Mainnav

Questões regulatórias na mira
Expectativa é de que chegada ao investment grade traga aumento significativo de fluxo de recursos para indústria de fundos no país

Edição 366

Leonel,Frederico(Citi) 24abrNa liderança do mercado de custódia para investidores não residentes (Resolução CMN 4373), o Citi tem mantido estabilidade em seu percentual de participação, ainda que com alta no volume total de negócios entre março de 2023 e março de 2024, informa Frederico Leonel, head de sales and services da área de securities services do Citi Brasil. “O relacionamento do banco com os clientes é de longo prazo, o que contribui para essa performance, assim como o esforço feito para entregar serviços e melhorar processos usando a automação, o que deixa os clientes em posição confortável”, observa.
A estabilidade do market share é também um sinal de que o olhar de longo prazo ajuda a superar períodos em que o mercado não é muito positivo para atrair fluxos de investimentos externos. “Hoje o juro ainda elevado nos EUA atrapalha um pouco o estrangeiro, mas seguimos trabalhando e nos movimentando para evoluir porque a nossa visão é de uma maratona de longo prazo”, afirma Leonel.
A automação dos processos e consequente redução dos processos manuais segue o objetivo de reduzir riscos e aumentar a conectividade com a B3 e o Selic. “Na relação com os participantes do mercado essa conectividade já atingiu quase 100% no processo de batimento de operações (checagem das informações de compra e venda)”, explica. Para as contrapartes que não usam o sistema da B3 (iMercado), o banco oferece às corretoras uma plataforma própria, a Citi Velocity, adaptada às particularidades do mercado brasileiro. “Hoje apenas uma das corretoras com que trabalhamos não usa nenhuma dessas duas alternativas automatizadas”, diz.
Em 2024 houve uma entrega importante na automação do batimento e liquidação das operações de empréstimo de ações. Esse serviço atinge uma parte expressiva dos clientes da instituição, afirma Leonel, e já foi automatizado de olho no futuro, quando se espera o crescimento da participação estrangeira nesse tipo de operação. “A expectativa é de que esse segmento cresça porque no Brasil hoje os empréstimos de ações precisam ser feitos com uma contraparte central e as garantias ficam em nome da B3. Como nos EUA a regra é diferente porque os fundos precisam receber as garantias e ter a posse delas, isso gera um descasamento de regras e uma limitação para os estrangeiros nesse mercado”, informa.
A instituição tem feito um trabalho de advocacia de mercado para tentar abrir essa porta para os estrangeiros participarem mais, visto que hoje eles têm um percentual de apenas 1% em operações de empréstimo de ações. “É um trabalho que está na nossa agenda mas é de médio prazo porque envolve a B3, as contrapartes e os reguladores”, explica Leonel.
Outro aspecto regulatório em discussão pelo banco junto ao mercado e à CVM, este sob forte demanda dos estrangeiros, diz respeito ao voto remoto em assembléias, que teve as primeiras conversas ainda entre 2013 e 2014. “A primeira experiência de voto remoto foi feita em 2017, foi um teste mas não enxergamos o assunto como encerrado porque para o estrangeiro falta que essa funcionalidade seja oferecida em todas as assembléias, o que não acontece na prática”, diz.
A dificuldade, aponta Leonel, está no fato de que a regra brasileira exige a apresentação física dos documentos dos investidores, o que gera ineficiência na votação e acaba por reduzir o prazo para o investidor estrangeiro tomar uma decisão em voto remoto. “Há muitas etapas até que o processo seja concluído e chegue à companhia. A CVM colocou o assunto em audiência pública no ano passado e deve atualizar essa regra, o que é uma demanda importante do investidor estrangeiro”, explica. O tema é particularmente sensível para aqueles que são mais ativistas e precisam de mais tempo para assumir posicionamento nas assembléias, em condições de fazerem análises mais detalhadas antes de votar.
Entre os assuntos mais relevantes está ainda o debate sobre a nova Resolução 4373 e a expectativa de que a nova norma simplifique o máximo possível o acesso do estrangeiro, seja para pessoas físicas ou para institucionais.”O investidor estrangeiro tem hoje pouca renda fixa privada em suas carteiras de ativos brasileiros, elas estão mais concentradas em títulos públicos e as novas debêntures de infraestrutura, por exemplo, podem destravar isso”, sugere.
O banco também acompanha de perto a discussão sobre o modelo de liquidação em D+1, que deve entrar em vigor a partir do final de maio lá fora, com muitos países aderindo ao novo modelo junto com os EUA, incluindo México, Argentina e a Índia, que já fez a mudança. “No Brasil, a B3 e outros participantes do mercado decidiram que a melhor forma é implementar antes algumas melhorias no mercado antes de adotar esse modelo, temos discutido isso na B3 e é uma agenda importante para o País”, afirma.
A decisão foi tomada por um bom motivo, acredita Leonel, que é fazer a mudança de forma bem estruturada, porque o mercado como um todo precisa avançar, incluindo os custodiantes, e aprimorar o batimento de operações; como lidar com os clientes para fazer o fechamento de câmbio em prazos mais curtos e outros aspectos.

