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Papéis estavam descontados
Gestoras que prospectaram oportunidades conseguiram ótimos resultados em seus fundos de ações no ano passado, mas isso não deve se repetir neste ano

Edição 364

O ano passado marcou um momento particular no mercado de ações brasileiro, durante o qual poucas empresas de altíssima qualidade foram negociadas a preços muito atrativos, com taxas de retorno elevadas. Apesar disso, o cenário macroeconômico ainda provocava incertezas e nem todos os gestores conseguiram explorar bem essas oportunidades, lembra Daniel Tavares, sócio da Oceana Investimentos. “Por ficarmos sempre muito próximos das empresas, nós sabíamos o quanto elas estavam descontadas e decidimos deixar o tempo trabalhar a nosso favor”, diz.
Os fundos da asset, exclusivamente de ações, buscam a preservação de capital com um modelo de gestão baseado nos cenários de possível estresse para cada uma das empresas que integram o portfólio. A base desse modelo é uma avaliação de como as empresas se comportariam nesses períodos. “Um diferencial importante é que nós nos concentramos em buscar ativos que tenham boa margem de segurança e preços de ações que “aguentam desaforo” durante algum tempo. Sempre atuamos assim, e embora o curto prazo possa não ser tão atrativo, o portfólio defensivo nos leva a um retorno acumulado superior à média da indústria”, observa o sócio Alexandre Rezende.
Em 2023, a carteira manteve a qualidade dos ativos, apostando no setor bancário (Itaú e BTG Pactual), em empresas do setor elétrico, como a Equatorial, e em commodities, com destaque para a Suzano. “A principal vantagem de um portfólio com esse tipo de empresas é sua capacidade defensiva em momentos de crise e o fato de que elas tendem a emergir melhor desses períodos porque são dominantes em seus setores, ganham mais qualidade e geram retornos mais adequados ao longo do tempo”, afirma.
Este ano, embora algumas companhias ainda possam ser consideradas baratas, isso não é mais válido para a bolsa como um todo e há empresas que já não oferecem mais a margem de segurança requerida para compor a carteira. “O panorama macro apresenta várias dúvidas e a seleção de ativos hoje é ainda mais importante do que a simples decisão do investidor ter ou não ter mais bolsa em seu portfólio”, diz Rezende. Os papéis dos bancos continuam interessantes, assim como energia elétrica e alguns ativos de commodities que apresentam oportunidades.

Sem “cantar pneus”- A visão cautelosa dos gestores de fundos de ações acabou recompensada por um final de ano com cenário melhor do que o esperado, ainda que os primeiros meses de 2024 tenham refreado o ânimo de rally na bolsa. Para Marcos Peixoto, gestor responsável pelas estratégias de renda variável da XP Asset Management, é importante observar que nenhuma das ameaças globais de 2023 foi concretizada.
Inflação em disparada, mais aperto nos juros, recessão econômica e quebradeira de bancos nos EUA, nada disso aconteceu. “Mas o primeiro semestre foi complicado e o cenário só clareou no final do ano. No Brasil, como estamos a reboque do que acontece lá fora, até meados do ano muitas dúvidas pairaram sobre o que o ministro Haddad iria conseguir fazer, até que no fechamento do ano ficou claro que ele foi muito bem”, diz.
Em 2024 o mercado ainda não deverá “virar a chave” para fazer apostas mais agressivas em bolsa, mas o ano passado foi bom e esse dinheiro começa a vir para os fundos. “Os lucros das empresas, que devem perder 5% no balanço de 2023, tendem a subir 15% a 20% este ano, em grande parte graças à queda da Selic”, acredita.
Este ano, a discussão principal do mercado gira em torno do ritmo do corte de juros pelo Fed, se virá em maio ou junho, assim como a velocidade do corte da Selic pelo BC, com a inflação perto da meta também no Brasil. “O debate ficou melhor do que no ano passado e o ambiente é bom para ativos de risco, mas também não vamos sair cantando pneus”, avisa Peixoto.
A tendência é de que haja uma acomodação de patamar na bolsa, uma vez que o mercado antecipou uma parte da alta no final do ano. “Agora falta as empresas melhorarem de fato os seus resultados porque a queda da Selic ajuda mas isso já está na conta”, pondera o gestor. O que falta mesmo é melhorar o operacional das companhias e a revisão dos lucros já chegou perto do vale de baixa. “Os lucros precisam começar a ir para cima, o que deve acontecer mais no segundo semestre”, avalia.

Participações relevantes - A classe de fundos de ações teve um começo de ano difícil em 2023, marcado por resgates expressivos na indústria de fundos de ações e pelo ambiente de “ressaca” política logo após a posse do novo governo brasileiro, que começou a melhorar no segundo semestre e terminou com um quarto trimestre particularmente positivo para a bolsa, lembra André de Escobar, responsável pela área de desenvolvimento de negócios e RI da Tarpon Investimentos.
A asset, focada em ter participações relevantes em empresas, possui R$ 7,5 bilhões alocados em fundos segmentados em duas estratégias básicas: a GT, no modelo long only mais tradicional e horizonte de longuíssimo prazo, e a Intersection, que investe com uma abordagem de private equity e engajamento com as empresas. “Ambas operam de maneira complementar, com atribuição de performance bem distribuída”, conta Escobar.
A filosofia de longuíssimo prazo da estratégia GT aponta para carteiras sem mudanças relevantes ao longo do tempo. Segundo Escobar, na estratégia GT estão papéis como Serena Energia, Hidrovias do Brasil e Wilson Sons. “São papéis de empresas líderes, que detém força de marca e forte geração de caixa”.
Já a estratégia Intersection é ainda mais concentrada que as seis a oito posições que formam o core da estratégia GT. “Os fundos da Intersection são FIAs normais, porém com liquidez mais baixa e menor flexibilidade para entrada e saída, porque o pensamento é de private equity”, observa Escobar.

Melhores gestores em Ações (arquivo em pdf)