Mainnav

Os desafios dos novos tempos
Nova regulamentação da CVM está na reta final de implementação, mas empresas que prestam serviços de custódia garantem que estão adaptadas

Edição 366

cofreA indústria de serviços de custódia no Brasil chegou a 2024 com seus sistemas e processos totalmente adequados ao novo modelo regulatório dos fundos de investimento, definidos na Resolução CVM 175, que está na reta final de implementação. Ao mesmo tempo, trabalha com a perspectiva da queda da Selic e da migração dos investimentos de renda fixa para outras classes de ativos, principalmente fundos de renda variável e estruturados. E com os clientes, sejam nacionais ou estrangeiros, demandando cada vez mais o uso de soluções tecnológicas que garantam confiabilidade das informações e velocidade nas conexões.
No Bradesco, que mantém a liderança entre os custodiantes, os serviços vão começar a rodar o novo modelo da CVM 175 assim que os clientes fizerem a transformação de seus fundos, explica Luis Claudio Freitas, diretor responsável pela área de ações e custódia. O banco vê espaço para continuar a crescer em todas as frentes de serviços, expandindo ainda mais seu market share e ampliando a distância que o separa dos principais competidores, diz Freitas.
“Quando se olha para os quatro maiores players dessa área, vemos potencial para continuar a ganhar participação em todos os segmentos”, afirma. Ele observa que a competição entre as instituições cria um ambiente positivo porque permite ao cliente testar a qualidade dos serviços, que impõem um elevado nível de responsabilidade técnica tanto nos mercados local e internacional, no que se refere à precificação, risco e enquadramento.
A expansão registrada até agora pela casa está ligada, entre outros aspectos, à oferta de serviços com maior valor agregado, com pacotes que podem acoplar controladoria e administração fiduciária. “Temos nos preparado e investido em tecnologia de forma contínua para atender gestores, assets, fundações e Family offices, levando em conta que novas legislações sempre podem alterar a cadeia de serviços”, diz Freitas.
O uso de Inteligência Artificial já está em fase de teste para alguns processos, mas ele enfatiza o investimento feito na automatização para garantir conexão direta entre a casa e os clientes, com estrutura de ATI (Serviço Automático de Informação Terminal). Os relatórios também podem ser gerados de forma automática pelos clientes e há uma estrutura grande de tesouraria e câmbio disponível. “Para as fundações, os serviços técnicos são montados de acordo com as necessidades de cada uma, é quase como desenhar uma plataforma para cada entidade”, afirma.
“Com R$ 2 trilhões sob custódia, R$ 3,6 bilhões em controladoria e mais de 5.600 fundos, nossa estrutura é bem flexível para acompanhar as mudanças de mercado e tem tecnologia avançada para atender a demanda”, diz.
Freitas,LuisClaudio(Bradesco) 24maiNo primeiro trimestre deste ano, embora a bolsa tenha registrado queda de 4,5%, a custódia para fundos de renda variável continuou a crescer no banco, lembra Freitas. A instituição colhe ainda os efeitos da aquisição de parte da gestora do BV (Banco Votorantim), no ano passado, e que incluiu os serviços de custódia.
O atendimento multidisciplinar também ajuda, com a atuação das áreas jurídica, de custódia, administração e controladoria bem azeitada. O trabalho já vem sendo feito de forma integrada e a custódia hoje faz parte de uma área maior, de wealth management. Há capacidade para associar e agregar serviços de distribuição, entre outros, aos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e ao segmento de agro investimentos.
“O banco tem atuado com plataformas completas, com uma grade ampla de segmentos e serviços, mas ao mesmo tempo há núcleos exclusivos, como o que atende as fundações e outro voltado apenas às assets, em seus vários perfis”, explica o diretor.
Líder também na custódia para as fundações, o Bradesco ganhou novos mandatos de clientes que já tinham custódia descentralizada na casa mas agora passam a fazer isso de forma centralizada. Entre as classes de fundos que têm crescido mais, Freitas enfatiza os FIDCs, os FIP (Fundos de Investimento em Participações) e os FII (Fundos de Investimento Imobiliário). “Para os FIDCs fazemos também a cobrança de recebíveis”, conta. A perspectiva é de que os fundos estruturados, de modo geral, ganhem espaço no mercado brasileiro a partir de agora.
Em relação às carteiras administradas, especialmente para as assets e family offices, a expectativa é de crescimento forte devido à mudança na tributação dos fundos exclusivos. “Para as fundações as mudanças não farão tanta diferença, porque elas já mantêm uma estrutura mista entre fundos exclusivos e carteiras administradas”, lembra Freitas. Nas carteiras, o arcabouço regulatório é diferente daquele dos fundos, mas o custodiante pode entregar o mesmo tipo de serviço, ainda que não seja obrigatório. “O custo vai depender das especificidades de cada cliente”, diz.
Com mais de R$ 300 bilhões em custódia para o mercado externo, o banco presta serviços inclusive para fundos offshore seguindo o mesmo conceito adotado para os clientes residentes no Brasil, que é o de operar em todas as partes do mundo. “Temos crescido ainda em operações de ADRs, segmento em que atendemos grandes companhias, como a Petrobras e a Vale, por exemplo. Fazemos parcerias mas temos também ativos da própria instituição”, afirma.

