, o tempo passa, e é preciso cuidar desse futuro. A gente tem de colocar isso na cabeça dos advogados”, afirma Sachet.
“Também temos que tentar desburocratizar esse processo, para facilitar as coisas. Já estamos tratando de um tema sensível, então a desburocratização tem que ser prioridade. Pela nossa experiência, a rentabilidade fica até em segundo plano nesse processo de atrair os advogados. Quem já está no plano se preocupa mais com os números, porque fica olhando a própria carteira e faz o comparativo, mas quem ainda está fora costuma pensar nisso apenas em um segundo momento”, completa o presidente da OABPRev catarinense.

Escolhas conservadoras - Por lidar com a verba de profissionais liberais e enfrentar a pressão de atuar sob a chancela da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), os dirigentes das OABPrevs se veem constantemente em uma posição delicada: escolher entre fundos de investimentos mais arrojados, que possam dar maiores retornos, ou alternativas conservadoras, que rendem menos, mas também oferecem menores riscos. E a opção costuma ser a favor da cautela.
“A gente sempre explica que a nossa rentabilidade é razoável. Evidentemente, quando você fala de OABPrev, está lidando com o dinheiro da advocacia. Eu sou o gestor desse dinheiro nesse momento, mas daqui a pouco vai vir outra pessoa para ocupar o meu lugar. Então, não posso ser um investidor absolutamente arrojado. Porque não posso colocar em risco um patrimônio que não é meu, é da advocacia”, comenta Sachet.
Com isso, os advogados acabam, muitas vezes, deixando de se filiar às entidades para buscar outras opções de investimento, na esperança de retornos bem superiores e em menor tempo, mas nem sempre cientes dos riscos de baixa, especialmente no atual cenário econômico.
“Em um mês que temos uma rentabilidade questionável, o participante já quer cortar, levar para outro lugar, esquecendo que a OABPrev tem taxa zero de carregamento e administração mais baixa. Você não pode olhar a rentabilidade de apenas um mês, tem que olhar a longo prazo”, aponta Palma. “O imediatismo é uma das nossas maiores dificuldades hoje em dia. Isso e a overdose de informações, publicidades relacionadas a investimento.”

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