Mainnav

Estabilidade, após saques
Investidores sacaram recursos dessa classe de ativos ao longo de 2023 para aplicar em NTN-Bs, se institucionais, ou em papéis incentivados, se varejo

Edição 364

As posições em renda fixa foram as principais responsáveis pelo desempenho favorável dos multimercados da Kinea ao longo do ano passado, com destaque para os mercados globais, cujos movimentos em meio à turbulência do juro americano abriram espaço para ganhos, conta Marco Freire, sócio e chefe de investimentos da área de fundos líquidos.
Foi na renda fixa que a gestora conseguiu um desempenho diferenciado em relação à média da indústria. “O ano começou com o mercado muito cético em relação ao governo Lula e às questões fiscais, mas aqui achávamos que haveria moderação fiscal e baixa da inflação, então no primeiro semestre mantivemos posições relevantes em juros no Brasil, que foram a principal fonte de retorno naquele momento”, explica. Cerca de um terço dos resultados dos fundos veio daí, enquanto dois terços refletiram as apostas globais, com algumas composições que foram relevantes diante dos “sustos” que abalaram o mercado.
Logo no início de março veio a quebra do Silicon Valley Bank, voltado para as startups do Vale do Silício, o que abriu a perspectiva de uma quebradeira provocada pelo efeito em cadeia nos bancos americanos. Caso isso se concretizasse, trazendo uma crise bancária generalizada, o banco central dos EUA (Fed), que já vinha promovendo o aperto monetário desde 2022 para combater a inflação, poderia ser obrigado a interromper o processo de alta dos juros e até mesmo decidir cortar as taxas no final do ano frente à ameaça de uma eventual recessão. “Em março, essa percepção de quebradeira de bancos nos EUA gerou pessimismo nos mercados, mas nós entramos contrários àquele movimento e fizemos posições para uma alta do juro dos bonds americanos”, diz.
A asset garantiu também posições vencedoras em moedas, que favoreceram principalmente as moedas dos países emergentes. “Ficamos a maior parte do ano comprados no peso mexicano e vendidos em euros, conta Freire.
O ano de 2024 tende a ser bom para os ativos de risco, acredita o gestor. Na bolsa local, a projeção do mercado é de alta de 15% nos lucros por ação este ano, o que reforça o efeito positivo do corte dos juros somado ao valuation mais atrativo das empresas. “Temos hoje bastante posições em ativos de bancos, companhias do setor elétrico, saneamento e um pouco de construção civil para a baixa renda”, afirma. Já na bolsa dos EUA, o foco é nos setores de semicondutores, que apresenta maior demanda devido à Inteligência Artificial, e também na indústria porque o ciclo de crescimento mundial começa a virar para cima.
Entre os temas interessantes para compor as estratégias este ano estão ainda os ativos ligados às commodities. “A soja vai cair, por conta da supersafra, enquanto a simetria dos preços do petróleo é para baixo porque tem sido cada vez mais difícil para a Opep segurar os preços. Os preços do urânio, por sua vez, só tendem a aumentar, devido à forte demanda para suprir o mercado de energia renovável”, diz Freire. Ele lembra que a China tem construído diversas plantas de energia nuclear e os preços já estão sob pressão altista em 2024.
Os fundos da casa têm hoje uma parcela um pouco maior de bolsa internacional do que Brasil nos seus portfólios. “O time de 40 profissionais consegue cobrir bem o mercado lá fora, o que tem sido um diferencial importante para os fundos de pensão terem acesso aos ativos internacionais via mandatos em reais”, afirma o gestor.
No mercado de juros, a Kinea mantém apenas posições globais, nada local. “ O juro deve cair lá fora, mas não muito. Temos também posições de juros em Austrália e Reino Unido, mercados em que as taxas podem cair mais do que está precificado na curva. Na Austrália, há espaço para cortes de juros e no Reino Unido a inflação já deve chegar à meta em abril, o que também pode sinalizar cortes”, explica Freire.