Posicionamento estratégico - A aquisição do negócio de custódia do Royal Bank of Canada (RBC) pela Caceis, empresa coligada ao grupo Santander, em transação acertada no ano passado, colocou o banco em melhor posição para atender esse mercado globalmente, aponta Joaquin Alfaro, CEO da S3 Caceis Brasil. “Com essa operação, são hoje ao todo 4,4 trilhões de euros sob custódia em 15 países, o que nos deixa melhor posicionados nesse mercado lá fora. Isso já nos ajudou porque conseguimos três novos clientes estrangeiros e temos um pipeline forte”, avalia.
O foco da instituição no Brasil é seguir crescendo com clientes de terceiros, tanto na custódia para operações domésticas quanto globais. O objetivo é atingir 12% a 15% de market share dentro de dois a três anos, diz o executivo.
“No ano de 2023 atingimos R$ 340 bilhões em patrimônio líquido de terceiros e hoje temos 1.935 portfólios sob custódia com terceiros, um crescimento de 1,18%”, conta Alfaro. O banco registrou 15 novos clientes de custódia em 2023, incluindo domésticos e estrangeiros, sendo três deles institucionais. “Em 2024 o objetivo é seguir ampliando os serviços para terceiros nos dois segmentos – residentes e não residentes – e também crescer junto aos institucionais.
Hoje, 20% das propostas no pipeline da casa são de institucionais, o que envolve um patrimônio líquido de R$ 12 bilhões no mercado doméstico, diz Alfaro. Uma série de novas entregas na área de tecnologia no ano passado reforçou a conquista de novos clientes. Entre elas, as melhoras na mensageria, que foram importantes sobretudo para os negócios de investidores estrangeiros. “Ganhamos também melhor conectividade com os brokers, o que ajuda os negócios offshore porque dá mais flexibilidade e os clientes acessam melhor o mercado estrangeiro, agora aproveitando a mudança trazida pela CVM 175”, explica.
A instituição já tem mais de cem fundos rodando no novo modelo trazido por essa regulação, que tiveram sua custódia devidamente adaptada à medida que os clientes transformaram seus fundos. O desafio agora é a adequação à estrutura de classes e subclasses, diz Alfaro. “Mas aí nós temos um diferencial importante que é a experiência global porque essa estrutura é comum na Europa e nossa plataforma já tem todo esse sistema”, afirma.

Hadid,Allan(BTGPactual) 23abr 01Disputa acirrada - O ano de 2023 foi de crescimento dos serviços de custódia oferecidos pelo BTG Pactual, que têm acoplados os serviços de administração fiduciária para fundos de pensão, fundos de investimento e RPPS, informa Allan Hadid, head da BTG Pactual Asset Management.
Nos pacotes mais completos, quando faz administração a casa oferece também controladoria, mas há clientes que fazem apenas controladoria. “Procuramos entender as demandas deles e entregar soluções tecnológicas que permitam acesso à informação com velocidade mas também com credibilidade, o que tem nos feito ganhar mercado nessa área”, diz Hadid.
Ao analisar o período de 15 meses desde o início de 2023 até março deste ano, transparece que o crescimento digital do banco tem sido usado para garantir o crescimento também em serviços de custódia. “Esse processo teve início com o banco digital e foi transbordando. A administração foi a que mais cresceu nesse período e normalmente o serviço de custódia é englobado porque os investidores querem uma solução completa”, explica.
O investimento mais robusto na área começou a ser feito ainda em 2018, com a melhoria dos processos e ganho de escala. O objetivo é concentrar o foco nas entidades fechadas de previdência complementar e nos RPPS, para os quais os serviços são customizados. No caso das fundações, o ganho de clientes tem ocorrido tanto entre as de patrocínio privado quanto de patrocínio público. “Mas a concorrência é acirrada e no mundo digital o investidor aprendeu a ficar mais exigente, então para controlar ativos e contrapartes é preciso ser muito ágil”, observa Hadid.
Ajustar os serviços ao complexo arcabouço da CVM 175 é o principal desafio este ano porque será preciso fazer a migração de uma quantidade enorme de fundos mas essa adequação tem ocorrido com tranquilidade, segundo Hadid. No caso da adaptação à estrutura de classes e subclasses de fundos ele não vê muita diferença em relação à estrutura de FICs (Fundos de Investimento em Cotas) e de fundos máster, mas de todo modo esse processo exige um expressivo investimento em tecnologia.
A perspectiva para 2024 é continuar a crescer de modo mais voltado ao mercado interno e observar as oportunidades de migração da renda fixa para outros ativos, o que normalmente impõe uma custódia mais estruturada do que a utilizada apenas para a renda fixa. Os FIIs, os fundos de private equity e os investimentos em crédito “mais apimentado” estão no radar, mas a casa está preparada para isso, diz Hadid. “A arquitetura da nossa custódia é feita para suportar todo tipo de ativo, então para nós essa migração do mercado não vai mudar muita coisa”, informa.

Ativos Custodiados (em pdf)