O avanço da Fosum
A história - e o apetite - da gigante chinesa no Brasil, que já investiu R$ 1 bilhão em quatro anos em uma gestora e uma plataforma de fundos

“Pense grande”. Foi com este espécie de mantra, dois mil e quinhentos dólares no bolso e um punhado de amigos que o chinês Guang Chang Guo, estudante da universidade de Fudan, em Xangai, na China, criou um império. Em 1992 nascia a Fosun, um dos maiores grupos de investimentos privados do planeta segundo a revista Forbes. Nos últimos quatro anos investiram um bilhão de reais no Brasil. E vem mais por aí, segundo seus representantes na Rio Bravo e na Guide Investimentos, braços do conglomerado no País.
“Os chineses querem investir em previdência e seguros, estão observando tudo que tenha a ver com serviços financeiros digitais e vieram para ficar”, explica Paulo Bilyk, economista com carreira internacional, egresso do BTG Pactual e que responde pela Fosun no Brasil.
Para entender o apetite desses investidores em território brasileiro é preciso retroceder um pouco no tempo e compreender seu início. A empresa começa justamente em um momento em que a China iniciava uma virada pró-mercado, o início das primeiras reformas do líder chinês Deng Xiaoping, líder do partido comunista chinês de 1978 a 1992. Naquele momento de efervescência econômica, a Fosun nascia baseada em um tripé: atividades ligadas a “seguros e gestão de investimentos”; “saúde”, na fabricação de equipamentos médicos e de serviços médicos hospitalares; ramo “felicidade”, com investimentos como o Clube Med e Cirque du Soleil.
No início, a primeira atividade foi alugar equipamentos médicos para hospitais. O passo seguinte foi a corretagem de terrenos em um momento relevante de urbanização da China, de inflação nos preços dos imóveis com a economia crescendo mais de dois dígitos ao ano. A ramificação para as outras atividades ocorreu naturalmente e, com dinheiro em caixa, a estratégia subsequente foi romper fronteiras.
“O que aconteceu nos últimos seis, sete anos para cá é que a Fosun resolveu ter uma pegada internacional, buscar negócios fora da China, porém mantendo a característica do tripé que a originou”, explica Paulo Bilyk. Ele lembra que, neste processo de internacionalização, um dos primeiros ativos adquiridos foi a maior seguradora de Portugal, a Fidelidade, em 2014. Nesta toada, antes de vislumbrar o mercado brasileiro, vieram investimentos agressivos no Japão (compra da gestora de fundos imobiliários IDERA) e na Inglaterra (fundos imobiliários Resolution).

Tamanho é documento – A estratégia de negócios para a Fosun, lembra Bilyk, está muito direcionada aos mercados que seus gestores consideram grandes. “O tamanho é muito importante por uma razão muito simples: países de população grande tendem a ser economias potentes. Nesse sentido, o Brasil era um foco óbvio, assim como a Nigéria tem sido, e a Indonésia tem despertado interesse”, afirma.
O namoro com o Brasil começou com o trabalho de Diogo Castro, um português que em nome da Fosun havia comprado a seguradora portuguesa Fidelidade. Ele convenceu seus chefes chineses a adquirir uma participação em uma gestora de investimentos em São Paulo, a Rio Bravo, em cuja liderança está entre outros nomes o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. O negócio foi selado em 2016, com a aquisição de 50,1% do capital social – as cifras não são reveladas.
O time brasileiro decide então comprar um edifício, a torre Sucupira, no Parque da Cidade, zona sul de São Paulo, para locação. O negócio deu tão certo que, meses após a aquisição, cinco andares do prédio foram vendidos para o fundo do BTG Pactual.
Dois anos depois da compra da Rio Bravo, que tem hoje R$ 14 bilhões sob gestão, a Fosun adquire a Guide Investimentos, uma corretora de valores que tem sob custódia R$ 23 bilhões.
Detalhe: a compra da participação da Rio Bravo e da torre Sucupira há três anos, lembra Bilyk, ocorre quando o Brasil sofria ainda os reflexos do impeachment da Presidente Dilma e a recessão econômica. “Os chineses tomaram riscos altos, de uma natureza diferente, em um momento em que o investidor estrangeiro estava totalmente retraído”, diz Bilyk.

Próximos passos – “A prioridade da Fosun é desenvolver uma multiplataforma financeira com a Rio Bravo e a Guide. Mas estamos avaliando negócios na área de meios de pagamento, cartões de digitalização, na área de seguros tudo que se refere à previdência das pessoas”, explica Bylik.
Ele acredita que tanto a Rio Bravo quanto a Guide podem dobrar de tamanho em dois anos e oferecer “serviços de um banco sem ser um banco”. Segundo Bylik, “será possível, por exemplo, quem tiver conta na Rio Bravo fazer pagamento com dinheiro que ele tenha na Guide por meio de QR Code, aproximação de telefone celular”.
Perguntado sobre qual o tamanho do apetite dos chineses em relação ao Brasil e quanto eles ainda estariam dispostos a investir, o executivo diz que é preciso diferenciar o investidor chinês dos demais. “Há preocupação com os detalhes financeiros das coisas. Eles são bastante rigorosos. E vieram para ficar, não para entrar e sair, realizar resultado ali adiante”. Bylik ressalta que são arrojados, há um trabalho de construção de confiança diária.”Existe uma preocupação aguda com os custos, retorno de capital. Não é fácil, mas é gratificante”, conclui.

Choque de Culturas
Na sede da Rio Bravo dois representantes chineses, faixa etária de 30 anos, representantes da Fosun, dividem a bancada com os colegas brasileiros. Falam inglês, estudaram fora da China, gostam de comer churrasco, confraternizar sempre que possível, e reportam, em chinês, dados e números à matriz do trabalho no Brasil quando necessário. “Hoje em dia a gente tira isto de letra, se eles querem falar em chinês, tudo bem. No começo era mais complicado. Mas é a cultura deles, com o tempo você se acostuma”, explica Paulo Bylik, representante da Fosun no Brasil.
O executivo lembra que fazer negócios com chineses é algo bastante peculiar. Diferente das sociedades anglo saxônicas, onde a palavra tem muito valor e os contratos refletem este casamento, a China é, segundo ele, uma sociedade de “baixa confiança” relacionada a toda a sua história. “Em princípio a contraparte desconfia de você. Se você mostra uma planilha tem sempre alguém querendo olhar erros nos seus dados. Na medida que você entrega resultados, cumpre a sua palavra, mostra ser um bom conselheiro para evitar risco, é respeitado na sua sociedade, aí a confiança aumenta. E os negócios naturalmente fluem”.
Um outro detalhe importante para os negócios com os chineses é a socialização fora do escritório. Comer e beber ajuda na vida empresarial na visão dos chineses, explica Bylik. Faz parte da cultura deles, é preciso estar predisposto a isso. “Os americanos quase que já aboliram isto, mas os chineses não. É preciso estar atento, tem toda uma simbologia para os negócios”.