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Brasil não segue a onda
Saída de grandes gestores norte-americanos da iniciativa Climate Action 100+ surpreenderam o mundo, mas especialistas dizem que questão é política

Edição 364

O ano de 2024 começa com sinais aparentemente conflitantes em relação ao futuro dos investimentos em ESG, sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança. Gestores internacionais como J.P.Morgan, State Street e Pimco comunicaram a saída do Climate Action 100+, iniciativa global criada em 2017 para apoiar a redução de CO2 dos 170 maiores emissores do planeta. A Blackrock, uma das primeiras a levantar a bandeira verde no mundo financeiro e com cerca de US$ 700 bilhões em ativos ESG seguiu na mesma linha, transferindo sua participação da Climate Action 100+ para a BlackRock International.
Não é coisa pouca. A Blackrock é dona de uma carteira global de US$ US$ 10 trilhões em ativos, State Street administra US$ 4,1 trilhões e o JP Morgan, US$ 3,1 trilhões. Diante disso, vem a inevitável pergunta: a agenda sustentável, que ganhou força acelerada nos últimos anos, estaria em xeque?
Gestores brasileiros especializados no tema respondem que não, que a agenda sustentável não está em retrocesso. A questão toda se resume à política americana, onde uma parte importante da sociedade tornou-se anti-ESG na esteira da corrente política encabeçada pelo ex-presidente e agora candidato às eleições presidenciais Donald Trump. Para os gestores brasileiros ouvidos para esta reportagem, essa onda anti-ESG não chegou à Europa e não trará consequências negativas para o resto do mundo.
No Brasil, novos fundos estão em fase de estruturação e alguns até já foram lançados nos dois primeiros meses do ano, como o de renda fixa lançado pela recente parceria da JGP com a BB Asset, que resultou numa nova asset especializada em sustentabilidade. A nova gestora nasce já com patrimônio de R$ 600 milhões que foram captados pelo seu primeiro fundo de renda fixa. Outros frutos da mesma parceria estão no pipeline, como um FDIC que já está em contagem regressiva para chegar ao mercado.
Segundo Daphne Breyer, head ESG da BB Asset, esses são os primeiros frutos da nova gestora, que se estrutura para ampliar a oferta de fundos de sustentabilidade tanto no mercado interno quanto para investidores estrangeiros. De acordo com ela, a carteira atual de fundos ESG registrados da BB Asset é de R$ 1,7 bilhão, dos quais 14% são listados na Anbima. O objetivo é chegar a R$ 20 bilhões até 2030, o dobro dos R$ 10,5 bilhões de todos os 77 fundos ESG atualmente registrados.
Por trás da robustez dos números está a convicção dos especialistas de que o Brasil vive um momento positivo para receber fluxos de capital externo por conta de recentes movimentos globais. Dois sócios da JGP - José Pugas, head de ESG, e Guilherme Bragança, à frente da Relação com Investidores - reiteram que o momento é muito propício à isso. Segundo eles, dos vários projetos que estão em desenvolvimento como resultado da parceria entre as duas casas, alguns contam com garantias de investidores internacionais, como de crédito ESG, direcionado ao segmento institucional, que deverá ser anunciado nos próximos dias.
“A maré está subindo e nos favorece. Quem pode oferecer produtos de soluções baseadas na natureza, com qualidade, para atender a demanda do Norte global é o Sul global”, explica Pugas. “E quem tem o melhor mercado financeiro entre os 17 países megadiversos, aqueles que podem prestar serviços ambientais para o resto do mundo, é o Brasil. Estamos concorrendo com Madagascar, Bolívia”.
Questões estruturais à parte, a conjuntura atual também está favorecendo o País. Pugas cita como exemplo a presidência brasileira no G20, grupo que tem, atualmente, suas atenções voltadas para finanças climáticas, com a liderança do ministério da Fazenda brasileiro, além da COP30 a ser realizada no Brasil no ano que vem. “Seremos o epicentro do planeta na questão ambiental”, diz. A seu ver, com o retrocesso americano na agenda ESG e a paralisação de concorrentes fortes, abre-se uma avenida para o mercado brasileiro, o que favorece as gestoras nacionais a se posicionarem melhor no mercado internacional.