Concorrência dos isentos - À exceção dos últimos dois meses de 2023, a indústria de gestão teve um ano difícil, particularmente complicado para a classe dos multimercados, que sofreram uma sangria de recursos pelo segundo ano consecutivo. O impacto veio por conta das incertezas causadas pelo movimento dos juros globais mas também devido à forte demanda local por ativos isentos de imposto de renda. “Isso criou um ambiente ruim para a competição. Tanto investidores institucionais quanto pessoas físicas tiveram pouca justificativa para fazer algo além da renda fixa”, avalia Bruno Horovitz, sócio e responsável pela área de RI da gestora Icatu Vanguarda.
Este ano, com as mudanças regulatórias introduzidas pela CVM, que limitam as possibilidades de lastro utilizado na emissão de parte dos títulos isentos, a expectativa é de que o ambiente fique um pouco mais saudável. Por enquanto, contudo, a aversão a risco dos institucionais continua forte e não dá nem para começar a falar em risco de bolsa, pondera Horovitz.
A perspectiva poderá melhorar a partir do terceiro ou do quarto trimestre do ano, quando a Selic chegar a um dígito e o investidor talvez fique um pouco mais receptivo ao risco. “Em 2023, as gestoras sofreram uma redução de tamanho não desprezível, fomos uma das poucas casas que aumentaram patrimônio nesse período, até porque somos multi produtos”, diz.
No caso dos multimercados, que já vinham sofrendo com a saída de recursos desde o segundo semestre de 2022, o ano passado foi uma pá de cal que reduziu o tamanho dessa indústria”, lembra Horovitz.
Em meio às turbulências, a asset colheu resultados positivos de sua estratégia long biased que tem perfil diverso da maioria dos multimercados desse tipo no Brasil, informa Horovitz. O fundo Igaraté nasceu em dezembro de 2019 mas foi alterado pela gestora em 2022 para ficar mais ativo, mais parecido com os típicos long biased lá fora. Para isso, ganhou características que o aproximam de um hedge fund de bolsa, com proteções como as de opções e índices futuros, que permitem ajustar com mais agilidade o tamanho de suas posições compradas ao longo do ano.
“Esse foi o nosso super foco em 2022 e 2023 e o fundo que mais cresceu na casa. Trata-se de um total return de bolsa no formato de multimercado institucional e tem um modelo quase único no Brasil”, resssalta Horovitz. O principal diferencial é poder ficar de zero a 100% comprado em bolsa, o que aumenta sua probabilidade de “ser feliz no longo prazo” e dá uma experiência “mais amistosa” para o investidor.