Rubinsky,Simone(BNP) 24mai 02Peso global - O peso como um dos maiores custodiantes globais – o terceiro na indústria de fundos de Luxemburgo, que é a segunda maior do mundo -, contribui para que o BNP Paribas use sua força de vendas para captar clientes e mantenha participação relevante no Brasil, diz Simone Rubinsky, gerente executiva de Securities Services. O banco está presente hoje em mais de trinta mercados mas oferece seus serviços para mais de 90 países, uma capilaridade que ajuda a crescer e a galgar vários lugares no ranking brasileiro de custódia desde 2022. “Estávamos em sexto lugar aqui, mas em 2022 a chegada de um grande cliente, um custodiante global que investe no Brasil, teve reflexos no portfólio e viemos subindo alguns postos até chegar ao terceiro lugar entre os players de serviços para o mercado externo”, conta Rubinsky.
Em 2023, o ano foi de questões geopolíticas que afetaram os mercados em todo o mundo mas os investidores institucionais, que olham para o longo prazo, compõem um público que não costuma fazer movimentos bruscos de saída dos ativos de risco em períodos de incertezas. “Não tivemos saídas fortes aqui mas também não registramos muitas entradas, o ano foi estável em termos de fluxos”, afirma. Para 2024, a expectativa é de novo período de estabilidade na movimentação de recursos uma vez que a Selic, mesmo em queda, continuará elevada e não há mais mudanças regulatórias no horizonte próximo.
A tendência, avalia Rubinsky, é de melhora no movimento de entrada de estrangeiros na bolsa aqui, inclusive graças à recente divulgação da percepção positiva da Moody’s para o crédito no País.
“Acreditamos que a chegada do Brasil ao investment grade aconteça entre o primeiro e o segundo trimestres de 2025, um tema que temos discutido bastante no banco. A projeção é de que, quando essa nota for concretizada, o fluxo de recursos para a indústria de fundos no País tende a crescer entre 10% a 20%”, projeta.
Os serviços prestados no âmbito da Resolução 4373 usam a plataforma proprietária global da instituição, que serve também Europa e Ásia, e atende bem o aumento de volume registrado até agora. “O volume de transações dobrou desde 2022, graças a essa plataforma”,conta. No universo dos fundos de investimento, o foco tem sido desenvolver o sistema para adaptá-lo à Resolução CVM 175 e usar a tecnologia para atender pedidos específicos dos clientes.
O banco, diz Rubinsky, aplica regras de seletividade na escolha dos clientes e prioriza relacionamentos de longo prazo. “Em geral são clientes que não vêm só para o Brasil mas também para EUA, Europa e Ásia e o objetivo é continuar a crescer nas linhas de negócios já existentes, tanto no mercado para não residentes como no mercado doméstico”, afirma. O crescimento da receita virá das contrapartes já contratadas,como o serviço de câmbio, por exemplo, que tem forte sinergia com a área de global markets e cuja receita cresceu entre 5% e 7% em 2023.

Lee,Joo(Mirae) 24maiPonto de partida - Toda grande fortuna asiática tem ao menos um pouco de Brasil em sua carteira , graças à isenção tributária nos ganhos de capital, lembra Joo Lee, head da mesa internacional da Mirae Asset no País, corretora do conglomerado sul-coreano. Com uma posição relevante no ranking dos maiores custodiantes para investidores não residentes no Brasil, a instituição tem presença em 19 países. Seus clientes estrangeiros de custódia aqui são em mais de 80% asiáticos, mas tem aumentado cada vez mais o atendimento a investidores dos EUA e Europa e de outros países fora da Ásia. “São clientes institucionais, entre os quais temos uma posição consolidada e que atendemos com posições próprias, via mesa de emergentes, mas na ponta há também pessoas físicas”, conta Lee.
A casa tem presença em Londres e Nova York e é a primeira gestora em market share na Índia, além de estar presente na Indonésia e em países considerados “exóticos”, explica Lee, como por exemplo a Mongólia. “O nosso nicho estratégico inicial era só a Ásia mas hoje fazemos também China indiretamente, via Hong Kong, que é um hub de interligação entre a China, o Japão e o mercado sul-coreano”, conta.
No âmbito da Resolução 4373, a mesa internacional cuida da representação legal e da negociação de ativos e atende também clientes americanos e europeus. “A custódia é um serviço segregado, mas preferencialmente é oferecida junto com o serviço de representação legal porque temos que prestar informação à CVM e ao BC e, com a custódia, isso fica facilitado”, explica Lee.
Sua atuação no Brasil para não residentes fora do foco dos investidores asiáticos é recente, tem aproximadamente dois anos e o share ainda é tímido no caso dos clientes dos EUA e da Europa. “Estamos com estratégias que pretendem aumentar a participação desse público, olhando para as grandes gestoras”, afirma.
A corretora também tem projetos em andamento pensando nos investidores brasileiros que querem alocar no exterior e a ideia é ter uma plataforma que permita também acessar os mercados da Europa.
Em paralelo, há um trabalho para criar um caminho direto junto aos institucionais locais para investir lá fora. “Temos trabalhado junto à CVM e fizemos um road show com a autarquia para vender o Brasil na Europa”, diz. Ele observa que o início deste ano trouxe um aumento no fluxo de estrangeiros para o Brasil, que mais do que dobrou em relação ao ano passado, mas o ciclo do juro nos EUA, ainda em patamar elevado, prejudicou esse movimento. “Esse, porém, é um efeito de curto prazo porque internamente não há risco político no Brasil e a mudança na perspectiva de rating pela Moody’s ajuda bastante”, pondera Lee.

Os 10 Maiores no Mercado Externo (em pdf)