Indo além - Na mesma linha, a Fama re.capital, que administra U$ 125 milhões em ativos ESG, é outra gestora em pleno lançamento de produtos. A percepção da casa é a de que o conceito tradicional de ESG não é mais suficiente, havendo a necessidade de ir além. Em linha com esse princípio, a primeira novidade do ano é um fundo temático, focado em mudanças do clima e composto por ações de cinco empresas brasileiras e da América Latina. “O fundo vai operar como um private equity. Vamos investir em empresas muito emissoras de carbono e que permitam soluções adequadas para redução de CO2. A ideia é ajudá-las a adotar um plano de descarbonização robusto com base no que há de melhor na tecnologia. Vamos conversar com os CFOs e as CFOs mostrando como melhorar os resultados financeiros das empresas com base nas práticas que serão adotadas”, diz Laura Vélez, head de ESG da gestora.
Além disso, a Fama está em processo de abertura de um fundo offshore de renda variável e de um FDIC, fundo de impacto criado em parceria com o grupo Gaia, para impulsionar negócios da sociobioeconomia tocado por comunidades indígenas e regionais, que hoje não têm acesso aos mercados tradicionais. A etapa atual é de captação de recursos.
O Santander Asset, signatário do Climate Action 100+, também tem produtos no forno e metas de crescimento expressivas para a área de sustentabilidade. Hoje, a asset tem fundos ESG de renda variável, previdência e de equity global, mas a meta é ampliar estratégia para outras classes de ativos, como a de crédito privado.
“Queremos diversificar os fundos para renda fixa. Demanda existe, de seguradoras e fundos de pensão. Temos sido muito procurados. Não vemos retrocesso. Estamos nos preparando para aumentar o volume de ativos em carteira, investindo muito no aprimoramento de metodologias globais a fim de padronizar análises de ativos, de tecnologias e de controle. É um trabalho imenso, que dará aos gestores informações de qualidade para fazer a seleção de ativos”, diz Luzia Hirata, gerente ESG do Santander Asset.

Pauta norte-americana - O Brasil, na visão dos gestores consultados para essa reportagem, tem muito a ganhar com o movimento anti-ESG que se iniciou no mercado norte-americano. Segundo esses gestores, o conceito ESG veio para ficar, o interesse dos investidores aumentou, o mercado amadureceu e a regulamentação foi aprimorada. “Globalmente, o ESG só cresceu, mesmo com a saída desses players americanos. Temos que olhar realmente o que está acontecendo. É uma saída simbólica? Com certeza. É um retrocesso? Com certeza não”, diz Pugas, para quem há convergência de fatores positivos para o País.
Há também o consenso de que nada do que está acontecendo nos Estados Unidos se aplica ao Brasil. Os fundos que deixaram o Climate Action têm em comum o fato de estarem nos Estados Unidos, país que enfrenta atualmente uma agenda ESG altamente politizada dentro de um cenário de radicalismo republicano, em alguns estados como Texas, Virgínia, Tennessee. Esses grandes gestores norte-americanos foram pressionados politicamente, levando empresas a recuarem na agenda sustentável, mas o mundo não dará um passo atrás no processo de descarbonização. As empresas continuam investindo na redução das emissões e os investidores continuam demandando produtos de mais longo prazo.
“É um negócio endêmico dos Estados Unidos. A Blackrock saiu do Climate Action 100+ no braço americano, mas continua no internacional. A State Street deixou a iniciativa pela redução de carbono duas semanas antes de uma audiência de inquérito com oficiais do governo do Texas para questionar a agenda ESG. O que está acontecendo lá é uma caça às bruxas”, diz Pugas. A BlackRock chegou a enviar documento à SEC, a CVM americana, admitindo que a defesa das políticas ESG poderia prejudicar a sua reputação e prejudicar os seus resultados financeiros.
Aqui é exatamente o oposto. Como itens que sustentam seu argumento, Pugas cita o Plano de Transformação Ecológica, anunciado na COP28, em 2023, além de vários lançamentos de programas específicos para fundos ESG durante a reunião G20, em São Paulo, e do Eco Invest, iniciativa do governo brasileiro para atrair recursos financeiros internacionais à pauta sustentável do País. Além disso, há o programa de hedge cambial para atração de investidores estrangeiros.
“Temos um pacote gigantesco para o mercado financeiro. Na reunião do G20 ouvimos que se não conseguirmos fazer no Brasil, não faremos em lugar nenhum”, diz Pugas. Segundo ele, “temos uma chance gigantesca. O capital natural do Brasil reúne mais de 20% de todo o capital natural do mundo. O melhor custo-benefício da restauração no mundo está no Brasil, a segunda energia eólica mais barata no mundo está no Brasil, a solar mais barata está no Brasil, o hidrogênio verde mais barato também será no Brasil. Vamos ficar olhando para o que está acontecendo nos EUA por circunstância política eleitoral?”.
A head de ESG da BB Asset compartilha da visão positiva e da continuidade do processo de descarbonização global. “Vemos necessidade de investimentos mais aprofundados voltados para transição climática. Existem regulamentações internacionais que obrigam empresas e gestores a se descarbonizarem e isso para nós é uma oportunidade. Dentro dessa visão de curto, médio e longo prazos estamos reforçando nossas estratégias de fundos sustentáveis. Acreditamos que esses produtos vão fomentar ainda mais essa possibilidade de transição para economia de baixo carbono”, diz Breyer.
Segundo ela, a parceria entre JGP e BB Asset será um hub de investimentos sustentáveis com diversas estratégias, incluindo crédito, ações, private equity, e venture capital, abrangendo diferentes níveis de negócios mas sem abrir mão do retorno. O fundo de renda fixa lançado pelas duas casas investirá na carteira de crédito ESG da JGP, que nos últimos anos criou um pipeline de projetos verdes nos quais participa da concepção e estruturação dos ativos. “O nível de impacto causado é relevante e os retornos serão atrativos”, diz Guilherme Bragança“.