Semestre difícil - A perspectiva macroeconômica que está sendo considerada pelos mercados é positiva para 2024, com a sinalização de crescimento do PIB brasileiro na casa de 2% a 2,25%, juro perto de 9% e inflação de 4%, isso sendo pessimista, avisa Fernando Lovisotto, sócio e CIO da Vinci Partners.
Além dessas projeções locais, há o fato de que os EUA podem iniciar o ciclo de corte do juro. “A preocupação mais palpável agora é saber se haverá mesmo o corte e quando o Fed começará esse movimento , mas acreditamos que serão três cortes de 0,25%”, afirma. No Brasil, falta apenas o catalisador fiscal, com números capazes de ajudar a curva longa dos juros a fechar, inclusive o juro real, que ainda está alto. “Se os EUA iniciarem a redução de suas taxas no segundo semestre, e no Brasil a Selic chegar a 9%, teremos um ambiente muito bom”, acredita.
Do ponto de vista dos investimentos, o primeiro semestre promete ser ainda difícil para os multimercados, diz Lovisotto. “Aqui na Vinci não sofremos muitos resgates, até porque somos relativamente pequenos nessa classe, com R$ 2 bilhões sob gestão, mas olhando para a indústria o dinheiro continua a sair e não entra porque as fundações resgatam e carregam nas NTN-Bs, enquanto a pessoa física resgata e vai para os títulos isentos, como LCI, LCA e CRA”, observa.
A mudança na tributação dos fundos exclusivos pode trazer uma parte dos recursos de volta para essa classe, ao mesmo tempo em que o aperto da CVM para restringir o lastro dos ativos isentos pode significar que vencimentos da ordem de R$ 300 bilhões não voltarão para esse mercado, mais um fator que tende a ser positivo para os multimercados.
“O primeiro semestre ainda será difícil no que diz respeito a resultados, mas o investidor precisa olhar para o ano fechado e a classe deverá entregar desempenhos bons. Se olharem apenas para o desempenho do primeiro semestre, continuarão a resgatar”, diz.
Em 2023, o desempenho dos fundos da asset mostrou que a seleção setorial foi bem, como no fundo Auguri, um long and short enquadrado para os investidores institucionais, estratégia que segue animadora este ano, com destaque principal na seleção de ações domésticas ligadas ao ciclo da economia local. “No ano passado, os ganhos vieram mais de commodities, especialmente Petrobras, e do crédito”, explica.
Outras estratégias da casa, que fazem asset allocation, também tiveram destaque em meio ao cenário de corte de juros. “Este ano, o diferencial de juros locais e globais deve ser mantido em patamar que não atrapalhará a valorização do real. Em 2023 tínhamos cerca de 15% comprados em bolsa e fomos muito táticos em dólar, o que nos permitiu travar bem” diz.

Menos obviedade - Se o investidor tem multimercados em seu portfólio, faz sentido ter a parte internacional, de modo a combinar os resultados local e de exterior, afirma Daniel Celano, diretor presidente e CIO da Schroders no Brasil. Ele destaca estratégias que fazem hedge cambial lá fora e conseguiram ganhar tanto com a parte local quanto a global. E enfatiza que, apesar das dificuldades dos mercados, houve um acerto surpreendente dos gestores mais idiossincráticos.
O fundo da plataforma Gaia, que a asset mantém no Brasil, é da gestora Contour, uma butique de investimentos especializada no setor TMT, ou seja, a carteira aloca exclusivamente em tecnologia, mídia e telecomunicações. “É um long and short, market neutral, cujo objetivo é capturar alfa, e ganhou nas posições compradas e vendidas. O gestor soube capturar bem os movimentos dos mercados ao longo do ano, essencial para o seu desempenho”, observa.
A eficiência da gestão significou identificar empresas ruins e também encontrar investimentos menos óbvios nesse mercado, para capturar valor. “Em 2023, algumas das mega techs apareceram na carteira, como a Microsoft, Meta e Amazon”, conta Luiz Fernando Pedrinha, diretor comercial para clientes institucionais.

Paridade de risco - A capacidade da gestão para alterar rapidamente a alocação de risco foi uma variável essencial no ano passado, para que os gestores pudessem fazer movimentos drásticos nesse sentido, observa Ian Caó, sócio e CIO da Gama Investimentos. Entre os multimercados de investimento no exterior da asset, ele ressalta o fundo da Man Group. O fundo segue o conceito de target risk ou risk parity (paridade de risco). “Esse modelo deveria ser quase estrutural a partir de agora porque é uma forma de estar alocado no prêmio de risco”, diz.
Para isso, a gestora do fundo desenvolveu três modelos quantitativos que buscam antecipar momentos dos mercados em que as estratégias não funcionariam, criando gatilhos de proteção, explica o gestor. Isso assegura a alocação de risco dinâmica, que no ano passado permitiu antecipar inclusive os movimentos de normalização dos mercados no último bimestre de 2023. “É uma técnica de overlay para controlar riscos, que deve ganhar espaço agora, com o mercado dando sinais de voltar ao normal”, avalia.

Melhores gestores em Multimercados (arquivo em pdf)